Publicado 15 de Setembro de 2021 - 8h54

Por Delfin / Caderno C

Estamos em pleno Setembro Amarelo e há muito foco em se falar sobre suicídios, notadamente entre os jovens que sofrem, por exemplo, com o bullying. Sofrem, principalmente, porque não se encaixam nos padrões que lhes são impostos pelos grupos sociais com que convivem. O suicídio não é nem de longe a saída, visto que, até que haja uma prova incontestável em contrário, esta é a única vida que temos e pôr fim a ela não parece mesmo uma decisão lógica, mas, sim, desesperada.

Existem, no entanto, as pessoas que reagem às atitudes de seus agressores. Quando esta reação se configura em força mental para superar este momento difícil da vida, ela é muito bem-vinda. Existem, no entanto, casos em que a reação se torna uma força explosiva, pronta para eclodir em violência, e a pessoa, uma bomba prestes a detonar.

Há duas obras, tão boas quanto difíceis, que podem nos ajudar a entender o que acontece com jovens que acumulam a violência social que sofrem e devolvem a esta sociedade ainda mais violência. A primeira é um filme coproduzido por Tchéquia, Polônia, Eslováquia e França, que circulou no circuito de cineclubes do Brasil (em Campinas, foi exibido na CPFL Cultural) e abriu o Festival de Berlim de 2016: Eu, Olga Hepnarová (de Petr Kazda e Tomás Weinreb). Nele, acompanhamos a protagonista, Olga, em dois momentos distintos de sua vida, aos 13 e aos 22 anos, e que abre com a frustrada tentativa de suicídio da garota. O filme intercala esses tempos da vida de forma que temos que nos adaptar à situação, assim como Olga também tem que adaptar sua mente às situações que a vida lhe impõe. A película é mostrada com o foco no ponto de vista da moça, que se vê como vítima de uma sociedade cruel. Filmado em preto e branco, a obra (e seus silêncios e montagem precisos) traz o necessário para entrarmos na mente da personagem vivida por Michelina Olsanska (A Atração), que acaba cometendo um ato tão atroz que é condenada à morte. O roteiro é baseado na história real da jovem Olga Hepnarová, a última pessoa morta antes do fim da pena de morte na antiga Tchecoslováquia, em 1975.

A outra obra é sueca e foi publicada em 2017 no Brasil, pela Avec: Alena, de Kim W. Andersson. O enredo, que também alcançou a tela grande em 2015, narra a história da personagem-título, uma jovem que consegue uma bolsa de estudos especial e é transferida de uma escola pública para uma escola de elite, na qual convive diariamente com o bullying de suas colegas de escola, em especial por parte de Filippa, principal jogadora de lacrosse (um esporte bem difundido, mas ligado às elites, na Suécia) da escola.

Alena se recupera do trauma recente de ter perdido sua melhor amiga, Josefin, que vemos no início do álbum subindo em uma ponte e ameaçando se suicidar caso Alena não tome uma atitude quanto ao amor que as duas sentem. Porém, Josefin é presença constante na vida dela e, sempre que a amiga é ameaçada, Josefin surge para se vingar de quem quer que mexa com Alena.

Em uma história na qual a ausência de figuras paternas e maternas é marcante, Alena, assim como Eu, Olga Hepnarová, lança luz às trevas de jovens desesperadas, gritando de um jeito que ninguém entende por uma ajuda que nunca vem.

Escrito por:

Delfin / Caderno C