Publicado 15 de Setembro de 2021 - 8h54

Por Estéfano Barioni/ Correio Popular

O IPCA registrou alta de 0,87% no mês de agosto. No acumulado dos últimos 12 meses, a inflação registrada pelo IPCA está em 9,68%. É um valor muito acima (quase o dobro) do teto da meta estabelecida pelo Banco Central, que é de 5,25% ao ano. A inflação atual de 12 meses é mais do que duas vezes e meia maior do que o centro da meta de inflação, estabelecida em 3,75% ao ano.

Aperto Monetário

Certamente o teto da meta não será respeitado este ano e o ciclo de aperto monetário do Banco Central deve continuar e até se intensificar. A expectativa do mercado é que a taxa Selic passe dos atuais 5,25% para 8,0% ao ano até o final de 2021. Na visão do mercado, o IPCA deve demorar ainda para ceder e terminará o ano também no patamar de 8,0%.

FRASE

"Precisamos investir no fornecimento doméstico de energia limpa, que trará preços mais baratos no longo prazo, protegendo os nossos consumidores dos voláteis mercados internacionais de combustíveis fósseis."

Ed Davey, político britânico

Vilões da Vez

Dessa vez, os grandes responsáveis pela inflação do mês foram o grupo de Transportes, com variação de 1,46% no mês de agosto, e o grupo de Alimentos e Bebidas, com variação de 1,39%. Além de serem os grupos que tiveram a variação mais elevada, Transportes e Alimentos e Bebidas são também os grupos com maior peso na cesta do IPCA, cada um representando pouco mais de 20% do índice.

Transportes

Dentro grupo de transportes, foram os combustíveis que puxaram o índice para cima. O gás natural veicular subiu 6,61% em agosto. Também tiveram aumentos significativos o óleo diesel (com 4,5% de aumento), o etanol (aumento de 3,06% no mês) e a gasolina (aumento de 2,96%). Outros itens também tiveram aumentos, como automóveis usados (1,79%), acessórios e peças (1,43%) e óleos lubrificantes (1,16%).

Transportes 2

O valor do petróleo no mercado internacional recuou no mês de agosto, passando de US$ 75,00 pra US$ 71,60/barril, uma queda de 4,53% no mês. Mesmo assim, o aumento em todos os principais combustíveis é sinal de aumento de custos na cadeia produtiva dos combustíveis fósseis (gasolina, diesel e GNV).

Etanol

O etanol também é impactado, pois os combustíveis são insumos de sua produção. Máquinas colhedeiras são utilizadas no corte da cana e caminhões são utilizados em seu transporte até a usina. Posteriormente, caminhões-tanque são utilizados para transportar o etanol. Além do aumento desses custos, que não são nada insignificantes, existem também os efeitos de competição.

Competição

Etanol e gasolina competem diretamente nos automóveis flex. Quando o preço da gasolina aumenta, acaba tornando o etanol mais atrativo, fazendo com que a demanda por esse combustível aumente. Com a demanda aumentada, e como a oferta de etanol tem uma certa inércia e não consegue responder no curto prazo, o preço do etanol também acaba aumentando.

Influências Cruzadas

A situação se torna ainda mais complexa pois o etanol também é um insumo da gasolina, uma vez esta é composta por até 27% de etanol anidro. E este é mais caro que o etanol hidratado, pois tem um processo adicional de destilação. Assim, os combustíveis fósseis e o etanol se influenciam mutuamente, em uma série de influências cruzadas.

Proálcool

O Brasil foi o país pioneiro na produção de etanol em larga escala. A partir dos choques do petróleo, no início da década de 70, o Brasil começou a investir maciçamente em um programa de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, desenvolvendo tecnologia e tornando-se o líder mundial na produção e uso desse biocombustível.

Investimentos

No entanto, com poucos investimentos realizados nas últimas décadas, fomos ultrapassados e deixamos de ser os protagonistas mundiais tanto em tecnologia como em volume de produção. Há muitos anos, os Estados Unidos lideram a produção mundial. Em 2020, a produção de etanol dos Estados Unidos foi 75% maior do que a produção brasileira. Apesar de nosso pioneirismo, sem novos investimentos acabamos ficando para trás.

Escrito por:

Estéfano Barioni/ Correio Popular