Comerciante transformou terreno baldio em local que produz plantas medicinais e comestíveis; iniciativa trouxe mais vida a uma parte do bairro
Além de produzir ervas aromáticas e plantas medicinais e comestíveis, a horta comunitária do bairro Nova Europa conta com pergolado, bancos e mesa , que servem ao descanso dos visitantes (Rodrigo Zanotto)
Já imaginou se deparar, em um espaço público encravado em plena área urbana, com um canteiro de ervas medicinais e aromáticas disponível para todo mundo? Uma área que produz chá, temperos e até mesmo hortaliças? Pois bem, isso existe e está disponível no Bairro Nova Europa, em Campinas, ao lado da Praça de Esportes Pompeo de Vitto, às margens da Marginal do Piçarrão.
Há alguns anos, Tatiana Portugal caminhava pelas ruas do bairro quando deu com o espaço repleto plantas variadas. Como o local ficava em frente a uma loja de material de construção, ficou na dúvida se poderia colher algumas ervas para fazer chá, como folhas de boldo. Por isso, decidiu que voltaria em outra oportunidade para perguntar como funcionava o espaço. Dias depois, ela retornou e conheceu Mailda Pedroso Assato, proprietária da loja de materiais de construção e idealizadora da horta.
Mailda, que participa da Organização Não Governamental Fazsol, ligada a ações de sustentabilidade de Mogi das Cruzes, teve que deixar aquela cidade e se mudar para Campinas em 2008. Ela conta que ficava incomodada com o abandono da área e com o matagal que crescia em frente a seu local de trabalho. Decorridos alguns anos, ela teve a ideia de trazer um pouco das atividades da Fazsol para o local. Arregaçou as mangas, limpou o terreno, criou canteiros e pintou pneus, que foram transformados em vasos e deram um colorido ao espaço. Pronto, estava instituída uma filial da ONG em Campinas.
"Depois de um tempo, resolvi cultivar ervas aromáticas e medicinais. Quero que todos possam usá-las no momento que quiserem e precisarem", explica Mailda. "Podem colher o que desejarem, pois tudo que está plantado é de todo mundo", completa, lembrando que no começo do projeto contava apenas coma a ajuda de um funcionário da sua loja.
Segundo ela, a Fazsol é uma ONG que nasceu com a missão de conservação, proteção e educação ecológica, ensinando que o homem é parte da natureza. "Em nossa matriz, desenvolvemos agricultura orgânica em meio à mata nativa, também conhecida pelo termo agroflorestal. Lá, plantamos alimentos e fitoterápicos. Também produzimos doces, geleias e compotas artesanais", conta, acrescentando que até o óleo de cozinha, que já utilizado vira sabão ecológico e é utilizada para lavar roupa e louça. A comerciante até hoje mantém o vínculo com a matriz, participando das atividades na cidade de Mogi das Cruzes.
Com base nos conhecimentos adquiridos em sua militância pela causa ecológica, a idealizadora da horta decidiu que usaria pneus usados para montar os canteiros, evitando assim que mais lixo fosse descartado de forma irregular. O que começou com poucas unidades, hoje se transformou em um espaço com 392 pneus que servem de base para o cultivo de flores, ervas medicinais e aromáticas, verduras (alface e pepino) e frutas (romã e amora), entre outros.
Atualmente, o espaço está cercado para evitar a entrada de animais, mas o portão nunca é trancado, permitindo acesso dia e noite. O local conta com um pergolado com mesa e bancos para que as pessoas possam relaxar e sociabilizar em um ambiente que é naturalmente perfumado, devido à presença das ervas. Em outros termos, a horta também é um espaço de vivência para os moradores e frequentadores eventuais. "É comum ver pessoas passarem e colherem o precisam, seja de dia, de noite ou até mesmo de madrugada. É tão inspirador, que meu vizinho começou a plantar árvores frutíferas ao lado da horta. Vejo essa horta como forma de melhorar o nosso entorno, de mudar a nossa maneira de viver e de nos preocuparmos também com os outros", destaca Mailda.
Como a iniciativa da comerciante chamou muito a atenção de Tatiana, a personagem inicial desta reportagem, esta também decidiu ajudar a cuidar do local. Para completar, ainda chamou o amigo Paulo Tonhasolo, que é aromaterapeuta e entende de plantas medicinais e ervas, para integrar o esforço. Na ocasião, ele selecionou pelo menos 20 novas espécies de plantas para o local. Após o plantio, foram colocadas plaquinhas para identificar cada planta. No local tem hortelã, manjericão, erva-doce, tomilho, orégano, poejo, sálvia e muitas outras. Também tiveram a ideia de plantar algumas hortaliças e verduras, como beterraba e agrião.
"Nesse trajeto, algumas pessoas da vizinhança foram trazendo mudas de ervas. O encontro com a Tatiana e Paulo, que se propuseram trazer e plantar ervas e verduras, deu ainda mais ânimo para cuidar deste espaço, que é nosso", conta Mailda, que pretende estimular a criação de outras hortas comunitárias pela cidade. Atualmente, Tatiana e Paulo já não participam ativamente das ações, mas eles contribuíram para atrair novos voluntários. É o caso de Vilma Siqueira, advogada que trabalha no Centro da cidade e que se mudou recentemente para o bairro onde está a horta.
Vilma também conheceu o trabalho de Mailda ao fazer caminhadas na região. No começo, não se sentiu, igualmente, à vontade para colher algo da horta. Depois de conhecer a idealizadora do espaço, ele abraçou a "causa". Atualmente, ela ajuda a limpar os canteiros, a regar as plantas e até dá apoio financeiro, uma vez que a maior parte dos gastos, como o uso da água, sai bolso da comerciante.
Para ela, a horta vai muito além de alimentar o corpo. "É um espaço muito bonito, enfeitado, colorido e que atrai muita vida, como pássaros, borboletas e abelhas. Eu vejo a natureza como uma criação divina. Uma conexão com Deus, com a terra. Um lugar que me dá equilíbrio", diz Vilma, que pretende se dedicar ainda mais à horta, indo pelo menos duas vezes por semana ajudar nas atividades.
Vilma diz ter uma ligação afetiva com o espaço no Nova Europa. "Minha mãe faleceu há 17 anos. Nasci em um sítio, e quando nos mudamos para Campinas minha mãe continuou com a plantação. Ela tinha uma horta no terreno ao lado de nossa casa. Isso tudo me remete a ela", completa.
A horta comunitária do Nova Europa despertou a atenção da pequena Anabela Ângelo Rezende, de 12 anos, a mais nova voluntária. De acordo com a mãe Paula, elas descobriam o local nestas férias ao passearem de bicicleta. "Ela ficou encantada e queria ajudar de qualquer forma. Procuramos o responsável e chegamos até a Mailda", narra.
Anabela enfatiza que mesmo com a volta às aulas (ela cursa o 7º. ano) na próxima segunda-feira, não vai abrir mão de continuar contribuindo. "Tudo aqui é bonitinho, tem plaquinhas com os nomes das ervas, o que ajuda as pessoas. Minha mãe mesmo já usou. Ela tomou um chá e melhorou", exemplifica, dizendo que gosta, além de plantar, de regar os vegetais e arrancar as ervas daninhas.
Agora, a nova luta de Mailda é junto ao Poder Público. Como a área é da Prefeitura, ela está tentando obter um ponto de água e uma espécie de "posse do local", para que a horta permaneça oferecendo produtos que auxiliam "a cuidar do corpo, da mente e do ambiente". "Quero preservar a horta. Não a imagino sendo destruída. A posse poderia garantir isso", imagina a comerciante-ambientalista.