Publicado 24 de Novembro de 2021 - 8h49

Por Delfin / Caderno C

Capa do gibi da Mônica

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Capa do gibi da Mônica

Eu estava batendo um papo com alguns amigos que, em algum momento, trabalharam com crítica de quadrinhos. Alguns deles hoje são editores, outros permanecem como críticos e, o mais importante, todos permanecem grandes camaradas. O meio dos quadrinhos faz isso com a maioria das pessoas que eu conheço, une muitíssimo mais do que desagrega. Isso é muito importante quando surgem questões que podem ser polêmicas, pois sabemos que, entre amigos, existe uma área segura, de respeito, debate sério e compreensão mútua. O assunto era a mudança de roupa recente pela qual passou o personagem Papa Capim, que, como podemos ver na imagem que acompanha a coluna de hoje, está vestido como uma criança indígena de hoje em dia, mesclada em centros urbanos, sem perder as suas raízes.

Certamente, a MSP, que publica e gerencia as criações de Mauricio de Sousa, teve boas razões para promover a mudança. Do mesmo modo que fez quando colocou sapatos em toda a Turma da Mônica no seu novo programa televisivo recém lançado no Japão. Ou quando a Tina, a Pipa e o Rolo, passado o período riponga, se adequaram a uma vida de jovens adultos muito mais condizente com os dias atuais. A Tina, aliás, continua evoluindo e, recentemente, decidiu-se por sua formação acadêmica em jornalismo, para combater as mentiras disseminadas principalmente pela internet.

Esta última mudança da Tina causou furou entre reacionários, em especial o ex-assessor especial da Presidência da República, Arthur Weintraub, que mistura alhos com bugalhos em um tuíte mentiroso sobre o tema.

Não há como saber ao certo se a crítica ideológica do irmão do ex-ministro da Educação do atual governo brasileiro advém do grande apreço que ele tinha pela personagem no passado. Mas parece: esse tipo de comentário, feito geralmente por adultos que não consomem mais produtos culturais como quadrinhos e desenhos animados (porque não são mais dirigidos a eles, tudo bem em relação a isso), gerou essa onda de pseudoconservadorismo pelo qual a mídia voltada para o público infantojuvenil passa nos últimos dez anos, mais ou menos. É o famoso caso do “destruíram a minha infância”. Alguns exemplos pontuais: “Tiraram o calção do Superman!”, “Deixaram os Jovens Titãs uns idiotas sem noção!”, “É inacreditável fazerem isso com os Thundercats!”, “Que raios de desenho da She-ra é esse que fica só lacrando?”.

A resposta-padrão para estas mudanças em personagens queridos e antigos é invariavelmente “Odiei!” e, quase sempre é acompanhada pelo velho comentário “Não vi e não gostei!”, o que fala por si só quanto ao quão avalisada é esse tipo de opinião.

É muito pequeno acreditar que toda uma infância pode ser destruída porque mudanças em produtos culturais que você não consome mais foram feitas. O que não impede críticas: a nova versão dos Thundercats era ruim de doer e por isso foi cancelada. Mas e a Tina e suas evoluções? E a Mônica Toy? E o Chico Bento Moço? E o novo Mr. Magoo, divertidíssimo? Há inúmeros exemplos por aí.

Digo isso para concluir que sua infância só será destruída se você for triste demais para querer algo assim, depois de velho.

Escrito por:

Delfin / Caderno C