Publicado 07 de Setembro de 2021 - 10h17

Por Gabriel San Martin

Por mais plural que a arte seja, boa parcela das grandes exposições parece ultimamente querer seguir por um caminho só. As soluções vão se tornando mais simples em nome do discurso, quase como que declarando a vitória da arte enquanto manifesto ideológico em detrimento de um mecanismo designado a complexas operações plásticas e conceituais. Não há dúvida de que as causas e aspirações dessa arte politizada são importantes e transparecem problemas sociais de urgência nítida. Agora, a questão é até que ponto esses trabalhos e curadorias efetivamente suprem a dimensão de suas ambições ou se operam meramente enquanto autômatos de valores nobres.

Não que dizer isso implique em a "arte pela arte" de Cousin ser aquilo a se almejar, mas estou convencido de que utilizar a arte sobretudo para processos de autorreflexão ligados aos paradoxos da humanidade e de sua própria natureza formal e conceitual é daquelas coisas que mais nutrem a potencialidade de qualquer poética. E, francamente, acho que ficamos cada vez mais distantes disso. Esse processo recente de aglutinação política da arte, através do qual a instituição adere a certa tendência de coincidir todos os seus elementos em um campo só, parece adotar um regime fácil de pensar o trabalho de arte enquanto meio ordinário para fins políticos e ideológicos.

Afirmar que esse fenômeno acaba extraindo do trabalho boa parte da sua potência não imprime nenhuma nostalgia moderna ou algo do tipo. Na verdade, acontece somente que os trabalhos terminam por repercutir uns nos outros e muitas vezes deixam aquele ar de algo faltando: é quase como buscar uma densidade que não aparece. É uma arte afável, pouco desafiadora. E, não havendo complexidade, tornam-se algo óbvio a ser resolvido com um único olhar. Quer dizer, a dimensão efetivamente reflexiva não chega. Transforma-se em uma arte que representa bandeiras de causas grandiosas e respeitáveis, mas de pouca ou nenhuma sagacidade. Quando não alude a determinado pieguismo ou dilúvio sentimentalista, costuma ser kitsch (e isso quando o trabalho supre formalmente o discurso que pretende).

Retirando a arte do que ela tem de essencialmente problemática, ela se torna componente de pretensões secundárias. Não que inserir a arte em um circuito enquanto atividade secundária não tenha sido coisa praticada por artistas dos mais diversos - desde a Bauhaus até Luiz Sacilotto e Waldemar Cordeiro -, mas foi feito sem que a singularidade e as dimensões filosófica e estética do trabalho fossem esvaziadas em nome de uma espetacularização da arte: e acredito que o problema esteja particularmente nisso. Grande parte das exibições blockbuster são compostas por essa arte espetacularizada, que mais parece proveniente de certa cultura de massas ou mero reducionismo de toda a experiência artística que pouco se importa com qualquer esfera complexa ou reflexiva própria da arte. A exposição se torna quase um jornal de notícias, através do qual simplesmente informa (mas não educa) o espectador.

Felizmente, pelo tamanho das exibições e quantidade de obras expostas, é ainda possível frequentemente observar e conhecer artistas fascinantes dentro dessas megaexposições e feiras/exibições blocksbuster. Mas, a maior parte é retórica: uma opinião, discurso ideológico ou algo quase equivalente a uma notícia que pouco diz respeito àquela arte que reflete e lida densamente com soluções estéticas, históricas, políticas ou filosóficas com inteligência plástica. O que começou bem enquanto processo contrário àquela arrogante auto alienação da arte sobre si mesma terminou por torná-la alheia em relação às suas próprias questões.

Escrito por:

Gabriel San Martin