Presença volumosa dos roedores nas áreas urbana e rural gera preocupação na cidade
Capivaras convivem com patos no Parque das Águas, na região do Jambeiro, que foi reaberto recentemente pela Prefeitura de Campinas (Kamá Ribeiro)
O surto de febre maculosa na Fazenda Santa Margarida, no distrito de Joaquim Egídio, levantou novamente a discussão sobre um dos principais hospedeiros do carrapato-estrela, a capivara e sua volumosa presença no município. Não há campineiro que não tenha visto uma durante um passeio no parque, um piquenique próximo a uma lagoa ou mesmo em áreas mais urbanas, como nas avenidas Norte Sul e Orozimbo Maia. O tema é alvo de muitos debates e polêmica na cidade, que estuda alternativas, após inúmeras tentativas de controle das capivaras, todas sem o sucesso desejado.
Em 2011, 20 animais foram abatidos, após a morte de três servidores que foram contaminados com a febre maculosa. À época, o abate foi uma medida excepcional, uma vez que a legislação ambiental para animais silvestres impede a Prefeitura de fazer o manejo das espécies sem a autorização do Estado. O biólogo e especialista em controle de pragas em Campinas, Ronaldo Caetano Silva, reconheceu que a situação é complexa e alertou que o manejo das capivaras não é a solução. "Autorizar o manejo de animais silvestres e urbanos, como é o caso das capivaras, somente irá transferir os problemas para outro local ou cidade, uma vez que elas não possuem predadores naturais em áreas urbanas"
A onça-pintada é o predador natural, mas ela é considerada extinta na nossa região.
O médico-veterinário do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal da Secretaria do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Campinas, Paulo Anselmo, participou da reunião emergencial promovida na última quarta-feira pela Prefeitura de Campinas para tratar do enfrentamento à febre maculosa. Ele afirmou ser muito comum o estigma da relação entre febre maculosa e capivaras, porém, explicou que o animal tem um papel paralelo, não direto, na transmissão.
"Ela mantém uma grande infestação de carrapatos, mas existe transmissão de febre maculosa em regiões que não têm capivara. Várias tentativas de manejo de capivaras foram realizadas ao longo do tempo. Translocação, abate, várias outras, e todas se mostraram infrutíferas. Mesmo se fosse possível a gente retirar todas as capivaras do planeta, ainda haveria risco de febre maculosa."
Anselmo acrescentou que as tentativas de retirar as capivaras dos locais, sem sucesso, não funcionou porque elas voltaram a ocupar os espaços. Para retornar a estes locais, ou ocupar novos, elas utilizam as galerias pluviais e toda a rede hídrica. A tentativa de retirar todas de um lugar, mesmo que fechado, duraria dois meses no máximo, pois elas ocupam espaços vazios hídricos e acabariam retornando por meio da rede pluvial, como já aconteceu no Lago do Café.
"Então, não é retirando as capivaras que o problema será resolvido. São roedores que têm uma capacidade reprodutiva muito alta e recolonizam. Quem andar na NorteSul, na Orozimbo Maia, vai ver grupos de capivaras lá. Temos que reorganizar a fauna na cidade. A Secretaria do Verde tem um projeto que se chama 'Reconecta', cujo objetivo é esse, religar os fragmentos de mata. Hoje não é um projeto apenas da Secretaria, é da Região Metropolitana de Campinas (RMC). É para que o predador tenha fluidez, tenha como caminhar, exista uma troca gênica e comece a haver uma reorganização dessa questão da presença urbana das capivaras."
Uma das possibilidades de manejo que a Prefeitura estuda fazer é realizar a vasectomia nos machos e laqueadura nas fêmeas para tentar frear a reprodução e obter um controle populacional. Em 2016 houve uma tentativa de promover as ações de esterilização em 12 capivaras. No entanto, a medida obteve resultado por apenas um ano. Depois, eram quarenta capivaras onde antes tinham apenas 12.
Outra ação possível pensada pela Administração municipal é a diminuição da vegetação, alimento das capivaras, nestes locais em que elas estão presentes. Anselmo explicou que a quantidade de vegetação no local é proporcional a quantidade de capivaras que o local terá. Se, por exemplo, colocarem mais capivaras do que há de alimento para elas, vão para outro lugar e colonizar outros espaços.
De acordo com a Prefeitura, o manejo de capivaras cabe ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ligado ao Ministério do Meio Ambiente e à Secretaria do Meio Ambiente do Estado. Parque Ecológico, Parque das Águas, Lagoa do Taquaral, Lago do Café são alguns dos lugares em que há a presença das capivaras na cidade. No Taquaral, por exemplo, são 48 indivíduos e no Lago do Café há outros 28 animais.
Mesmo sendo a capivara uma das hospedeiras do transmissor da febre maculosa, o infectologista do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), Rodrigo Angerami, fez questão de frisar que as pessoas podem continuar indo aos parques.
"Cada vez mais a gente diz que a qualidade de vida passa pelo contato com áreas com recursos ambientais. (Não ir aos parques) não é uma recomendação que a gente faria. A gente discute sexo seguro para prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, a gente recomenda a utilização de máscaras e etiqueta respiratória para doenças respiratórias. Para cada situação temos um pacote de ações de prevenção e proteção individual".
Angerami afirmou que a ideia é oferecer a possibilidade das pessoas usufruírem destes locais de maneira segura. Para isso, o importante é sensibilizar e educar a população, além de realizar ações de manejo ambiental, mas ao mesmo tempo nunca defender a ideia de não ir aos parques ou deixar de realizar atividades de ecoturismo, algo característico, por exemplo, da região do distrito de Joaquim Egídio.
"Pessoas que vivem, trabalham e têm atividades de lazer em Campinas, elas residem, trabalham e têm atividades de lazer em uma área endêmica para febre maculosa. E nós não vamos deixar de ter esse status. Não é uma doença eliminável. É um vetor dificilmente controlável. O que a gente precisa é utilizar esses equipamentos públicos para ações de educação em Saúde. Então temos que utilizar desses espaços públicos, com parcerias que estão havendo com instituições de ensino no sentido de orientar a população sobre o que é a doença, como se pega, como se previne."
Ao frequentar estes locais, é importante evitar se aproximar de áreas com rio, lagos, capivaras ou mesmo atividades em contato direto com a grama. Se não for possível, a orientação é fazer uma autoinspeção minuciosa para a correta retirada de carrapato caso algum seja localizado.