Americana possui 98,33% da população com 15 anos ou mais alfabetizada e lidera na região; índice em Campinas é de 97,59%
O professor da Faculdade de Educação da Unicamp, Sérgio Leite, avalia que o percentual de analfabetos é maior entre idosos e trabalhadores rurais, por exemplo: ‘a educação de jovens e adultos permanece sendo um desafio. O país deixou de avançar nessa área e isso é um sinal de que não está tudo bem’ (Kamá Ribeiro)
A taxa de alfabetização entre as pessoas de 15 anos ou mais nos 20 municípios que compõem a Região Metropolitana de Campinas (RMC) ultrapassa 90%, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Destacamse os municípios de Americana, que tem a maior taxa (98,33%), e Engenheiro Coelho, que possui a menor (94,26%). Campinas tem 97,59% de sua população com 15 anos ou mais alfabetizada.
Engenheiro Coelho e Artur Nogueira tiveram os piores resultados
De acordo com o professor Sergio Leite, titular da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os dados divulgados ontem apresentam cenário positivo no avanço da alfabetização ao mesmo tempo em que evidenciam a manutenção de desigualdades históricas. Ele aponta, ainda, que as maiores taxas de analfabetismo se concentram na população idosa e de menor renda. Municípios da RMC que têm a economia concentrada em atividades rurais possuem as menores taxas de alfabetização, casos de Artur Nogueira e Engenheiro Coelho, cidades produtoras de cana-de-açúcar e laranja.
Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE foram divulgados em junho do ano passado, mas as informações sobre a alfabetização no Brasil foram reveladas quase um ano depois. No Brasil, a taxa de analfabetismo de pessoas a partir dos 15 anos de idade recuou de 9,6% para 7% entre 2010 - quando foi realizado o penúltimo Censo - e 2022.
INCIDÊNCIA
Os municípios que possuem maior percentual de analfabetos com 15 anos ou mais na região são, justamente, os que possuem grande volume de trabalhadores rurais, e cujas economias dependem da agricultura. Engenheiro Coelho e Artur Nogueira ocupam o 1º e 2º lugar, com, respectivamente, 5,74% e 4,59% de pessoas na faixa etária analisada que não sabem ler ou escrever um bilhete simples. Cosmópolis, que está geograficamente localizada ao lado das duas cidades, mas já conta com menor população de trabalhadores rurais e aparece com um percentual um pouco menor de analfabetismo, 3,36%. O 3º lugar é ocupado por Monte Mor, com o índice de 4,42%.
Na avaliação do professor Sérgio Leite, da Faculdade de Educação da Unicamp, embora as taxas de analfabetismo tenham reduzido, o problema persiste nas populações menos favorecidas socialmente, idosos, negros e trabalhadores rurais.
“Dizer que houve uma redução em nível nacional, haja vista que caiu para 7%, é um dado positivo, porém esse índice camufla dados da realidade que precisam ser considerados. Uma análise minuciosa revela que esse percentual se concentra em instâncias específicas, sobretudo idosos, trabalhadores rurais e nordestinos. Entre idosos, esse índice chega a 27%, extremamente elevado. Ou seja, embora haja uma redução, fica evidente que a educação de adultos permanece sendo um desafio”, avalia Leite. “O país deixou de avançar nessa área e isso é um sinal de que não está tudo bem. É o primeiro problema a ser considerado.”
Regionalmente, o professor entende que a taxa para Campinas, por exemplo, pode ser considerada baixa. “Há casos de pessoas que vieram de outros estados, há trabalhadores rurais, pessoas que tiveram a educação prejudicada por algum motivo. O índice para Campinas não é ruim. O que é mais importante, mesmo em função dos cerca de 2% (de analfabetismo entre pessoas a partir dos 15 anos), é não deixar descuidar da política voltada para a educação de adultos. Pesquisei muito a Educação de Jovens e Adultos em Campinas e é uma população muito sofrida, mas que tem condição de se apropriar da escrita. Quando isso acontece, o que notamos é que a vida deles muda completamente.”
Por fim, o professor chamou a atenção para a métrica usada pelo IBGE, que considera como analfabetos os que não são letrados. “É como se a alfabetização fosse uma relação de som e letras, grafema e fonema. Essa é uma visão questionada desde o século passado, principalmente pelos países avançados. O ideal é se considerar o alfabetismo funcional, ou seja, compreender se a pessoa sabe interpretar uma fala e se comunicar precisamente, indo além da escrita estritamente correta”, finaliza.
Marceneiro, Rogério Silva, de 40 anos, se sente limitado pela falta de leitura. Morador do Jardim Conceição, ele depende de alguém para leválo diariamente ao trabalho, pois, por não saber ler, não pode tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
“É complicado não conseguir fazer as coisas. Preciso ter cuidado redobrado com tudo, pois podem passar a perna na gente, em banco, em contratos, em tudo. É uma questão que tira a autoestima das pessoas”, declara Silva, que pretende iniciar a alfabetização ainda em 2024.
Durante a pesquisa no Censo 2022, o IBGE visitou todos os domicílios do país. A pesquisa tem por objetivo coletar dados sobre a população brasileira. Posteriormente, eles são utilizados para nortear governos na promoção de políticas públicas.
Para o recorte de alfabetização o IBGE perguntou aos entrevistados se sabiam ler e escrever um bilhete simples, com poucas frases e de forma clara e objetiva. No país, 50 municípios têm índices de analfabetismo, na população com 15 anos ou mais, iguais ou superiores a 30%. Quarenta e oito dessas cidades estão no Nordeste, com exceção de Alegre e Amajari, em Roraima, no Norte.
POPULAÇÃO COM 15 ANOS OU MAIS ALFABETIZADA POR CIDADE
Americana ..................................................................98,33%
Valinhos ......................................................................98,05%
Vinhedo ......................................................................98,01%
Indaiatuba ...................................................................97,88%
Nova Odessa ..............................................................97,87%
Paulínia .......................................................................97,81%
Campinas.....................................................................97,59%
Jaguariúna....................................................................97,5%
Santa Bárbara d’Oeste.................................................97,41%
Itatiba............................................................................97,41%
Hortolândia...................................................................96,93%
Pedreira........................................................................96,74%
Cosmópolis...................................................................96,64%
Holambra......................................................................96,51%
Sumaré..........................................................................96,5%
Morungaba....................................................................96,36%
Santo Antônio de Posse................................................96,26%
Monte Mor.....................................................................95,58%
Artur Nogueira...............................................................95,41%
Engenheiro Coelho.......................................................94,26%
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