Publicado 09 de Outubro de 2021 - 8h55

Por Suely Melo de Castro Menezes

Já atravessamos um ano e meio desde que a pandemia chegou ao Brasil. Das inúmeras crises ocasionadas pela doença, a educação vem preocupando especialistas, pais, alunos e professores. Aulas remotas em um país pouco conectado - segundo o IBGE, em 2019 o número de domicílios sem acesso à internet era de 12,6 milhões -, além das desigualdades sociais e raciais e a falta de treinamento de professores, sobretudo da rede pública, para que reestruturassem as aulas para o ensino a distância são fatores que pioraram a já delicada situação educacional.

Outro dado preocupante é que a evasão escolar sofreu aumento de 12% no último ano, representando um contingente de 172 mil alunos entre 6 e 17 anos fora das escolas, conforme apontou o relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Os investimentos em educação no Brasil também não são suficientes, como indica o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): enquanto dois terços de países membros ou parceiros disseram ter elevado gastos com educação por conta da pandemia, o Brasil não aumentou seu Orçamento entre 2020 e 2021 e os índices de proficiência em português e matemática também são preocupantes e mostram que temos ainda pela frente uma longa batalha para evitar prejuízos maiores, ou mitigar os que já existem.

Para se ter uma ideia das perdas em aprendizagens, usarei como exemplo um estudo feito pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), em parceria com a Secretaria da Educação de São Paulo, que avaliou alunos do 5° ao 9° ano (ensino fundamental) e da 3ª série do ensino médio. Os resultados de alunos do 5° ano - comparados aos mesmos indicativos de 2019 - apontam que, somente em matemática, estudantes avaliados obtiveram 46 pontos a menos, representando queda de 19%. Já em português, foram 29 pontos inferiores, cuja queda é de 13%. Também se chegou à conclusão de que todas as séries avaliadas apresentaram pioras.

Com o avanço da vacinação no País e a retomada do ensino presencial, ainda que gradual e de maneira heterogênea, começamos a trilhar para a recuperação de perdas no ensino - que foram muitas, mas o percurso ainda é longo e tortuoso. A rede pública de educação básica atende cerca de 85% dos estudantes brasileiros e há nela uma enorme diversidade, desde classe social até condições de estudos. Enquanto alguns alunos puderam aprender durante o ensino remoto, outros não conseguiram se adaptar ou, pior, nem sequer tiveram acesso às aulas. O que faz com que os problemas sejam diferentes e, portanto, com soluções distintas.

O denominador comum, entretanto, é a necessidade de avaliação diagnóstica do ensino, que indicará quais são as melhores soluções e estratégias para obtermos resultados satisfatórios. Também é fundamental lutar pela conectividade, pois internet e banda larga precisam chegar aos alunos menos abastados. Se no século passado o estudante precisava de lápis e caderno, hoje em dia é vital que ele conte com dispositivos e internet para que o ensino híbrido esteja a contento.

Com maior engajamento dos alunos no ensino remoto, adoção eficaz de aulas híbridas e otimização do currículo, as perdas de aprendizagens poderão ser reduzidas em até 40%. É o que apontaram especialistas, em um estudo do Insper. Mas todas essas ações precisam fazer parte de um planejamento integrado, envolvendo todas as esferas do governo com o único objetivo de minimizar os impactos na educação. A tarefa não é simples, porém, necessária. E, com muito empenho, é também possível.

Escrito por:

Suely Melo de Castro Menezes