Será o primeiro projeto oficial do Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS), com capacidade para 60 novos negócios
Parque Científico e Tecnológico da Unicamp registrou R$ 82,06 milhões de faturamento em 2023, montante 19,13% superior aos R$ 68,88 milhões de 2022; de acordo com a Inova, das 63 empresas incubadas desde a criação, 38 continuam ativas, uma taxa de continuidade de 60% e que é superior à média nacional (Rodrigo Zanotto)
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) iniciará no próximo mês a construção da Vila das Startups, marcando o nascimento do Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS), um distrito de inovação de quarta geração que reunirá, em um mesmo espaço, centros de pesquisa, indústrias de alta tecnologia, residências e comércio. A data foi revelada ontem pelo diretor- executivo da Agência de Inovação da instituição (Inova), Renato Lopes, ao divulgar os resultados de 2023 das 60 startups e empresas incubadas no Parque Científico e Tecnológico da universidade, que registrou o recorde de faturamento de R$ 82,06 milhões e atingiu a capacidade máxima de ocupação.
A Vila, primeiro projeto a ser instalado no HIDS, foi aprovada, em agosto de 2022, para receber um apoio financeiro não reembolsável de R$ 14,77 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O empreendimento ocupará uma área de 3 mil metros quadrados (m²) para abrigar startups e empresas de base tecnológica (EBTs). O espaço terá capacidade para receber até 60 novos negócios, ampliando para 120 a capacidade do Parque Científico e Tecnológico sob gestão da Inova. Atualmente, ele está dividido em seis prédios dentro do campus da Unicamp, que serão mantidos.
A proposta da Vila das Startups é a utilização de um modelo de construção modular, mais ágil e ambientalmente sustentável que as técnicas normalmente utilizadas. Além de reduzir a geração de resíduos de obras, ele permite a ampliação dos espaços de acordo com a demanda, sem a necessidade de construção de um novo prédio. A previsão é de conclusão em julho de 2026. De acordo com Renato Lopes, o empreendimento já se enquadra no uso e ocupação do solo permitida pela legislação atual para a área do HIDS.
O projeto do hub surgiu em 2013, quando a Unicamp adquiriu a Fazenda Argentina, localizada ao lado de seu campus no distrito de Barão Geraldo. Ele tem uma área de 11,3 milhões de m², englobando o Polo 2 de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec 2), o campus Zeferino Vaz da universidade e o campus 1 da PUC-Campinas. O HIDS integra ainda o Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável de Campinas (PIDS), proposta da prefeitura para uso misto de uma área mais ampla, de 17,7 milhões de m². O projeto de lei complementar de mudança no parcelamento, implantação de empreendimentos residenciais, regras e limites para a instalação de empresas, comércio e indústrias está em tramitação na Câmara Municipal.
DESEMPENHO
Para o diretor-executivo da Inova, o objetivo da Vila das Startups se enquadrada na proposta do HIDS, que é promover e ampliar a capacidade de contribuição da Unicamp no apoio às empresas inovadoras, seguindo os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU). A integração desses dois projetos ampliará as possibilidades de interações e de negócios entre as startups e empresas incubadas com outros atores integrantes do hub.
Para a coordenadora de Ambientes de Inovação e Empreendedorismo da Inova Unicamp, Mariana Zanatta Inglez, essa é a base dos resultados obtidos pelo Parque Tecnológico. Em 2023, quando o Inova completou 20 anos, o faturamento das integrantes foi 19,13% superior aos R$ 68,88 milhões de 2022. “A diferença é que nesse ecossistema as empresas estão próximas dos institutos de pesquisa e desenvolvimento (P&D)”, afirmou. A agência da Unicamp também promove o acesso das participantes aos órgãos de fomento.
É esse cenário que levou uma startup de produção de impressoras 3D e desenvolvimento de softwares para facilitar a sua utilização a se instalar no parque da Unicamp no ano passado. Ela começou a ser concebida em 2013, quando o engenheiro mecânico equatoriano José Luiz Dávila veio para a Unicamp fazer mestrado e doutorado, mas enfrentou a barreira da inexistência de equipamentos nacionais, e as opções importadas eram poucas e caras. “Então, eu comecei a desenvolver as minhas próprias soluções”, explicou.
