Publicado 13 de Novembro de 2021 - 9h25

Por Estéfano Barioni/ Correio Popular

Fachada do Ministério de Ciência e Tecnologia, em Brasília

Divulgação

Fachada do Ministério de Ciência e Tecnologia, em Brasília

No mês passado, o governo federal realizou um corte de R$ 600 milhões no orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia. O valor representa 92% da verba para a ciência e tecnologia no Brasil e é destinado ao financiamento de pesquisas e de investimentos na área, incluindo pagamento das bolsas de pesquisadores que possuem dedicação integral ao desenvolvimento da pesquisa científica.

Ciência e crescimento

A ciência tem uma função estratégica muito importante na economia, como forma de sustentar o crescimento. Para existir crescimento econômico, é preciso aumentar o valor da produção (não estou falando de preços, mas de valor). Existem duas formas de se fazer isso. A primeira é aumentar a quantidade do que é produzido, o que requer o aumento dos insumos e dos fatores utilizados na produção.

FRASE

"O investimento em conhecimento paga os melhores dividendos."

Benjamin Franklin, inventor e político norte-americano

Aumento quantitativo

Nessa abordagem, aumenta-se o capital produtivo (número de fábricas, máquinas, fazendas, etc.) e a quantidade de pessoas empregadas na produção. Essa estratégia é boa, mas tem suas limitações pois oferece ganhos de produção cada vez menores conforme se aumenta o uso dos fatores (capital e trabalho). Em "economês", se diz que o aumento do uso dos fatores produz retornos decrescentes. Ou seja, quanto mais você usa capital e trabalho, menos você ganha com isso.

Retornos decrescentes

E por que os retornos são decrescentes? Porque os melhores recursos são usados primeiro. Quando você constrói as primeiras 10 fábricas, você escolhe os melhores lugares. Quando você está construindo a centésima, o lugar já não é tão bom. O mesmo vale para fazendas. As primeiras estarão nos terrenos mais produtivos; e também para mão de obra, os primeiros engenheiros contratados serão os mais qualificados, e assim por diante.

Inovações

Dessa forma, essa estratégia de crescimento é puramente quantitativa e requer esforços cada vez maiores para ganhar o mesmo. O crescimento econômico verdadeiramente sustentável é aquele que provém não só do aumento da produção, mas da criação de formas inovadoras de produzir. As inovações permitem que se aumente a eficiência e a produtividade, gerando retornos crescentes.

Inovações 2

As inovações possibilitam o desenvolvimento de melhores maneiras de realizar a produção ou mesmo a criação de produtos e serviços inteiramente novos. Desde sementes de variedades mais resistentes e produtivas, até as vacinas contra a covid-19 e a tecnologia 5G de internet móvel. Todas essas inovações, extremamente benéficas para a economia, só foram desenvolvidas a partir de investimento em ciência e pesquisa.

Participação do Estado

A participação do Estado é fundamental na pesquisa científica. Em todo lugar do mundo, é assim. A pesquisa científica, muitas vezes, demora anos para gerar retorno econômico (e algumas vezes nunca gerar retorno), portanto, não se pode esperar que a iniciativa privada tome a liderança da produção de pesquisa científica. Isso pode acontecer em situações específicas, mas normalmente é o Estado que precisa bancar a pesquisa até que ela tenha um potencial econômico.

Desmobilização

O corte no financiamento da pesquisa científica no Brasil é muito grave, porque irá provocar uma desmobilização com efeitos duradouros. Não é simplesmente cortar agora e retornar depois, quando existirem mais recursos e folga no orçamento. Muitas pesquisas serão interrompidas definitivamente, pois os pesquisadores irão fazer outras coisas, irão trabalhar em outros lugares ou até em outros países.

Corte na carne

Pouco menos de um mês após o anúncio do corte de R$ 600 milhões para a ciência e tecnologia, por ocasião da votação da PEC dos Precatórios, chegamos à soma de R$ 9,3 bilhões em emendas parlamentares aprovadas pelo governo federal, junto com o furo do teto de gastos. Como diz um amigo meu, o nosso governo está acostumado a cortar na carne para manter a gordura.

Escrito por:

Estéfano Barioni/ Correio Popular