Publicado 17 de Setembro de 2021 - 8h49

Por Estéfano Barioni/ Correio Popular

Com os preços em disparada e a inflação em alta, é fundamental manter em vista as condições dos reservatórios das hidrelétricas. A crise hídrica já impôs custos adicionais à eletricidade, por meio das bandeiras e de reajustes tarifários, e nada garante que uma piora das condições não provoque novos prêmios a serem pagos para evitar desabastecimentos.

Nível dos reservatórios

Os reservatórios do sistema Sudeste — Centro-Oeste, que representam 70% de todo o armazenamento hidrelétrico brasileiro, encontram-se com 18,38% de sua capacidade total. Dos 203.500 MWmês que o sistema é capaz de armazenar, apenas 37.400 MWmês encontram-se atualmente reservados nas represas desse sistema.

FRASE

"Precisamos simplesmente equilibrar nossa demanda de energia com nossos recursos, cada vez menores. Agindo agora, podemos controlar nosso futuro, em vez de permitir que o futuro nos controle.”

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos

Nível dos reservatórios 2

Algumas hidrelétricas desse sistema estão com seus reservatórios abaixo de 10% da capacidade total, como é o caso das usinas de Marimbondo (entre SP e MG) e Itumbiara (entre MG e GO). A usina de Três Irmãos, na Bacia do Tietê, está com menos de 2% de sua capacidade. O maior reservatório do sistema, pertencente à usina de Furnas, está com 15,2% de sua capacidade.

Ilha Solteira

Nesta quarta-feira, a hidrelétrica de Ilha Solteira chegou a 0% da capacidade. Isso significa que, apesar do reservatório ainda ter água, já foi atingida a cota mínima para utilização da hidrovia Tietê-Paraná. Ainda é possível gerar eletricidade a partir dessa usina, pois o mínimo do projeto da hidrelétrica ainda não foi atingido, mas a navegação nessa hidrovia estará prejudicada.

Consumo de energia

O consumo médio de eletricidade no sistema SE — CO tem sido em torno de 42.500 MW. Se a demanda fosse atendida exclusivamente pela geração hidrelétrica, a quantidade de energia atualmente armazenada (37.000 MWmês) seria suficiente para menos de um mês de fornecimento de eletricidade.

Geração

Atualmente, cerca da metade da demanda do sistema SE — CO tem sido atendida pela geração hidrelétrica. O restante tem sido atendido pela geração nuclear do complexo de Angra (5%), geração termelétrica (22%) e importação de energia (23%) gerada em outros sistemas, com destaque para a geração eólica na região Nordeste.

Energia disponível

Mantida essa proporção de geração (e não devemos esperar aumento no uso das outras fontes pois elas já estão dando tudo o que podem no curto prazo), as hidrelétricas são responsáveis por atender a uma carga média de 21.000 MW. Isso faz com que o volume de água disponível nos reservatórios seja suficiente para cerca de 54 dias de abastecimento elétrico. Isso nos garante energia até o dia 10 de novembro. Apenas.

Redução voluntária

Nesse contexto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está promovendo um programa de redução voluntária de consumo. Funcionará como um leilão ao contrário, em que alguns grandes consumidores ofertam uma quantidade de consumo a reduzir e um valor requerido como recompensa para abrir mão desse consumo.

Redução voluntária 2

O efeito seria o de uma usina virtual construída, deslocando energia de onde o consumo foi reduzido e disponibilizando-a para onde ela é necessária. No entanto, essa usina virtual tem custos reais a serem rateados por todos os consumidores. Além disso, o montante dentro desse programa é pequeno: apenas 237 MW, o que representa cerca de 0,5% da demanda total do sistema SE — CO.

Perdas elétricas

Outro ponto que poderia ajudar mais e que nunca foi adequadamente enfrentado é o das perdas elétricas, que representam cerca de 14% da energia gerada, segundo dados de 2018. Uma parte (7,5%) dessas perdas é técnica. Podem ser diminuídas com investimentos, mas não chegam a zero. A outra parte (6,5%) corresponde a perdas comerciais. São furtos de energia por meio de gatos e de fraudes no medidor. Todos os consumidores regulares pagam essa conta.

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Estéfano Barioni/ Correio Popular