O desenvolvimento dos hardwares e softwares nacionais foi relatado em artigos científicos e atraíram a atenção de pesquisadores, que passaram a procurar o engenheiro. Luiz Dávila viu nesse interesse a oportunidade de abrir o próprio negócio, montado com a sócia e esposa Bruna Maria Manzini. A startup conta hoje com outros nove colaboradores e já vendeu, apenas neste mês, cinco impressoras 3D destinadas ao uso de materiais semissólidos, incluindo géis, hidrogéis, pastas cerâmicas, tintas, biotintas e outros materiais pseudoplásticos.
As aplicações hoje são em institutos de pesquisas, indústrias, farmacêuticas e empresas odontológicas, mas os sócios já pesquisam o uso na produção de medicamentos personalizados. “Hoje, por exemplo, os medicamentos existentes para esquistossomose são apenas para adultos. Quando precisam ser usados por crianças, eles são fracionados, o que deixa alguns princípios ativos expostos e afeta a palatabilidade. As crianças não gostam, podem até ter vômito e passam a rejeitar o tratamento. O uso da impressora 3D vai acabar com isso, pois o remédio será produzido na dose certa para a criança”, explicou Bruna Manzini, que é farmacêutica e conheceu Luiz Dávila quando os dois faziam doutorado.
A nova pesquisa está sendo realizada com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com a startup também de olho no mercado de farmácia de manipulação, setor que em 2021 faturou R$ 9,58 bilhões, segundo Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag). Eles estão terminando um treinamento dado pela Agência Brasileira de Promoção da Exportação e Investimento (Apex Brasil), viabilizado pela Inova, para vender o equipamento no exterior.
EMPREENDEDORISMO
“Os indicadores positivos demonstram que o ambiente e as ações do Parque Científico e Tecnológico e da Incubadora da Unicamp promovem conexões que estimulam novos negócios e parcerias”, afirmou Renato Lopes. De acordo com a Inova, as participantes relataram terem atingido 16 mil novos clientes em 48 mercados espalhados por mais de 360 cidades do Brasil e do exterior no ano passado.
Uma delas é uma empresa que criou um robô que utiliza Inteligência Artificial (IA) para ser usado em portarias de condomínios e empresas. A novidade nasceu da experiência pessoal de Alcino Vilela, um sociólogo que se formou pela Unicamp em 2005. Catorze anos depois, ele voltou para a universidade para desenvolver e produzir a sua criação. “Sou síndico há 16 anos e a maior pressão que os síndicos sofrem é para reduzir os custos do condomínio”, explicou.
De acordo com ele, o atendimento presencial na portaria 24 horas por dia representa 60% dos custos da taxa. Diante desse quadro, encontrou na Unicamp o conhecimento científico necessário para desenvolver o equipamento. Segundo Alcino Vilela, o robô tem quatro barreiras de segurança para evitar a entrada de pessoas não autorizadas. Os visitantes são identificados e fotografados, o acesso somente é permitido após uma chamada de videoconferência com o morador e é necessário usar uma senha para abrir o portão. Caso o equipamento seja danificado, o portão é travado e a central de monitoramento à distância é acionada automaticamente.
Dos 596 empregos gerados pelas integrantes do parque da Unicamp, 41,8% são voltados a P&D e a maioria das vagas é ocupada por estudantes ou ex-alunos da universidade. “Este é um ecossistema que lhe abre portas”, disse o inventor. O porteiro robô já está em funcionamento em condomínios da região e em uma indústria de Monte Mor. A evolução do equipamento já está em desenvolvimento para permitir a automação residencial. De acordo com a Inova, das 63 empresas incubadas desde a criação, 38 continuam ativas, uma taxa de continuidade de 60%. Esse índice é superior aos 25% da média nacional após 13 anos, apontado pela Fundação Dom Cabral. A taxa sobe para 77% quando se trata de deeptechs, empresas ou tecnologias que estão na vanguarda da inovação. “Nós invertemos essa realidade e três quartos das empresas continuam funcionando”, afirmou o supervisor da incubadora e empreendedorismo na Inova, Vital Iasumaru.
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