Publicado 10 de Setembro de 2021 - 8h55

Por Estéfano Barioni/ Correio Popular

No último domingo, na sessão “Correio do Leitor” deste jornal, uma carta de um leitor do Correio Popular chamou-me a atenção. O leitor Artur Mendes questionava a estratégia do governo na condução da crise energética, e o fazia através de uma parábola. Gostaria de me congratular com o leitor pela iniciativa de apresentar seus argumentos e, em especial, pelo uso da parábola, pois estas são sempre cheias de beleza e ensinamentos.

A parábola

A parábola apresentada pelo leitor fazia referência a um reino onde a produção de trigo foi afetada por uma praga, de modo que o pão se tornasse um produto escasso. Para controlar o consumo, o rei sobretaxou o pão, mas isso afetou diretamente os pobres. Com essa parábola, o leitor argumenta que se o rei fosse agir com justiça, deveria racionar o consumo de pão em vez de taxá-lo, e faz um paralelo com a energia elétrica dos dias atuais.

FRASE

"Mostre-me o incentivo e eu lhe mostrarei o resultado.”

Charlie Munger, financista e investidor norte-americano

A discordância

Com essa bela parábola, o leitor sugere que a condução da crise energética deveria ser realizada de maneira diferente, recorrendo a alguma espécie de racionamento de eletricidade, e não por meio das bandeiras tarifárias que encarecem o seu preço e acabam pesando mais sobre os menos favorecidos. Entendo os argumentos do leitor, mas tenho discordâncias sobre a eficiência desse método de enfrentamento da crise.

Escassez e preços

Os preços são proporcionais à raridade do bem ou serviço prestado. Quanto mais raro (ou escasso) for um bem, mais caro ele será. Uma Ferrari é muito cara, uma vez que existem poucas no mundo, pois sua produção é quase artesanal. O ar que respiramos é fundamental para a vida, mas é de graça pois existe uma quantidade enorme no planeta.

Escassez e preços 2

Em uma economia competitiva, essa relação de preço e escassez é fundamental para orientar o comportamento de investidores e consumidores. Produtos raros existem em pequena quantidade. Se existir grande demanda para uma oferta pequena, os preços serão altos. E isso pode ser muito bom, pois atrairá novos produtores, aumentando a oferta no futuro.

Investimento

Se a crise hídrica tornou a energia elétrica escassa, então, o preço da eletricidade naturalmente tem que subir. Preços mais altos tornam a construção de novas usinas mais rentáveis, atraindo novos investimentos. O setor se expande e a oferta de energia aumenta quando as novas usinas ficam prontas. Então, os preços voltam a cair, até atingir um valor de equilíbrio que atenda a produtores e consumidores.

Racionamento

Caso contrário, se a eletricidade for racionada e mantida artificialmente a preços baixos, os investidores não terão incentivos para construir novas usinas geradoras. Como o preço da energia é baixo, não haverá interesse em produzi-la. O País estará condenado a sofrer seguidas crises de abastecimento, sempre que o regime de chuvas não for favorável. E isso deve acontecer cada vez mais frequentemente, pelas mudanças climáticas e degradação ambiental.

Regulação

O setor de energia, por fornecer um serviço essencial e estratégico, é fortemente regulado pelo governo. As tarifas de energia são reajustadas uma vez por ano e sofrem um processo de revisão a cada quatro anos. Com esses intervalos longos, muitas vezes os preços não conseguem acompanhar a situação dos mercados na velocidade necessária. Por isso, tem-se recorrido ao uso das bandeiras tarifárias, para sinalizar os preços de maneira mais eficiente.

A nossa praga

Uma grande diferença da situação do setor elétrico e da parábola apresentada pelo caro leitor é que, no caso da energia, não se trata de uma praga passageira que, uma vez terminada, deixará o trigo florescer novamente. O problema do setor elétrico tem raízes mais profundas. A nossa praga tem forma de incompetência na gestão, falta de planejamento e expansão de fontes alternativas de energia, falta de investimentos em eficiência energética e falta de preservação ambiental.

Escrito por:

Estéfano Barioni/ Correio Popular