Publicado 22 de Outubro de 2021 - 8h43

Por Eduardo Borges*

O título do presente artigo é uma canção que ficou imortalizada pela bela composição de Gilberto Gil.

A dimensão dessas três letrinhas, que a denominamos de paz, não se resume tão somente a sensação de bem estar interior.

A constatação é de uma obviedade primária, já que essa permanente busca sintetiza toda história das civilizações. Da filosofia às religiões, passando pelo "crivo científico”, bem como a sua origem etimológica (do latim pax, pacis, ausência de guerras) o debate em torno do assunto costuma ser complexo e cheio de nuances.

Talvez seja por isso que tanto cantamos, enaltecemos, teorizamos e projetamos a construção sobre quase tudo que se encontra vinculado "subjetivamente" a este assunto.

As aspas aqui reforça a dimensão dessa palavra, pois quem é que nunca ouviu ou pretendeu internalizar a expressão: "não quero ter razão, quero ser feliz". Ou melhor: a felicidade pode ser compreendida como uma espécie de paz momentânea. O constante chamamento à paz tem lá suas singularidades.

Agora no tocante às questões, digamos macro, evidencia-se o quanto a presença de conflitos bélicos ou não se relaciona direta e umbilicalmente com a política, a economia e as relações internacionais.

E desde a obra de Immanuel Kant, cujo projeto filosófico da sua mais conhecida tese, "A Paz perpétua” tornou-se uma importante referência teórica, percebemos várias abordagens a respeito.

Em meio a tantos acontecimentos absurdos e traumáticos ocorridos neste século ameaçando a segurança das nações, discorrer sobre a paz idealizada por este pensador continua a fervilhar as mentes mais "atormentadas". Esse debate terá ainda uma longa duração.

Esse clássico continua a servir de inspiração, e a realidade dos fatos cada vez mais reforça certas preocupações, tais como: o desequilíbrio ambiental e a brutal desigualdade social existente entre pessoas, grupos e nações, aliada a instantaneidade das comunicações criará que tipo de futuro? E do nosso País o que podemos esperar?

A velha prática de lançar dúvidas de como será o amanhã faz parte da natureza humana. Apenas lembremos: é no presente que boas ou más ações acontecem. Tal conduta a priori não tem nada a ver com maniqueísmo. Vejamos a escolha do Prêmio Nobel da Paz de 2021.

O jornalismo, há tempos, precisava desse estímulo. A verdade não deve ser relativizada como tão sordidamente vem sendo difundida. As chamadas fake news estão focadas exclusivamente com o poder.

O psicoterapeuta Carl Jung retrata a psique social quando sentenciou: "onde o amor impera, não há desejo de poder, e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro". Esse tipo de reflexão tem eco nas relações privadas, mas na política, não. Estamos assistindo ao contrário, a extrema direita utiliza o ódio como método.

O instrumento de trabalho dessa gente é manipular. Sejamos coerentes: sem jornalismo, não há paz. Este propósito veio num momento excelente.

O Nobel da Paz destinado a dois profissionais da imprensa é emblemático nesse período que estamos atravessando. Maria Ressa e Dmtry Muratov, tanto a filipina como o russo, respectivamente defendem em seus ofícios a liberdade de expressão, a democracia como um valor fundamental, além de denunciarem a violência enfrentada pelos trabalhadores envolvidos com a veracidade das informações.

Aqueles que praticam o revisionismo tosco e manipulam as massas deveriam ser severamente punidos, enquanto isso deveríamos estar mais bem preparados para fazermos o bom combate. A ganhadora do Nobel da Paz em 1979, Madre Teresa de Calcutá já tinha dado um bom conselho. "Quer fazer algo para promover a paz mundial? Vá pra casa e ame a sua família". Espírito evoluído é pra gente evoluída.

Os extremistas de plantão, certamente não falam essa língua, muitos deles enxergam a família como um mero trampolim financeiro. Status, proteção acumulativa e nada mais.

No Brasil as cifras e as armas estão no horizonte dos novos donos do poder. A paz nunca dependerá desses alpinistas sociais. Escrúpulo, consciência de classe e uma boa interpretação de texto é o que irá nos salvar da barbárie.

* Eduardo Borges é sociólogo

Escrito por:

Eduardo Borges*