Publicado 11 de Setembro de 2021 - 10h47

Por Pedro Benedito Maciel Neto

Descobri um bistrô espetacular no Cambuí, foi uma agradável surpresa. Confesso que sempre achei a palavra bistrô muito gostosa de ouvir, por isso compartilho uma curiosidade absolutamente inútil: a origem da palavra.

Há duas versões.

A primeira conta que a palavra surgiu na França em 1815; franceses partiram para guerras, deixando suas mulheres sozinhas em casa, sem recursos, e elas abriam suas próprias casas e oferecem bebidas e comidas rápidas, surgindo então o termo bistrô para estes estabelecimentos simples, porém, muito aconchegantes.

A segunda versão, da conta que a palavra tem origem Russa. Na língua russa existiria a palavra "bystro", e na Segunda Guerra Mundial, o vocábulo teria se difundido na capital francesa, pois os soldados russos iriam aos restaurantes gritando "bystro, bystro", que significa "rápido, rápido".

Versões, que podem ser engraçadas, ridículas ou perigosas. Por conta de versões, descoladas da realidade, quase perdi a paciência outro dia, mas respirei fundo e lembrei que temos que manter a serenidade e dar o privilégio da dúvida ao interlocutor, para manter a integridade das relações humanas.

Levei um cliente no tal bistrô para comemorar o sucesso de uma questão que tramitou pelos escaninhos do judiciário por mais de uma década.

O cliente estava feliz, dizia a todo o momento que meu escritório era o melhor da cidade, essas coisas exageradas que se diz em estado de euforia; falava sobre vários assuntos com perigosa convicção, como a do procurador Roberson Henrique Pozzobon, aquele que não tinha prova alguma, mas muitas convicções...

Em dado momento ele falou que o BNDES deveria ser extinto em razão dos malfeitos “comprovados” e realizados pela “esquerdalha”, disse ainda “que vários países ainda devem dinheiro ao BNDES”. Essa versão é bem conhecida e repetida à exaustão.

Bem, como os clientes quase sempre têm razão, eu disse serenamente a ele “veja a coincidência li, sobre isso outro dia”, abri o site do BNDES e mostrei um texto “o BNDES não envia dinheiro a outros países. Quando você ouve falar que o Banco apoia uma obra no exterior, saiba que o BNDES não financia todo o empreendimento, mas apenas a parte de bens e serviços brasileiros que são exportados para uso naquela obra”, ele ouviu incrédulo.

Uma indisfarçável inquietude tomou conta dele, tentei mudar de assunto, pedi mais uma taça de vinho e sugeri que escolhêssemos um nhoque ao molho sugo, recheado com Catupiry e finalizado com queijo gouda gratinado. Ele não me ouvia e afirmou com autoridade “o BNDES é uma caixa-preta, o Mito vai abri-la”.

Sugeri “vamos esquecer esse assunto, vamos escolher um prato”, mas ele insistiu.

Então eu expliquei foi realizada uma auditoria internacional, por determinação do presidente da república ao custo de 48 milhões de reais logo no início do governo, e foi certificada a inexistência de inconformidades nos contratos e nas operações do BNDES. Eu nem conclui a frase e ele contra-atacou “isso é mentira”, mostrei várias noticias para ele, de diversas fontes diferentes, mas ele não aceitou sequer que a auditoria tivesse sido realizada.

Não falei mais nada, pois ele, que tem excelente formação acadêmica, está mergulhado no trabalho, e se informa por correntes de whatsapp e memes nada divertidos, que tem como fonte e objetivo a mentira e a desinformação.

Acabamos pedindo empanadas, quiche e galette ao invés do almoço, e seguimos no vinho conversando, salvei o momento de comemoração fugindo de um embate desnecessário, como diz a Celinha “estamos numa idade que podemos escolher as nossas batalhas”.

É uma pena que alguns não busquem a verdade e se acomodem nas versões que contemplem suas convicções.

O BNDES, desde a sua fundação em 1952, se destaca no apoio à agricultura, indústria, infraestrutura, comércio e serviços, oferecendo condições especiais para micro, pequenas e médias empresas; há linhas para investimentos sociais, direcionados para educação e saúde, agricultura familiar, saneamento básico e transporte urbano, projetos de investimentos, aquisição de equipamentos e exportação de bens e serviços, além de atuar no fortalecimento da estrutura de capital das empresas privadas e destina financiamentos não reembolsáveis a projetos que contribuam para o desenvolvimento social, cultural e tecnológico. Tudo isso é apoiado pela FIESP, aquela do Pato Amarelo.

Passamos a tarde no bistrô, encontramos outros amigos, nos divertimos de verdade.

No dia seguinte logo às oito horas recebo um telefonema, do outro lado da linha era aquele das empanadas, quiche e galette. Com uma voz triunfante afirmou “vamos falar sobre a inadimplência do BNDES? Ela é altíssima”. Pensei “meu São José, ainda não recebi os honorários, não posso perder a linha”, e propus que ele passasse no escritório para tomarmos um café, acertarmos os honorários e falaríamos sobre a inadimplência altíssima.

Ele chegou rapidamente, tomamos alguns cafés e, depois do PIX dos honorários ser realizado, começamos o embate. Ele trouxe vários prints de informações de whatsapp, eu estava apenas com o site oficial do BNDES aberto.

Foram pelos menos duas horas, e após ele ler no site oficial do BNDES que a inadimplência do banco é baixíssima, entre 0,01% a 0,06%; sobre os crescentes lucros; sobre o índice de adequação de capital (Índice da Basiléia); e que os empréstimos do BNDES para empresas que exportam serviços ou bens para o exterior correspondem a somente 2% do total financiado pelo banco; sem jeito, ele mudou de assunto.

Falamos do nosso grande amor, a Ponte Preta, da melhora do time, das eleições de novembro para renovação do conselho deliberativo, do tempo em que íamos ao Majestoso pegar autógrafos do Mestre Dicá, que esse mês completou 74 anos recentemente, do Oscar, Polozzi, Carlos e Odirley (que merecia uma Copa do Mundo).

Nos despedimos e, ao sair da minha sala, ele disse “acho que você pode ter razão, mas não acredito”, tudo racional.

Essa é a história que compartilho.

Escrito por:

Pedro Benedito Maciel Neto