SABER EM EVOLUÇÃO

Rede municipal de ensino estimula o fazer científico entre os estudantes de Campinas

Projeto incentiva alunos a exercitar o conhecimento e a desenvolver novas habilidades

Edimarcio A. Monteiro/ edimarcio.augusto@rac.com.br
30/11/2022 às 08:53.
Atualizado em 30/11/2022 às 08:53

O VII Fórum Estudantil de Pesquisa foi palco para a apresentação de diversos projetos de pesquisa do ensino municipal de Campinas, e agiu como ponte para que os alunos pudessem trocar experiências (Rodrigo Zanotto)

Um mundo de possibilidades se abre diante de olhos ávidos por conhecimento e oportunidades, cheio de rumos e portas que se desvelam diante de crianças, jovens e até mesmo adultos. O Programa Pesquisa e Conhecimento na Escola (Pesco), que incentiva a investigação científica entre os estudantes e alunos da rede municipal de ensino de Campinas, crianças de 3 anos até adultos do curso de alfabetização. Este ano foram cerca de 100 participantes, que desenvolveram pesquisas e trabalhos nas escolas, após serem discutidos e escolhidos em conjunto com os alunos. 

O projeto tem como objetivo flexibilizar as estruturas de ensino e acesso à informação, para ir além de ler e decorar informações de um livro e instiga os alunos a investigarem, apresentando o método científico e auxiliando os alunos a entenderem e descobrirem na prática o como e por quê dos processos a sua volta. O fundamento aprendido pode ser aplicado para todas as áreas, tanto humanas quanto biológicas e exatas. Os alunos se tornam agentes do conhecimento, produzindo estudos que vão da horta escolar à história do bairro onde residem.

Os trabalhos produzidos por eles ao longo deste ano foram apresentados no VII Fórum Estudantil de Pesquisa (FEP) que voltou a ser realizado presencialmente após dois anos. Atraindo cerca de 3 mil estudantes municipais ao Ginásio Multidisciplinar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o fórum foi uma oportunidade para os participantes conhecerem os trabalhos desenvolvidos por outras escolas e trocarem experiências.

A estudante Rayane Vitória da Silva Correa de Toledo, de 13 anos, foi atraída pelo estande sobre o mar produzido pela Escola Municipal de Educação Fundamental (Emef) Professora Elza Maria Pellegrini de Souza, do Parque Dom Pedro II, localizada a 25 quilômetros de distância de onde mora, o bairro Nova Sousas. Foi uma visita cheia de descobertas. O trabalho foi de alunos e bairro que ela não conhece, um tema escolhido novo para ela e até explorar novos espaços da Unicamp. Até então, ela tinha ido apenas até o Hospital de Clínicas da universidade.

“É muito legal”, disse Rayane, diante de cartazes, experiência e informações divulgadas no espaço da escola. O despojamento revela que a geração de conhecimento não é sinônimo de laboratórios e salas sofisticadas. Dois vidros com água misturada com porções diferentes de sal mostra porque a bola de isopor bóia em um deles e afunda em outro.

“O conhecimento está em permanente evolução e essa evolução decorre da curiosidade das pessoas, do seu interesse em aprender mais”, afirma o secretário municipal de Educação, José Tadeu Jorge. Para ele, o principal objetivo do Pesco é levar e desenvolver a sistemática da pesquisa entre os estudantes. “Isso é comum nas universidades, mas pode e deve ser estimulado nos alunos de qualquer série”, afirma a coordenadora do Pesco no Ensino Infantil, que foi incorporado ao programa em 2021 e que fez este ano sua estreia no FEP, Karina Fernandes.

O Programa Pesquisa e Conhecimento na Escola é um dos cursos de formação oferecido pela Secretaria de Educação aos professores da rede municipal. Além da parte teórica, eles têm de colocá-lo em prática com seus estudantes. “O Pesco busca fazer com os professores deixem de ser apenas reprodutores de conhecimento para estimularem a busca desse conhecimento na prática através da pesquisa”, diz a coordenadora do programa no Ensino Fundamental, Ana Lúcia Picoli. Dessa forma, o aprendizado pode ocorrer de uma forma lúdica e mais prazerosa. A Emef Dr. Edson Luís Chaves, no Jardim Santa Rosa, usou jogos para ensinar a matemática, usando materiais simples, mas eficazes.

