Publicado 04 de Janeiro de 2022 - 8h41

Por Gabriel San Martin


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"Lais Myrrha, atualmente em exposição na Pinacoteca de São Paulo, consegue ir além de mero comentário melancólico quando trata desses temas"

As formulações construtivistas da arquitetura moderna forjaram sempre certo progressismo maleável com a premissa funcionalista enquanto coisa central à sua agenda. Isso não significa que, por vezes, essas ideias deixaram de ceder ao conveniente ou tomar nuances de uma abstenção estranha a termos de modernização. Mas, ainda assim, não tenho dúvida de que o caminho para a popular utilização de formas básicas tem vínculo estreito a essa obsessão funcionalista, de experiências metódicas e controladas. No Brasil, e em boa parte da América Latina, a deposição mansa de alguns princípios modernos, é claro, não poderia deixar de vigorar. No limite, é difícil não identificar vestígios de uma arquitetura colonial no desenho de diversos edifícios de Brasília. E Lais Myrrha, atualmente em exposição na Pinacoteca de São Paulo, consegue ir além de mero comentário melancólico quando trata desses temas.

Em O Condensador de Futuros, Lais apresenta um site specific que consiste em uma forma côncava branca, à altura de 1,30m do chão, que ocupa todo o espaço do projeto Octógono Arte Contemporânea da Pinacoteca. As referências à cúpula do Senado Federal e à arquitetura de Brasília são óbvias. Seja pela dimensão e a forma que o trabalho toma para si ou pelo título e a escolha do material, tudo alude em alguma medida à arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa - mas sem aderir a qualquer nostalgia ou pastiche histórico, evidentemente.

Com inteligência, o trabalho atravessa esses pontos sem abandonar uma potência plástica que estabelece algo de um confronto entre a arquitetura do museu e a de Brasília. Ou melhor, a obra não procura discrição nenhuma. E, por assumir o estatuto de um trabalho moderno, deve lidar com um espaço ativo. É curioso, no entanto, que a via para estimular esse espaço pareça consistir na operação de inserir o ambiente instaurado pela obra em disputa com a continuidade dócil do espaço arquitetônico do museu. Ao invés da solução moderna, por exemplo, de utilização da fita de moebius para suprimir a distinção entre interior e exterior, delimita-se dois espaços distintos que inauguram uma ideia de "dentro" e "fora" até então inexistente no interior daquele ambiente.

Em sentido oposto, talvez, aos trabalhos Fred Sandback, o concreto que povoa o Condensador de Futuros incita sempre certa brutalidade própria do processo de divisão do espaço. Não há sutileza, apesar de a estrutura côncava parecer cuidadosamente apoiada no octógono formado pelas paredes do museu. O concreto da superfície desafia as paredes de tijolos. Ao passo que o concreto frequentemente procurou exprimir uma neutralidade elementar - especialmente em prédios modernistas -, aqui ele clama por atenção às suas propriedades intrínsecas. As formas geométricas nunca acataram à neutralidade que lhes tentaram impor. E tenho a impressão de que o fulcro do trabalho parece sempre se voltar a algo de uma memória moderna relacionada à persistência por uma falsa neutralidade das formas.

Como uma fratura, cada vez mais a arte contemporânea pleiteia a revisão de um passado modernista recente que tenta ocultar os vestígios de seus impasses. E estou convencido, nessa via, de que a força do trabalho de Lais Myrrha emana da sua originalidade em praticar essa revisão partindo do ponto de vista da arquitetura. Mais do que não acatar ao abandono de uma inteligência visual nos trabalhos, existe ao menos certa capacidade de mobilizar pontos de vista diversos, que vão além do discurso político convencional, para repensar a face real de uma modernidade com espessura turva.

Natural que processos revisionistas de aspirações por totalidades frágeis tenham se tornado assunto quase corriqueiro da arte contemporânea. Mas, é intrigante que Lais procure alternativas capazes de inibir qualquer indiferença a temas regularmente tragados por essas análises. No fim das contas, revisionismos simplificadores nunca bastaram - e, francamente, torço para que nunca bastem.

Escrito por:

Gabriel San Martin