Publicado 23 de Novembro de 2021 - 9h14

Por Gabriel San Martin

Proveniente dessa atenção às especificidades seja, talvez, a sua atenção tão minuciosa e energética no que tange ao modo como as coisas se estruturam

Felipe Reis

Proveniente dessa atenção às especificidades seja, talvez, a sua atenção tão minuciosa e energética no que tange ao modo como as coisas se estruturam

Imperfeitos. Estou convencido de que seja esse o ponto de partida dos trabalhos de Regina Dutra. Não no sentido de que essas esculturas sejam incapazes de suprir o que propõem, mas quero dizer elas parecem aderir a certa imperfeição por conseguirem mobilizar organicidade em tudo. Ou melhor, Regina percebe que as coisas não tendem exatamente a formas ideais. E o fato é que nada de seu trabalho aceita idealizações geométricas ou formalizações universais: por mais que se tente repetir, há sempre algo de diferente - quase como um antônimo da experiência minimalista. Se há gesto humano, reproduzir perfeitamente nada mais é do que uma tarefa impossível.

É claro, não há para Regina Dutra qualquer novidade nisso. A uma artista que vê tanto de um repertório artesanal em sua produção, a presença humana e a irresoluta dessemelhança da reprodução manual são coisas triviais. Agora, o que não pode ser corriqueiro em qualquer sentido é o resultado desses trabalhos: eles devem sempre guardar uma incógnita. Algo da espécie de quando se cava um buraco sem saber bem a forma que ele vai tomar. E, no caso de Regina, cava-se dez, vinte buracos, mas sempre mantendo padrões irregulares entre eles - seja por um detalhe ou por diferenças escancaradas.

Proveniente dessa atenção às especificidades seja, talvez, a sua atenção tão minuciosa e energética no que tange ao modo como as coisas se estruturam. Reside nessa esmiúça a solução em que vão cair os seus trabalhos mais recentes, como é o caso da sua série de corações: através do agrupamento de pequenas saliências e a utilização de formas curvas, recusa-se qualquer determinação fácil. Se, de modo geral, as suas esculturas (que, às vezes, sustentam mais algo da natureza de relevos de parede) parecem dispor de certa informalidade inicial, elas adquirem fisionomias identificáveis à medida em que são observadas mais longamente. Mais do que corações, tomam a aparência, por exemplo, de recifes de corais ou anêmonas-do-mar. E a escolha dessas feições é particularmente curiosa. No lugar de aludir a objetos inorgânicos, essas esculturas sugerem seres-vivos ou órgãos. Acontece, no entanto, que a seleção de seres-vivos tão particulares termina por dar a falsa ideia de objetos inanimados, de aparência praticamente decorativa. É um terreno movediço, em que se pisa esperando uma coisa para depois ficar evidente que é outra.

Da minha parte, tenho a sensação de que os trabalhos incitam de alguma forma a esse caráter orgânico em todos os seus sentidos. A pretensão de Regina por vivacidade concede certa impressão de uma coisa ainda por vir, deixando algo de uma relatividade aparente no que diz respeito ao material dessas obras consistir mesmo em cerâmica ou em alguma textura de um ser-vivo/dejeto natural. Por mais que se saiba o que são, é como se cada parte dos trabalhos quisesse ser outra coisa: os materiais se apresentam com um destempero em relação àquilo em que realmente consistem, numa tentativa propriamente de atribuir vida ao objeto. Processo semelhante ao de Brancusi, mas lidando com a composição do material em sentido inverso.

No fim das contas, a atual exposição de Regina Dutra, no Subsolo, é das mais completas. Abarca desde a sua primeira pintura até a produção recente, atravessando de trabalhos mais potentes até outros menos relevantes. Tal amplitude, sem dúvida, termina por ter aptidão em apresentar a produção da artista de modo bastante significativo mesmo a um público não subscrito a qualquer conhecimento prévio daquelas obras. E a falta de familiaridade com os trabalhos talvez possa me levar a conclusões precipitadas, mas vejo força em boa parte do que vi exposto naquelas salas.

Local: andar térreo do Subsolo - Laboratório de Arte

R. Proença, nº 1000, Bosque, Campinas

De 8 de novembro a 12 de dezembro (com agendamento) - Entrada gratuita

Escrito por:

Gabriel San Martin