Publicado 19 de Agosto de 2021 - 11h45

Por Carlos Cruz

De pânico também se morre. Quando incontrolável, é fatal. Mas quando controlado, pode-se sobreviver.

No século XIX nasceram no Sião, hoje Tailândia, gêmeos xifópagos nascidos unidos por parte do corpo, na altura do tórax. Ainda adolescentes foram vendidos como escravos e levados para os Estados Unidos, onde ganharam a vida como atração circense, apresentados como os irmãos siameses daí a origem do nome popular da anomalia.

Com o passar dos anos foram evoluindo e cuidando do próprio negócio, sempre se apresentando como atração para o público. Suas apresentações sempre causavam muita curiosidade. Não raro pediam que se despissem para provar não haver truques, e chegavam a ser examinados por médicos para atestarem a veracidade.

Casaram-se com duas irmãs, não siamesas, e tiveram vinte e um filhos, dez de um e onze de outro. As famílias moravam quase vizinhas, e três dias por semana revezavam na casa de um e na casa do outro.

Progrediram, se aposentaram e enriqueceram, tornando-se proprietários de terras. Viveram com dignidade e tinham o respeito da sociedade que frequentavam.

Um deles passou a beber muito, o que ocasionou uma enfermidade que o acamou, obrigando o outro a acamar-se também, até que um dia teve um infarto, vindo a falecer.

Embora tivessem combinado que, com a morte de um deles tentar-se-ia uma operação de separação para a sobrevivência do outro, não houve tempo para esse procedimento, pois horas depois o sobrevivente veio a falecer.

Houve suspeitas de que com a morte de um, a circulação sanguínea ficou prejudicada, causando a morte do outro. Mas outra versão, com fortes indícios de verdadeira, revela que ele faleceu motivado por horror. Por PÂNICO incontrolável.

Tendo, com a história acima, abordado o pânico incontrolável, prossigo, a título de informação e contribuição àqueles que porventura possam vir a se contaminar com o coronavírus, narrando minha experiência pessoal, mantendo o absoluto respeito e reverência à memória dos que foram vítimas deste terrível mal.

Em novembro, após grande desconforto respiratório fui ao Centro Médico de Campinas, e após os exames e tomografia fui diagnosticado com Covid 19, sendo encaminhado para a UTI.

Ao ser acomodado na cama, um dos médicos que me atenderam disse: - Seu caso é muito grave, o comprometimento de seus pulmões é intenso (70%) e sua oxigenação é muito baixa. Vamos tratar de você com todo cuidado e dedicação, porém é importante que saiba que grande parte de sua recuperação dependerá exclusivamente de você.

“Controle sua ansiedade, não caia em depressão e, principalmente, não se deixe dominar pelo PÂNICO”.

Entendi claramente o recado, pois o pânico provocaria a intubação, e ela seria o caminho mais curto para complicações quase sempre irreversíveis. Disse então ao Dr. Luiz Henrique, que seria um paciente exemplar e que eles fizessem a parte deles que eu faria a minha, pois tinha muitas razões para querer continuar vivendo, principalmente ver meus netos crescerem, além de que naquele dia nascera, em Montevidéu, minha quinta neta, Paulinha, e que não admitia a hipótese de não a conhecer.

E assim foi durante vinte longos dias de UTI, confinado numa cama hospitalar, com oxigenação de alto fluxo (quarenta litros por minuto, ininterruptos, e um barulho ensurdecedor), cateter permanente na jugular (agulha/tubo de aproximadamente 20 centímetros) para a medicação chegar rápido ao coração e de lá ser espalhado para o corpo todo; outro na veia do braço esquerdo, e outro na do braço direito.

A posição adequada e recomendada para expandir os pulmões e permitir maior oxigenação é pronar o paciente, isto é, deitá-lo de bruços. Apesar do desconforto, suportado com a maior resignação, todos os dias pronava por oito horas ininterruptas, sem qualquer queixa, reclamação, má vontade ou chance para ser dominado pela ansiedade, depressão ou PÂNICO.

Pude testemunhá-lo, o PÂNICO, instalado em pacientes vizinhos, ouvindo seus desesperos e saber, pelos enfermeiros, que tiveram que ser amarrados na cama e entubados (procedimentos que poderiam ser evitados), tendo ocorrido, por consequência, dois óbitos.

Meu amigo José Afonso Bittencourt é sobrevivente desse sofrimento extremo, cuja superação, mesmo tendo sido entubado, se deu porque soube se controlar, colaborando decisivamente para sua recuperação.

Após ter alta hospitalar, e em consulta posterior, o Doutor Luiz Gustavo observou que meu caso, de tão grave poderia ter causador óbito, mas foi superado, boa parte, graças a minha colaboração, força de vontade e controle sobre o PÂNICO.

Escrito por:

Carlos Cruz