Publicado 22 de Outubro de 2021 - 8h43

Por estéfano barioni

Há pouco mais de um ano, o governo brasileiro patrocinou o lançamento de uma nova cédula, com valor de R$ 200. O Banco Central e a Casa da Moeda realizaram a emissão de 450 milhões de cédulas (com valor total de R$ 90 bilhões) no ano de 2020, mas apenas 80 milhões de cédulas (R$ 16 bilhões) foram colocadas em circulação. O restante está – ou espera-se que esteja – guardado nos cofres do Banco Central.

Demanda de dinheiro físico

Segundo o Banco Central, mesmo com o crescimento das transações digitais, o dinheiro em espécie ainda representa o meio mais utilizado em pagamentos e recebimentos. A nova nota foi lançada no dia 2 de setembro de 2020. A alegação do governo era a de que, com a pandemia, o brasileiro estava realizando mais saques e retiradas, incluindo a do Auxílio Emergencial, aumentando a demanda por dinheiro físico.

FRASE

"Os erros custam caro e alguém deve pagar. As causas dos erros são, primeiro, eu não sabia; segundo, eu não pensei; terceiro, eu não me importei.”

Henry Buckley, ex-político australiano

Lançada para “não faltar dinheiro”

No site do Banco Central, encontra-se disponível a justificativa para o lançamento da nota de R$ 200, de que: “com a pandemia da covid-19, o brasileiro passou a guardar mais dinheiro, tirando cédulas de circulação” e a nova cédula vinha para “garantir o adequado fornecimento de cédulas”. Ler essa justificativa hoje quase provocaria ataque de risos, não fosse tão trágica a situação de empobrecimento em que a população brasileira se encontra.

Reservas

Em momentos de crise, é natural que as pessoas tenham a tendência de diminuir significativamente o consumo e tentem aumentar o volume de reservas, criando uma espécie de garantia contra um futuro incerto. Essas reservas são feitas em espécie ou no sistema financeiro, nesse caso em depósitos de alta liquidez, que podem ser rapidamente convertidos em dinheiro vivo.

Previsão furada

Esse comportamento de buscar aumentar as reservas em momentos de crise já foi verificado em diversos momentos e aconteceu em outros lugares do mundo durante a pandemia. Mas imaginar que os brasileiros estivessem acumulando dinheiro em casa, embaixo do colchão, a ponto de ser necessária a emissão de R$ 90 bilhões, mostrou-se ser uma das previsões mais furadas da história.

Custo de produção

O valor final do custo de produção das cédulas varia, porque alguns insumos utilizados na fabricação das notas têm seus custos atrelados ao dólar, mas fazendo a conversão para a cotação daquele momento verifica-se que o custo de produção das notas de R$ 200, realizada em 2020, superou a marca de R$ 140 milhões. Em plena pandemia! Apenas para comparar, a proposta de fornecimento de absorventes a mulheres carentes custaria cerca de R$ 84 milhões. E foi vetada.

Produção a toque de caixa

O lançamento e a emissão da nova cédula foram feitos a toque de caixa. O prazo foi tão curto que a nota foi lançada no mesmo formato da cédula de R$ 20, para economizar tempo de adaptação das unidades fabris da Casa da Moeda, e ainda manter os dispositivos de segurança (como a marca d’água, alto-relevo e número que muda de cor) necessários para evitar falsificações.

Pix

Paradoxalmente, no mesmo momento, o Banco Central já trabalhava na fase final do Pix, o meio de pagamento eletrônico, instantâneo e gratuito. O Pix foi lançado em novembro de 2020, dois meses após o lançamento da nota de R$ 200. Em menos de um ano em operação, já foram realizadas mais de 1,4 bilhões de transações com o Pix e o número de chaves cadastradas é de 330 milhões (bem maior do que o número de habitantes do Brasil).

Gasto público

Enquanto o Pix mostrou-se um grande acerto no sentido de digitalizar a economia, o lançamento da nota de R$ 200 foi um enorme fracasso, para dizer o mínimo. É inexplicável a decisão de lançar uma nova cédula em plena pandemia, e imprimir uma fortuna para ficar estocada, aguardando demanda. Tudo isso, causando enorme gasto público. Foi, no mínimo, um erro grotesco.

Escrito por:

estéfano barioni