Funcionário desde 1990, José Leopoldino entrou na instituição em 1984
Qualquer pessoa que tenha sido patrulheiro, a partir da década de 1990, fatalmente conhece José Leopoldino, mais conhecido como seo Leo, hoje com 49 anos. Figura quase onipresente em todos os corredores da instituição, ele trabalha com os jovens há 28 anos. Detalhe: ele também foi patrulheiro, hoje conhecido como jovem aprendiz. À primeira vista, parece um pouco bravo, fechado, mas ao trocar duas palavras, essa impressão muda rapidamente. Tanto é que pelos corredores o que mais se ouve dos adolescentes é “oi seu Leo”, “tchau seo Leo”. Ele faz questão de tratar todos com respeito e carinho. José Leopoldino entrou na instituição no dia 31 de março de 1984 e ficou até 15 de dezembro de 1987. “Nessa época, eu estudava de manhã, fazia a formação aqui, e trabalhava meio-período à tarde. Trabalhei na empresa New Eletric, depois na CPFL, e também na General Eletric do Brasil”, lembra. Com 18 anos prestou o serviço militar obrigatório, e lá permaneceu até o dia 08 de fevereiro de 1990 — não estranhe, seo Leo tem todas as datas de cabeça e adora inclui-las em cada uma das respostas. Mas não se engane, mesmo nesse período fora, ele nunca cortou o vínculo com a instituição. “Era comum depois de completar 18 anos, os patrulheiros ficarem como voluntários. A gente ajudava na reunião geral, ajudava a organizar o desfile de 7 de setembro, o campeonato dos Patrulheiros. Éramos chamados de patrulheiros graduados ou honorários. Fiz parte dessa turma, nunca me desliguei”, conta. Voltando então às datas, como seo Leo gosta, ele retornou como funcionário dos Patrulheiros em 17 de abril de 1991 e não saiu mais. “Um rapaz que trabalhava aqui foi para outra empresa e eu entrei no lugar dele”, explica. O primeiro setor que ele trabalhou foi o disciplinar, responsável por fazer as formaturas, orientar os graduados, organização geral, e até as aulas de datilografia, feitas em máquina de escrever da marca Olivetti. Ficou nesse setor durante quatro anos. De 1995 até abril de 2005 ele trabalhou na tesouraria. “A gente fazia os pagamentos dos patrulheiros, entregava os cheques e fazia a ordens de pagamentos para receber no banco”, explica. Depois, de 2005 até março de 2010, ficou responsável pelo setor de Artes e Cultura Corporal (ACC), e cuidava das atividades, como futebol, artes circenses, percussão e lutas. De março de 2010 até agora, está no setor educacional. “Para mim é uma honra. Eu olho para trás com satisfação. Ajudei a encaminhar muitos adolescentes”, afirma. Por conta dessa vivência de anos na instituição, mais de 20 mil adolescentes já conviveram com seo Leo. “Em todo lugar que eu vou, eu sou parado por alguém que já foi patrulheiro e se lembra de mim. No mercado, cinema, ônibus, e muitos outros lugares. Até em Aparecida do Norte, eu encontrei uma freira, na sala dos milagres. Ela me abordou e contou que tinha sido patrulheira e se lembrava de mim. É uma honra”, diz contente. “Quero ficar aqui até me aposentar. Eu amo o que faço”, diz. A instituição é tão presente em sua vida, que até sua esposa também foi patrulheira. “Minha filha mais velha, de 18 anos, foi patrulheira. Meu filho de 17 também é patrulheiro”, diz orgulhoso. Alguém duvida que o filho de 12 anos e a caçula de apenas 3 anos têm grandes chances de trilhar os mesmo passos? Patrulheirismo foi a semente da instituição Entidade passou por transformações e adequações desde a fundação, em 1966 A história dos Patrulheiros começou em 1966, quando ocorreu a implantação do Patrulheirismo em Campinas por Roland Peres, juiz substituto da Primeira Vara Criminal e de Menores, e por Maria Angélica Barreto Pyles. Em 1968, foi fundada a Entidade Patrulheiros Mirins de Campinas, cuja sede ficava no subsolo do Palácio da Justiça. No mesmo ano teve a formação da primeira turma de patrulheiros, composta por 16 garotos que participaram de um curso de formação durante três meses. Em 1970, a administração da entidade passou a ser feita por membros do Rotary Club de Campinas Sul. Neste mesmo ano aconteceu a inauguração da sede própria, com área de 19.000 m2, doada pela Prefeitura de Campinas. Outro marco foi a formatura da primeira turma de patrulheiras. Uma grande conquista para as mulheres, uma vez que o mercado de trabalho era constituído majoritariamente por homens. Já em 2010, a sede ganhou um novo prédio, com dez salas de aulas, biblioteca, laboratório de informática e espaço para realização de eventos. Ainda neste ano, houve a alteração da razão social de Círculo de Amigos do Menor Patrulheiro de Campinas para Centro de Aprendizagem e Mobilização pela Cidadania, mantendo a sigla CAMPC e o nome fantasia Patrulheiros Campinas. O atual presidente Wesley Pacheco, 44 anos, lembra que o desafio é ingressar o jovem no mercado de trabalho. “As empresas precisam disponibilizar mais vagas de trabalho. Atendemos jovens de vulnerabilidade, todos de escola pública e baixa renda familiar. Quando a empresa oferece a vaga, não está só cumprindo cota de aprendiz, está fazendo algo social”, avalia. Atualmente, a instituição tem 880 adolescentes trabalhando em 140 empresas parceiras. A cada 45 dias, outros 150 jovens são formados. “Nossa meta é que esse número chegue a 1,2 mil jovens. “O impacto que os Patrulheiros têm na vida desses adolescentes é enorme, pois tira das ruas e dos riscos do tráfico e das drogas”, afirma. O presidente garante que as portas dos Patrulheiros estão abertas para a sociedade, empresas e entidades. “As pessoas podem vir conhecer, fazer palestras, oficinas, doar livros, roupas, mantimentos e equipamentos”, finaliza. GRATIDÃO Esse repórter que escreve foi um dos milhares de adolescentes que passaram pela instituição. Fui patrulheiro no começo da década de 2000. Trabalhei em uma grande empresa de Campinas, pude ajudar com as despesas de casa, e também terminar de moldar meu caráter e formar minha ética profissional, além de ter feito amigos para a vida toda. Consegui ser efetivado na empresa e com isso tive a vida transformada. Graças a isso pude cursar a tão sonhada faculdade de jornalismo. SAIBA MAIS Seo Leo é ainda segundo vice-presidente da Associação dos Eternos Patrulheiros “Maria Angélica Barreto Pyles”, que tem como objetivo ajudar os ex-patrulheiros que possam estar passando por alguma dificuldade.