NELSON JACINTHO

Cana não segura vento

Nelson Jacintho
01/03/2013 às 10:10.
Atualizado em 26/04/2022 às 02:36

Hoje vou falar de um povo pelo qual tenho muito carinho e bom relacionamento, o povo mineiro. O habitante das alterosas, como costuma ser chamado por alguns, é uma pessoa diferente dos outros brasileiros. Atencioso, educado, receptivo. O mineiro é um tipo de brasileiro especial. Se você visita um mineiro e não entra para tomar aquele café doce como a alma do próprio mineiro, ele se ofende.

O mineiro não costuma falar fiado como tantos brasileiros que habitam o nosso imenso país. Ele se comporta mais como a coruja do que como a raposa, mas não é tão acomodado como a coruja, nem tão arrojado como a raposa. O mineiro não toma resoluções imediatas como os demais brasileiros, principalmente os paulistas que vivem afobados e correndo dia e noite. O mineiro ouve, pensa, reflete, conversa com a mulher e os amigos e depois dá a sua opinião.

Dificilmente o mineiro pisa em falso, no real e na metáfora. Mineiro é calmo, paciente, honesto, não tem hábito de aceitar gorjeta e no maior número de casos, as rejeita. Acha que deve receber o que foi instituído. Receber além do combinado, leva-o a pensar em suborno.

Os ditados dos mineiros são interessantíssimos! Há poucos dias, participando de uma reunião em uma cidade de Minas, fui surpreendido por alguns desses ditados.

Estávamos falando sobre os vendavais que têm atingido Ribeirão Preto nos últimos anos, alguém disse que a nossa cidade tinha muitos vendavais por causa dos canaviais. Perguntei-lhe por que, e ele me disse que “cana não segura vento”. Ri, no momento, pois me pareceu uma piada, mas depois, refletindo sobre o assunto, vi que ele tinha razão. Durante a minha estadia, ouvi ainda que “nas estradas durante a noite, as curvas são mais encurvadas”. Ouvi, também que “durante a noite as árvores solitárias dormem mais que as outras porque não têm com quem conversar”.

No meu retorno, à noite, para Ribeirão Preto, passando pelas incontáveis curvas das estradas de Minas, pude constatar que, de fato, as curvas me pareciam muito mais “encurvadas” do que as mesmas curvas que passei durante o dia. Refletindo sobre os canaviais lembrei-me das ondas maravilhosas que o vento faz nos nossos canaviais aparentando-as com um extenso mar verde, cujas ondas não tinham obstáculos á passagem do vento. Passando por um coqueiro solitário à beira da estrada, vi como ele estava quieto, dando-me a impressão de que dormia. Continuei o meu caminho pelo mar de cana, sem curvas na estrada e sem árvores, elas tinham sido arrancadas para o plantio da cana. Acho que as usinas não sabem que “cana não segura vento”.

Nelson Jacintho é médico, escritor e integrante da Academia Ribeirão-pretana de letras

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