Publicado 17 de Novembro de 2021 - 8h44

Por Delfin / Caderno C

Lovistori

Ilustração

Lovistori

Gosto muito de música. Senão, não teria tido um programa de rádio nos últimos vinte anos, primeiro transmitido pelas ondas da gloriosa e infelizmente saudosa Rádio Muda FM, transmitida direto de uma caixa d’água na Unicamp, e, com o tempo e minhas andanças, migrando confortavelmente para sua casinha particular na internet. Meu programa, que se chama Ninho do Coruja graças a uma série de reportagens que fiz na Copa de 2002 para o também saudoso Diário do Povo, é um mar de ecletismo musical cercado de muita opinião por todos os lados. Coisas que apenas o rádio não comercial pode proporcionar a um radialista. Do rock à música eletrônica, do experimentalismo à música clássica, do punk à MPB, todos os sons convivem pacificamente nessas duas horas dominicais ao vivo que fazem valer minha semana.

O título deste texto, você talvez saiba, pertence à canção Paula e Bebeto, composta por Caetano Veloso e por Milton Nascimento, este último também intérprete da canção. O casal de amigos de Milton existe na vida real e, após um longo namoro seguido de noivado, decidiu se separar na véspera de seu casamento. Até hoje são amigos e se amam a seu modo, mas seguiram caminhos separados, ainda que, como diz o cantor mineiro em sua música, eles permaneçam juntos na canção.

Quem também canta a liberdade de se amar sem amarras é Cazuza, que, em sua composição com Frejat, Todo amor que houver nessa vida, lembra que o amor também é remédio que dá alegria e um veneno que acaba com a monotonia. O cantor, que sofreu à vista pública após contrair AIDS nos anos 1980, viveu sua liberdade de amar até o final.

Quadrinhos são um terreno fértil para as histórias de amor mais inusitadas, como também para aquelas histórias que ainda insistem em se esconder do conservadorismo social que, aos poucos, vai sendo vencido por conceitos cada vez mais progressistas do amar. Núcleos amorosos e familiares são diversos, mas sempre mantêm em si um único núcleo quando são verdadeiros: o amor, um sentimento cuja explicação é desnecessária para quem se conecta realmente aos seus.

Paixão e Sereia, assim como Paula e Bebeto, são um belo casal que ainda está no início de sua relação. É o aniversário de um ano de seu namoro e a história dessas duas pessoas seria apenas mais uma de amor, como cantava a Blitz, não fosse o fato deles não poderem revelar ao mundo sua relação. Paixão é policial no Rio de Janeiro. Sereia, mais uma travesti no calçadão.

Este é o pano de fundo de Lovistori, roteirizada por Lobo, ex-editor da Barba Negra, e ilustrada por Alcimar Frazão. Publicada pela Brasa, a própria editora de Lobo, a história nos lembra como parte da sociedade só quer que tenhamos liberdade para amar se estivermos presos, contidos por quatro paredes. Do mesmo modo que, quando se ousa romper esta fronteira tácita, as reações podem ser violentas, colocando à mostra preconceitos, ódio e a tosquice reservada aos que não querem mais aprender em um mundo que sempre muda, que sempre traz o novo que Belchior cantava.

Um sonho meu é que pessoas tenham dias felizes, que convivam como os estilos musicais convivem em meu programa de rádio. Só que isso leva tempo. Que tal começar agora?

Escrito por:

Delfin / Caderno C