Publicado 13 de Novembro de 2021 - 9h25

Por Pedro Benedito Maciel Neto*

A sociedade do século 21

Divulgação

A sociedade do século 21

O mundo vive em movimento e transformação permanentes, ambos necessários na economia, por exemplo — ainda que dentro do capitalismo contemporâneo — coexistem o liberalismo e o neoliberalismo, o desenvolvimentismo, o social-desenvolvimentismo e o novo desenvolvimentismo. Assim é em todas as áreas do conhecimento: movimento e transformação, afirmação, negação e síntese, assim é na política.

Vou compartilhar minhas impressões sobre o “meu lado do rio”, a esquerda.

Os diversos partidos e grupos que se identificam “esquerda”, por exemplo, também se movimentam e se transformam, mesmo quando não percebem ou negam isso, pois a sociedade apresenta o tempo todo demandas novas, as quais precisam de compreensão, respostas e muita ação.

Essa premissa me leva a perguntar sempre: o que é ser de esquerda na terceira década do século XXI?

Eu sei que questões como essa incomodam, mas incomodar é necessário, pois, infelizmente, pelo menos aqui em Campinas, não são adequadamente debatidas, nem na bolha confortável que mantém protegidos aqueles que se declaram “de esquerda” e muito menos fora da bolha de conforto e segurança.

Acredito que, nas últimas décadas, há um distanciamento entre a teoria de esquerda e a prática de esquerda, uma excessiva institucionalização, um distanciamento da sociedade, com grandes consequências para aquilo que se compreende historicamente por socialismo.

Isso ocorre porque a teoria crítica, “pensada” a partir de meados do século XIX em países do hemisfério Norte e a partir da experiência e realidade de sociedades capitalistas que se desenvolviam aceleradamente, é distinta das práticas de esquerda mais críticas do hemisfério Sul, como alerta Boaventura de Souza Santos.

As demandas do lado de cá do globo são as dos povos colonizados, indígenas, pessoas simples do campo que buscam propriedade para plantar e colher, moradia, saneamento, emprego, saúde, educação, cultura, segurança, questões e direitos das mulheres, trabalhadores urbanos, a uberização, afrodescendentes, LGBTQI+, a defesa do meio ambiente, da cultura das periferias, etc.; o novo socialismo se preocupa e se ocupa desses temas no viés de compreensão e transformação da realidade, e não da esmola.

O que eu quero dizer é que a teoria, as pautas e o discurso histórico do socialismo não nos servem mais ou, no mínimo, não respondem às demandas reais, não atendem às demandas sociais da atualidade. A teoria socialista passou a ser, em certa medida, pouco atual e a chamada “vanguarda” socialista está sempre se surpreendendo e a reboque das verdadeiras lutas sociais de essência progressista.

Não proponho a morte e sepultamento de tudo quanto foi escrito e vivido, mas sim atenção ao século XXI, aos tempos e movimentos, à transformação da sociedade e da sua linguagem.

Acredito que alguns partidos e grupos que se afirmam de esquerda não observam os tempos e movimentos da sociedade contemporânea e seguem se alimentando de dogmas, que fecham os olhos, estão como burocratas mofados a negar a própria historicidade e dialética, pois resistem ao poder criativo e criador da sociedade, fonte prioritária da atenção dos progressistas de esquerda.

Ao longo da história, apenas a direita promoveu rupturas institucionais de retrocesso, de viés totalitário e servil ao mercado, basta ver o que aconteceu com a América Latina a partir dos anos 1960.

A nova esquerda não dá golpes e não os apoia; a verdadeira esquerda passou a levar a sério a democracia, o que a direita nunca fez, pois, nossos liberais conservadores e autoritários estão sempre dispostos a romper com a democracia para atender a seus interesses econômicos e seus privilégios mais nojentos.

A nova esquerda vai além da chamada democracia liberal, afirmando a diversidade social como forma de eliminar suas diferenças e hierarquias, ampliando o significado de democracia, a nova esquerda vê a democracia como processo de transformação de relações de poder desigual em relações de autoridade partilhada. Sem democracia, não há sociedade, igualdade, liberdade ou Justiça, pode haver leis e Poder Judiciário, como garantidores da democracia formal, estática e dos interesses de poucos.

A nova esquerda superou ou deve superar a democracia liberal, que é de baixa intensidade, e deve militar por uma democracia que seja garantidora não apenas do sistema político, mas de todas as relações e sistemas.

É urgente a democratização da economia, das relações familiares, raciais, sexuais, religiosas, de vizinhança, comunitárias e muitas outras. Para a nova esquerda, a democracia é inegociável e sem fim, pois envolve todas as interações humanas, instituições, estruturas de poder e relações sociais.

A nova esquerda, através da democracia sem fim, incorpora na sua práxis, de forma indissociável, liberdade e igualdade, pois, uma não existe sem a outra, bem como o reconhecimento das diferenças e seu banimento da vida em sociedade.

A nova esquerda se opõe radicalmente aos sistemas de relações desiguais de poder, se opõe a todo tipo de opressão, dominação e exploração, ao racismo, ao sexismo, à homofobia, à xenofobia, e acredita que democratizar significa transformar relações desiguais de poder em relações de autoridade compartilhada.

“Daí a necessidade do pluralismo politico e organizativo no marco dos limites constitucionais sufragados democraticamente pelo povo soberano”, me socorrendo novamente do mestre Boaventura.

As concepções de democracia liberal, assim como as concepções de socialismo do século XIX, não servem ao Novo Socialismo a sociedade.

Essas são as reflexões de hoje.

* Pedro Benedito Maciel Neto é advogado

Escrito por:

Pedro Benedito Maciel Neto*