Agressões iniciaram na área externa do Estádio Brinco de Ouro e continuaram em uma sala dentro do prédio

Torcedor mostra marcas por todo o corpo em frente ao Instituto Médico Legal (IML), onde fez exame de corpo delito: advogado fará denúncia no MP (Thomaz Marostegan/Especial para a AAN )
Policiais militares são acusados de espancar e ameaçar de morte um torcedor do Guarani na entrada do Estádio Brinco de Ouro, anteontem à tarde, antes da partida entre Guarani e Coritiba, pela Série B do Campeonato Brasileiro. O caso foi registrado no plantão do 1º Distrito Policial (DP), no bairro Botafogo, como lesão corporal e resistência e será investigado pelo 10º DP, no Jardim Proença. Segundo testemunhas e familiares, a agressão foi por motivo banal e ao menos oito policiais teriam participado do espancamento, que começou na parte externa do estádio e se estendeu até uma salinha do lado de dentro do prédio, onde funciona provisoriamente a base da PM. Espero justiça! O comerciante Rodrigo Carvalho Avelar, de 39 anos, afirma que levou cassetetes, chutes e socos, além de ser algemado, mesmo estando no chão e dominado. “Espero justiça. Espero que esses policiais sejam punidos. Fui torturado. Eles foram covardes, pois disseram que eu estava bêbado, mas como podem bater em um bêbado? Já começa por aí. Eu não estava bêbado não. Estou desacreditado com a polícia, que é paga para nos defender. Agora já não sei se estamos lidando com bandidos ou com a polícia”, desabafou. Avelar, que é morador de Pederneiras, estava na casa da mãe e foi assistir ao jogo com a mulher, a empresária Angélica Gomes da Silva, de 34 anos, a filha de 7 anos, a irmã e o cunhado, dois sobrinhos, um de 7 e outro de 11 anos, e um vizinho do cunhado, de 12 anos. A família estava na fila para revista, antes de passar pela catraca. “Eu comprei uma lata de cerveja. Enquanto estava na fila e bebia, um policial que estava revistando me disse se eu não conhecia as leis e que não podia entrar bebendo. Eu disse que sim e que terminaria de beber para depois entrar. Nisso, o policial que estava do lado, perguntou-me se eu não tinha escutado e se nunca tinha ido em um jogo. Eu falei que não estava falando com ele. Então esse policial já veio para cima de mim, batendo com o cassetete, e, do nada, apareceu um monte de policiais que me espancaram”, contou o comerciante. Pânico e gritaria Os parentes que estavam ao lado disseram que tentaram impedir a agressão e acabaram apanhando também. A irmã da vítima chegou a ser empurrada da escada ao pedir notícias de Avelar, que já tinha sido levado para a salinha. “Foi horrível. Minha filha ficou em pânico. Ela dizia: ‘a polícia pega bandidos mamãe, por que estão batendo no meu pai? Ele não fez nada’”, contou. “Ela está em choque e nem conseguiu dormir à noite. Não dá para acreditar no que aconteceu”, falou. Tortura na salinha Segundo o comerciante, o espancamento, com tortura, seguiu mais violento na salinha para onde foi levado e durou pelo menos meia hora. “Não deixaram a gente entrar. Ficamos em pânico. A gente sempre assistiu aos jogos e nunca aconteceu isso! Para nós, acabou. Não pretendemos voltar mais em estádio depois disso. Foi muito triste o que aconteceu. Não precisava dessa agressão”, disse o comerciante Ricardo Ciampi, de 40 anos, cunhado do torcedor. Testemunha em choque Um estudante de medicina, de 23 anos, torcedor bugrino que estava na fila da catraca, pouco adiante de onde estava a família e que não conhece o comerciante, disse que acompanhou a agressão de onde estava e ficou assustado. “Eu não vi o torcedor atacando ninguém. Não escutei o que ele disse ao policial, mas acho que a polícia foi truculenta. O que mais me chocou foi ver os policiais espancando o torcedor, mesmo ele estando no chão. Eram muitos. Foi a cena mais triste que vi na minha vida. Ainda mais quando a menininha, assustada, gritava que era o pai dela e que não era para bater nele”, contou o jovem, identificado apenas por Matheus. Visivelmente alterado No boletim de ocorrência, o policial militar, um soldado, disse que o comerciante tentou entrar no estádio portanto uma lata de cerveja, e que foi orientado sobre a proibição. Ainda de acordo com a PM, o torcedor estava visivelmente embriagado e bastante alterado. Que teria tentado forçar a entrada, e como foi barrado, foi necessário o uso de força moderada com cassetete e algemas para conter o torcedor. Corpo de delito Depois de prestar depoimento na delegacia, Rodrigo foi levado por familiares para o Hospital Mário Gatti. Avelar nega que tenha resistido às ordens dos policiais. Ontem pela manhã, ele passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML). O advogado do comerciante, Pedro Luís Camargo, disse que vai apresentar denúncia no Ministério Público e também para alterar a natureza do crime para tentativa de homicídio e tortura.