Publicado 12 de Outubro de 2021 - 9h03

Por Sérgio Castanho/ Correio Popular

Volto ao pilão de sempre e nele volto a pilar as pílulas para os pacientes leitores. Mais: volto a escrever sobre o historiador cultural Robert Darnton, como prometi duas crônicas antes e como bom pagador de promessas que julgo ser.

Pílula um - Luzes que não se apagam. No seu imperdível livro Os dentes falsos de George Washington, que nada tem a ver com prótese dentária, Darnton põe o foco de sua poderosa lanterna de historiador no processo de formação e difusão do movimento do iluminismo. Iniciado no século 18, que por isso foi chamado de "século das luzes", o iluminismo chega até nossos dias mais aceso que nunca. Quem desejar conhecer mais sobre isso, recomendo a leitura do recente "O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo", do canadense Steven Pinker. Contrariamente à ribalta de Chaplin, cujas luzes se apagam ao fim do espetáculo, as luzes da razão, uma vez acesas, permanecem iluminando nossas vidas, ainda quando por vezes ameacem bruxulear.

Pílula dois - Quando se acenderam essas luzes. Darnton mostra que, embora tenha conspícuos antecedentes bimilenares como Epicuro, o iluminismo é um movimento moderno, nascido em Paris na primeira parte do século 18. Anunciado nas Cartas persas de Montesquieu em 1721 e nas Cartas filosóficas de Voltaire em 1734, as luzes foram definitivamente acesas com o panfleto Le Philosophe aparecido em 1743. A partir daí, seus divulgadores ficaram conhecidos como les philosophes, os filósofos. Seu mais visível monumento foi a Encyclopédie, a "Enciclopédia, ou dicionário racional das ciências, das artes e das profissões", publicada de 1751 a 1772 em 35 volumes com 71.818 artigos e 2.885 ilustrações, tendo à frente Diderot e d'Alembert. As principais ideias iluministas, ideias-forças no dizer de Darnton, foram o valor da razão, a ciência, o progresso no conhecimento e na organização política da sociedade, a igualdade e a fraternidade entre os homens, a liberdade, a democracia, a felicidade, a natureza e as leis naturais como ponto de partida de todo saber e de toda educação.

Pílula três - Luzes na história. No seu imperdível Domínios da história, Ciro Flamarion Cardoso descortinou duas tendências básicas para o conhecimento da história: o paradigma iluminista, que vem dominando o cenário acadêmico nos últimos trezentos anos, e o paradigma pós-moderno, que basicamente tenta, a partir da segunda metade do século vinte, desconstruir o poder da razão para explicar o movimento das sociedades humanas no tempo. O próprio Cardoso e seu parceiro Ronaldo Vainfas mostram a fragilidade da visão pós-moderna, cujo único mérito seria o realce que dá ao mundo da cultura, o universo simbólico. Mas isso cabe perfeitamente no leque iluminista, que, ao dar força à razão no combate à superstição, casa perfeitamente com a história cultural. Darnton já o havia visto.

Pílula quatro - Onde entra a felicidade. Esta quarta pílula tenta resumir o quarto capítulo do livro de Darnton que exibe no título a dentadura de Washington. O número quatro (sem superstição cabalística) tem por título "A busca da felicidade: Voltaire e Jefferson". Diz o nosso historiador que "no século XVIII a ideia de felicidade voltou a florescer, vinculada a outras noções como o progresso e a prosperidade. Os filósofos do Iluminismo tomavam a felicidade como uma meta da vida do homem como indivíduo e da existência da sociedade como coletividade". Em seguida o mesmo Darnton murmura a nossos ouvidos: "a filosofia nos séculos XIX e XX não podia voltar atrás". Não voltou - e aqui estamos, no século 21, na mesma busca da felicidade que empolgou o Cândido de Voltaire há trezentos anos.

Pílula cinco - A felicidade para lá de Wall Street. Ao mostrar que Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, embaixador na França por quatro anos, era um iluminista, um philosophe à maneira americana, Darnton reproduz um escrito de 1810 desse ilustrado "pai fundador da pátria" em que exalta o valor da liberdade e de ser feliz. Conclui Darnton: "Isso é felicidade, algo embutido no curso cotidiano da vida. É um modo de vida americano - mas mais próximo de Horácio e Virgílio do que da América da Madison Avenue e de Wall Street". Assim também concluo.

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Sérgio Castanho/ Correio Popular