Publicado 30 de Novembro de 2021 - 8h58

Por Sérgio Castanho*

Mallorca é a maior das Ilhas Baleares, província da Espanha, arquipélago do Mediterrâneo ocidental

Ilustração

Mallorca é a maior das Ilhas Baleares, província da Espanha, arquipélago do Mediterrâneo ocidental

Cadê o revisor? É evidente que esse título "Saudosa Mallorca" está errado. Até os pardais do Bexiga sabem que a famosa canção de Adoniran Barbosa é "Saudosa Maloca". E então, como ficamos?

Que me perdoem os admiradores do genial Adoniran, mas desta vez vamos ficar sem a canção, sem os gemidos de saudade da maloca demolida, sem as pedras que caíam da casa velha, do palacete assobradado, ferindo o coração do sambista, do Mato Grosso e do Joca. Vamos dar um salto no mapa, saindo da maloca paulistana e caindo na Mallorca espanhola, dita Maiorca em latim e também em português.

Mallorca é a maior das Ilhas Baleares, província da Espanha, arquipélago do Mediterrâneo ocidental que abarca ainda Menorca, Ibiza, Formentera e Cabrera. Em Maiorca fala-se, além do castelhano, o maiorquino, dialeto do catalão. A contragosto, alguns maiorquinos também se expressam em catalão puro. Mas preferem deixar o catalão para os catalães de Barcelona. A capital é Palma, bimilenar, que se soma a uma centena de municípios da ilha, como Manacor, onde se cultivam as pérolas, e como Santa Margarita, onde nasceu minha avó materna, também Margarita, Margarida ou Margalida.

Nasci ouvindo a avó falar de Maiorca, trespassada de saudade. Saiu de lá no raiar do século vinte, mal chegada aos quinze anos. O pai, Antonio Morey Serra, meu bisavô, tinha uma tecelagem, amealhou fortuna, ia jogar em Monte Carlo. Numa dessas, perdeu no jogo um palacete que construíra na entrada de Santa Margarita, encheu-se de desgosto e resolveu sair de sua terra natal, deixar com um cunhado procuração para cuidar dos bens, fazer-se ao mar e abalar para a América. Era viúvo. Embarcou em Barcelona com as filhas Margarita, Francisca e María e o filho Sebastián. No navio, o capitão, com quem fizera amizade, tentou dissuadi-lo de desembarcar no Brasil, "tierra de níguas", "terra de bicho-de-pé", e convencê-lo a descer em Buenos Aires. Mas o decidido Serra - em catalão é Serra mesmo e não Sierra - veio para o Brasil, instalou-se em Campinas, comprou uma terrinha em Vinhedo e aqui ficou até que a Parca o levasse.

Escrevi que nasci ouvindo a avó falar de Maiorca. Mais: falar em maiorquino. Quando as três irmãs se reuniam na casa de uma delas, na de minha avó, na rua Costa Aguiar, meus ouvidos infantes se inebriavam com aquele sibilar contínuo - ci, ci, ci, xi, xi, xi - numa língua mais cantada que falada. Muito depois disso, quando estive na Galícia de meu avô Plácido, marido da avó maiorquina, percebi que o galego, origem do português, era ainda mais sibilante que o catalão maiorquino. A Rua General Gimenes, em Santiago de Compostela, era "Rua do Xeneral Ximemes", algo como a língua da Xuxa.

Minha avó era dona de uma memória prodigiosa. Tendo vindo tão jovem de Maiorca, trouxera consigo um incrível acervo da cultura ágrafa insular. A propósito de qualquer coisa do cotidiano, lá se saía ela com uns versinhos na sua língua de nascença. Quando provocada sobre se era bonita, se tinha despertado paixões, logo tascava versinhos de um namorado: "Margalidas son cercadas / Per voreras i camís. / Emperó non hé trobadas / Quan la que hi há qui dedins." (Margaridas são buscadas / Nas veredas e caminhos. / Mas não encontradas / Como a que há aqui dentro). Quando alguém sedento corria a matar a sede com um copo de água, soltava ela: "Las lotas in Diumenge / Quan non tenen res que fer / Regan el seu claveller / I diuen: - Beu, já que no menjas". (As moças no domingo / Quando não têm nada a fazer / Regam o seu craveiro / E dizem: - Bebe, já que não comes!).

Mas, afinal, não era para falar da nostalgia de Maiorca que vim hoje cronicar com esta "Saudosa Mallorca"? Sim, era e é. Pois então: quando, tomada desse sentimento que em inglês é spleen, em castelhano é nostálgia, em português é saudade, quando se lembrava da partida do barco que a levou de Palma de Maiorca, dizia, "naquela voz de choro tão desconsolada" como a de Vicente de Carvalho: "Quan vaig al mitg de la mar / I já no veia cap porta / Vaig diure: - Adiós, Mallorca! / Ditchós quin podrá tornar!" (Quando, já no meio do mar, / Não via mais nenhuma porta / Eu disse: - Adeus, Maiorca! / Feliz quem puder voltar).

Ela não voltou. Feliz de quem, como o cronista, sem ter de lá partido, mas tendo assimilado da avó a rica cultura do povo ilhéu, para lá voltou. E pôde saborear, na praia de Son Serra de Marina, os olhos no Mediterrâneo, um bom pedaço de "Coca de Julivert" em catalão, "Coca de Perejil" em espanhol ou "Pizza de Salsinha" em português napolitano.’

* Sérgio Castanho é pesquisador e professor de História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL)

Escrito por:

Sérgio Castanho*