Publicado 17 de Agosto de 2021 - 14h58

Por Sérgio Castanho/ Correio Popular

Há não muito tempo publiquei neste Correio crônica emocionada concitando o poder público municipal e todas as pessoas e instituições da cidade a se darem as mãos para reerguer do abandono o Centro de Convivência Cultural. Nesse artigo, com o título Conviver é preciso, fiz ver que não se tratava apenas de restaurar um teatro, mas de fazer reviver um espaço cultural multiuso.

Começava com as palavras de seu idealizador: "Fábio Penteado, o premiado arquiteto que projetou o Centro de Convivência (como hoje abreviadamente é referido), dizia que esse espaço arquitetônico deveria ser um lugar com grande abertura para entrar e sair gente de todas as proveniências e de diversos níveis para 'produzir e fruir' cultura." Era, portanto uma concepção inovadora do que se convenciona chamar de "espaço cultural", um lugar com ressonâncias daquilo que em Madri se denomina la movida, quer dizer, a movimentação, a interação de pessoas, a mobilização cultural.

A construção dessa maravilha arquitetônica, idealizada no governo de Ruy Novaes (talvez para se redimir da demolição do maravilhoso Teatro Municipal), foi iniciada por Orestes Quércia e concluída sendo prefeito Lauro Péricles Gonçalves. Como presidente da Emdec e depois Secretário Municipal de Cultura, vivi o cotidiano das obras de conclusão do Centro de Convivência até sua inauguração em 1976.

O que era - e espero que volte a ser - o Centro de Convivência Cultural de Campinas? Era e será novamente um espaço cultural multiuso, um lugar onde a gente da cidade convive - e acentuo essa palavra para reforçar seu caráter inovador em relação a outros espaços do gênero.

Há mais de dez anos esse magnífico equipamento cultural está inativo. Em seus preciosos artigos neste Correio, Maria Eugênia Castanho tem historiado os vaivéns da administração municipal sobre sua recuperação. Por ela ficamos sabendo que agora há obra no local. Pena que a recuperação contratada seja apenas parcial. Mas já é um passo em direção à realização do sonho de ali voltarmos a conviver, a respirar cultura, a trocar cultura.

Os mais novos não chegaram a frequentar o Centro de Convivência. Os que o conheceram podem estar esquecidos do que era e de como funcionava. Darei duas palavras sobre isso, colhidas na crônica que escrevi anteriormente: "No meio de uma grande praça, que se chama "Imprensa Fluminense" em homenagem ao apoio que a mídia do Rio deu à cidade quando da febre amarela, há um espaço circular para os mais diversos tipos de apresentações e manifestações, cercado de quatro blocos elevados conformados como arquibancadas. Esses blocos são ocos e no seu interior há três galerias para exposições de artes plásticas, nas quais ocorreram ao longo do tempo memoráveis momentos culturais. Há também o espaço de um bar ou café, no qual se reunia muita gente disposta a uma boa conversa em torno da mesa, comentando a exposição da qual participaram, a peça a que assistiram, a sinfonia que ouviram - ou mesmo o último jogo da Ponte Preta e do Guarani, os acontecimentos políticos, a vida pessoal... a lista não teria fim e ao seu conjunto, queiram ou não os elitistas, dá-se o nome de cultura".

Que mais? Bem, havia o teatro interno, um verdadeiro primor. Não muito grande, na medida exata das necessidades de Campinas, com um bom palco, fosso de orquestra e uma acústica apurada, fruto das avaliações e intervenções do maior especialista nessa área na época, o inesquecível Igor Srenewski. Nessa sala de espetáculos apresentava-se regularmente a Orquestra Sinfônica de Campinas, inicialmente regida por Benito Juarez. Na parte de trás do mesmo bloco havia lugar para a sala de ensaios da orquestra e até para sua sede administrativa. Também atrás do palco havia uma grande porta dando para a praça, através da qual poderiam ter acesso objetos cênicos de grande porte, como, por exemplo, um elefante. Na parte externa, uma torre de concreto para iluminação da arena era como uma seta inclinada mostrando a direção para o alto que Campinas deveria seguir. Realmente, um "centro de convivência cultural". A feira hippie que tem lugar nos fins de semana na praça que rodeia o CCC é a única coisa que ainda funciona ali. Essa feira, voltada para o artesanato, é um complemento perfeito, dentro da convivência humana, da arte produzida e fruída no interior do espaço.

Como vão as obras de restauro? Segundo Luiz Rossini, atuante vereador à nossa Câmara e presidente da comissão da edilidade que as acompanha, vão bem. Terminada a primeira fase, mais "dura", logo virá a segunda, mais "leve". Para esta, segundo Rossini, breve se abrirá licitação. Que a previsão de Rossini, coincidentemente xará do grande operista italiano, se concretize.

Na música-poema de Vinicius, "mais que nunca é preciso cantar" para "alegrar a cidade". Acrescento: mais que nunca é preciso cantar e conviver na magia do mundo simbólico.

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Sérgio Castanho/ Correio Popular