Conhecendo Campinas

Baralho e dados podem ser instrumentos para demonstrar as operações, bandejas de ovo coloridas viram quebra-cabeça e o jogo de ludo estimula as contas. Todas as peças foram feitas pelos próprios estudantes, que desenvolvem outras habilidades e conhecimentos. Os alunos da Emef/EJA ngela Cury Zakia escolheram conhecer a história dos distritos de Sousas e Joaquim Egídio, onde residem, fazendo entrevistas com moradores, fotos e vídeos.

Um dos locais visitados foi a Igreja de Sant 'Ana , com o seu surgimento ajudando a conhecer até mesmo a história de Campinas.

Na época do Arraial de Sousas, as celebrações eram feitas nas casas das famílias. Em 1889, ano da proclamação da República, o morador Joaquim Monteiro ergueu a Capela de São Sebastião, com o arraial desenvolvendose ao seu redor. O casal Adão Salgado e Maria Franco Salgado doou, em 1894, o terreno para construção da matriz, sendo este considerado o ano de sua fundação. A mudança para a padroeira Sant 'Ana ocorreu em 1903, quando o pároco era Dom Barreto, que depois veio a ser o primeiro bispo de Campinas.

Foi assim que os estudantes Luiz Felipe, Alan, Antonio Carlos, Marco Antonio, Vinícius, Otávio, Marcelo e Pedro aprenderam mais sobre o hoje distrito. A história do município foi o tema escolhido pelos alunos da Emef/EJA Professor Francisco Ponzio Sobrinho, da Vila Santa Odila. Eles foram além da pesquisa em livros e passearam de Maria Fumaça, “viajando” para uma época em que a ferrovia teve um papel importante para a economia local na época de ouro do café. Esses conhecimentos foram traduzidos em cartazes e maquetes.

Os trabalhos do Pesco também foram oportunidades para os moradores explorarem os locais onde moram. “Eu moro no Jardim Rosália desde 2006 e não o conheço ainda, como foi fundado e como foi para que o bairro se tornasse tão bom”, descreveu Aparecida Gonçalves Freitas, aluna do EJA que funciona na Emef Dr. João Alves dos Santos. O bairro foi mostrado em pinturas, redações, fotos e vídeo. 

Embrapa na escola

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Territorial (Embrapa Territorial), sediada em Campinas e que mantém convênio com a Secretaria de Educação, também apoia o Pesco. O órgão federal, em conjunto com professores municipais, lançou, em outubro de 2021, o segundo volume do Atlas Escolar da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Ele destaca as interações entre as atividades agropecuárias e o ambiente regional, como também analisa os seis produtos agropecuários mais expressivos da região (produção animal, cana-de-açúcar, café, frutas, flores e hortas).

A publicação serviu de inspiração para os alunos da Emef Orlando Carpino, no Jardim Ouro Branco, a realizarem o trabalho com melancia, fazendo o plantio e acompanhando o desenvolvimento, o que foi registrado com anotações e gráficos. Apesar de cinco tentativas, não conseguiram saborear a fruta, o que tanto esperavam. Mas o que muitos poderiam entender como fracasso foi visto por eles como algo natural e fonte de aprendizado. “As respostas para isso ficarão para a próxima pesquisa”, escreveu a aluna Gabriela de Campos Andrade Guimarães. “As formigas cortadeiras, que se deliciaram com os nossos brotinhos, também fazem parte de um tema vasto e interessante”, completou.

Autores como nós

Os estudantes também tiveram contato com grandes escritores como Carlos Drumond de Andrade e Fernando Sabino, mas também tiveram a oportunidade de descobrir que podem ser um deles. A inspiração pode vir de Carolina Maria de Jesus, poetisa brasileira mais conhecida por seu livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960.

Mulher, negra, pobre, mãe e solteira, ela tinha uma grande paixão pela leitura e escrita e foi o tema do trabalho de literatura da também feito por João Alves dos Santos. “A nossa vida é como um livro em branco, cada um com seu próprio autor, escrevendo cada capítulo, incorporando cada personagem, deixando as páginas correrem sem saber ao certo o final da história”, diz a mensagem de autor desconhecido deixada em um dos estandes.

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