Publicado 19 de Junho de 2021 - 11h38

Por Luno Volpato

Neste momento, são, aproximadamente, 500.000 mortes no Brasil… Isto mesmo, 500.000...

Convenhamos, é um dado alarmante, trágico, catastrófico... Uma crueldade que os números atualizam, dia após dia. No estágio atual, são quase 2.000 mortes por dia. Triste recorde!

Isto para não se falar das brechas inacessíveis que as pesquisas não mostram, representadas pela chamada subnotificação. Levados a sério estes casos, em números absolutos, subiriam consideravelmente.

E todos que partiram tinham sonhos, crenças, esperança… E todos deixaram saudades, recordações, lembranças de momentos felizes, inesquecíveis e ainda muitas, muitas histórias para contar... Quantos óbitos de crianças, nas periferias, que morrem e são enterradas no fundo das próprias casas, sem qualquer visibilidade que não as lágrimas, molhando os rostos e o desespero, sem consolo, visíveis nas faces amarguradas dos familiares, fiéis testemunhas de um drama sem limites. Quando se reúnem, (aliás, são proibidas as reuniões), as pessoas se apressam em relatar casos que as atingiram. Uma história mais angustiante e macabra do que a outra… A esperança de melhores dias fica cada vez mais distante. Se é que existe!... E as perdas, os números sinistros, vão subindo, subindo… Dolorosamente subindo...

O vírus atinge, inadvertidamente, gregos e troianos, homens e mulheres, negros e brancos, pobres e ricos... Sem causa, sem aviso, sem complacência, sem limites… Já não são apenas lágrimas, são gotas de sangue que se alojam no coração, machucam o sentimento de cada um, sem forma e sem cor, mas com endereço certo e mortal. Gritos ensandecidos, pedidos de socorro cortam os ares, identificando mais uma vítima... No começo da pandemia, o vírus chinês era mais agressivo com os idosos, como eu. Mas, aos poucos, foi se infiltrando, pelas demais faixas etárias. Ainda ontem, a TV mostrou um jovem de apenas 22 anos, ceifado pelo Covid19, e que nunca tivera qualquer morbidade, segundo os familiares. O vírus é realmente esquisito, traiçoeiro e surpreende os infectologistas e estudiosos. É cruelmente mortal! A lista dos desaparecidos impressiona: avós, pais, irmãos, tios, primos, amigos, vizinhos… E, apesar da orientação das autoridades de saúde, dos reiterados alertas para se respeitar o isolamento, evitar aglomerações, além do uso sistemático de máscaras, ainda assim, presenciamos encontros, baladas, festas clandestinas, noites festivas, a despeito do policiamento ostensivo. Parece que, para muitos, a ficha ainda não caiu… Quantos ainda precisam morrer?!... É bem verdade que ninguém mais aguenta ficar em casa o tempo todo, todavia, é a alternativa que funciona e salva vidas. Em contraposição, abre-se um espaço perigoso para a violência doméstica, com crimes hediondos, especialmente feminicídio, com recordes diários. A verdade é que o Covid19 está assombrando a humanidade como um todo…

Ninguém tem a carta na manga. A vacina, ainda o melhor remédio, está avançando de forma lenta, sem uma logística eficiente e no ritmo atual, para vacinar toda população brasileira, lá se vão mais dez, doze meses... Oxalá! E quantas mortes mais!...

Ainda estamos no outono. E o inverno, período em que o vírus intensifica sua proliferação e letalidade, se aproxima... As baixas temperaturas são o ambiente preferido do vírus. Causa arrepios só de pensar… E, como sempre, as populações periféricas, menos privilegiadas, são as que mais sofrem, por dois motivos básicos: precisam trabalhar, mas são desencorajados para evitar a disseminação do vírus; em contrapartida, para terem um escasso prato de comida em suas mesas, o trabalho é o único caminho para sobrevivência… Que paradoxo!...

Você, que está lendo este texto, consegue se imaginar com quatro, cinco filhos, vivendo sob um mesmo teto, aguardando ansiosamente o retorno do progenitor que saiu cedo para trabalhar… E, de repente, eis que ele chega, de mãos abanando, às vezes, com mais fome do que os próprios filhos. Sem palavras!... Que dor! Que dor! Que dor!...

Estes quadros tristes, mas reais, assolam milhões de lares brasileiros, todo santo dia! Um triste desafio para qualquer equilíbrio emocional! E, certamente, predispõe o ambiente para a já referida violência doméstica. O desespero decorrente da fome, fatalmente, implicará um comportamento anômalo, de ansiedade, aflição, desespero… Que drama! Que drama!

Neste instante, ao meditar sobre esta cruel realidade que afeta tantos lares, uma onda de angústia, mal estar e tristeza toma conta de mim… O que eu poderia fazer? Orar?… Já é alguma coisa, porém, tenho absoluta consciência de que é muito, muito pouco, mas… Mas enquanto isso, um drama social, quase inevitável e cruel, se alastra, invade os lares mais pobres, as favelas, as famílias carentes, fragilizadas, impotentes, famintas… Imagino mais um final de tarde chegando… E, lá vem o provedor da família. De longe, ele percebe suas crianças esquálidas, de olhos esbugalhados, esfomeadas, mas sorridentes e cheias de esperanças, vindo ao seu encontro... Elas abrem os bracinhos magros, imagem de súplica retraída, na angustiante expectativa de, ao menos, ganharem um pedaço de pão.

Que nem sempre acontece!

Que desespero, meu Deus!...

 

Escrito por:

Luno Volpato