Publicado 09 de Outubro de 2021 - 8h54

Por Estéfano Barioni/ Correio Popular

O problema da agência, ou o problema do agente-principal, é uma situação muito estudada pela Economia. Seu estudo se justifica porque o problema da agência se verifica com bastante frequência nas relações econômicas (e também nas relações políticas), produzindo resultados ineficientes a partir do comportamento de uma das partes da relação.

Problema da agência

Explicando o problema da agência: existem duas partes envolvidas, o principal e o agente. O principal contrata o agente para a realização de um determinado serviço, dando poderes a esse agente para agir ou tomar decisões em nome de si (principal). E o problema acontece quando o agente passa a agir movido por seus próprios interesses, e não em defesa dos interesses do principal.

FRASE

"As virtudes se perdem no interesse próprio como os rios se perdem no mar.”

Franklin Roosevelt, ex-presidente norte-americano

O caso do gerente

Ilustrando com um exemplo. Você tem conta no banco e o gerente está lhe oferecendo um determinado produto financeiro para investir seu dinheiro. A questão é saber se o produto financeiro oferecido será mesmo um benefício para você (o principal) ou o para o gerente (o agente), que está lhe empurrando algum produto apenas por conta de uma meta a ser batida.

O caso do gerente 2

Não estou dizendo que todo gerente de banco age movido simplesmente por seus interesses pessoais. Ao contrário, eu sempre fui muito bem atendido e acredito que os gerentes de banco podem auxiliar em muito os correntistas no alcance de seus objetivos financeiros. Mas o dilema do agente-principal precisa ser levado em conta.

Autorização prévia

Na verdade, o dilema do agente-principal envolve uma situação ainda mais delicada do que o exemplo do gerente de banco, pois o agente tem autorização prévia do principal para agir em seu nome. Ou seja, seria como se o gerente do banco não precisasse lhe perguntar nada e pudesse decidir sozinho quais produtos financeiros seriam contratados em seu nome.

O caso do CFO

Imagine, por exemplo, o caso de um diretor financeiro (CFO) de uma empresa de capital aberto. Esse diretor pode se empenhar para que a empresa tenha uma estratégia de crescimento de longo prazo, que irá gerar muito retorno para os acionistas da empresa, mas com resultados que vão surgir só no futuro, quando ele talvez nem esteja mais no cargo de diretor.

O caso do CFO 2

Outra opção do diretor financeiro é gerar o máximo de resultados possíveis no curto prazo, rendendo-lhe bônus vistosos pelo desempenho, mesmo que isso acabe deteriorando as possibilidades de que a empresa obtenha ganhos maiores no longo prazo. Os interesses próprios do CFO tendem a se sobrelevar aos interesses dos acionistas.

O caso do ministro

Finalmente, chegamos ao caso do ministro. Imagine, por exemplo, um país cujo ministro da Economia possua dinheiro (bastante dinheiro) no exterior, em determinado paraíso fiscal. Durante o mandato desse ministro, a moeda local sofre uma desvalorização de quase 50%, tornando os recursos no exterior bem mais valiosos, mas empobrecendo a população. Mas para o ministro está tudo bem, afinal o câmbio é flutuante.

O caso do ministro 2

Curiosamente, toda vez que o dólar ameaça ceder e devolver valor à moeda local, o ministro (ou seu presidente) faz alguma declaração absurda e a moeda estrangeira volta a subir novamente. Além disso, em um processo de reforma tributária, o ministro se empenhou pessoalmente em retirar um artigo que previa a tributação sobre os recursos mantidos por brasileiros em paraísos fiscais. Segundo o ministro, a retirada desse artigo seria para “simplificar” a reforma.

Regras institucionais

Os mandatos no Poder Executivo não conferem carta branca aos seus mandatários para agir da maneira que quiserem. Existem normas, códigos de ética e de conduta que precisam ser seguidos. As nossas instituições precisam ser fortalecidas para evitar que os mandatários de ocasião busquem apenas a satisfação de seus próprios interesses, como tem acontecido cada vez mais.

Escrito por:

Estéfano Barioni/ Correio Popular