ENTREVISTA

Rede Mário Gatti se estrutura para entrar na era da IA

Presidente da autarquia, Sérgio Bisogni, disse que testes com a nova ferramenta devem começar até o final do mês

Manuel Alves Filho e Edimarcio A. Monteiro/edimarcio.augusto@rac.com.br
21/09/2025 às 13:45.
Atualizado em 21/09/2025 às 13:45

Sérgio Bisogni destacou empenho político que viabilizou anúncio da construção do Hospital Metropolitano (Rodrigo Zanotto)

O Hospital Municipal Mário Gatti vai adotar a inteligência artificial (IA) na triagem de pacientes que chegam ao pronto socorro (PS) para acelerar o atendimento. O teste deve começar até o final deste mês, com o doente usando o telefone celular para especificar os sintomas que está sentindo e com a IA formatando o prontuário a ser encaminhado para o médico. A novidade será associada à telessaúde, com os pacientes não urgentes podendo ser atendidos a distância, evitando a necessidade de passar pelo PS. O recurso será estendido depois para a triagem da fila para cirurgias e para toda a Rede Mário Gatti, formada por três hospitais, incluindo o Ouro Verde e o Mário Gattinho, e quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), além do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que no ano passado atendeu cerca de 800 mil pessoas, o equivalente a dois terços da população de Campinas. 

Essa é uma das novidades anunciadas pelo presidente da rede, o médico urologista Sérgio Bisogni, em entrevista concedida a convite do presidente-executivo do Correio Popular, Ítalo Hamilton Barioni. Ele anunciou também o funcionamento, a partir de novembro, de uma Ouvidoria própria para receber as queixas dos usuários e ajudar na solução de problemas no sistema. “Nós temos que ter uma triagem mais consistente com método para gente saber o que vai fazer, usar os dados na gestão”, afirmou Bisogni. Ele também busca credenciamento do Mário Gatti para receber, a partir do próximo ano, residência médica na área de oncologia clínica para formar profissionais nessa área e suprir a falta de pessoal na área pública. 

O senhor é filho de que cidade? 

Eu nasci em Jundiaí, vim para Campinas fazer colegial. Meu pai era gerente do Banco Nacional aqui, transferido de Jundiaí. Eu vim aqui pra Campinas com 14 anos de idade, fiz o colégio Pio XII. Fiquei um ano fazendo cursinho em São Paulo, morando sozinho com 17 anos de idade, numa pensão. Entrei em Jundiaí, Botucatu, Santos e na Santa Casa. Mas, no ano que eu passei em Santos e na Santa Casa, eles cancelaram os dois vestibulares por fraude. Optei por Jundiaí, primeiro porque eu era da cidade, tinha parentes morando lá. Depois voltei para Campinas para fazer residência médica na Casa de Saúde, onde trabalhei por 40 anos e fui diretor técnico. Paralelamente, eu trabalhei 38 anos no Mário Gatti, como concursado, onde me aposentei em 2016. Nesse dia, fui no estacionamento, olhei, fiz uma revisão de tudo que eu fiz na vida. Quatro anos depois, estou eu voltando, mas em uma situação diferente, como presidente da rede Mário Gatti. Confesso que fiquei uma semana para decidir se aceitaria. Sem hipocrisia, sem demagogia, eu achei que eu devia alguma coisa a Campinas, porque eu estava numa fase da vida que já me permitia atuar assim, desligar um pouco, porque eu já não estava operando muito.

Gostaria que o senhor falasse o que é a Rede Mário Gatti, as unidades que a compõe, a estrutura que a gente tem de atendimento e profissionais. 

A Rede Mário Gatti é surpreendentemente grande, Ela é uma autarquia, o que lhe dá uma agilidade muito grande, porque urgência e emergência têm algumas necessidades prementes, como comprar remédio de urgência. Nós ainda não temos um orçamento independente, mas é algo que estamos lutando para ter. A gente vem reiteradamente pedindo um percentual fixo de orçamento da Secretaria de Saúde para a gente administrar. Nós estamos no meio do caminho para isso ocorrer. O próprio Tribunal de Contas está apontando que é obrigatório que seja assim. Nós estamos na fase de organização. Em 2018 para 2019, o Mário Gatti foi transformado em rede, que é formada pelo hospital, o Mário Gattinho, Ouro Verde, quatro UPAs - Carlos Lourenço, São José, Anchieta Metropolitana e Campo Grande - e o Samu. Em 2024, nós atendemos 800 mil pessoas, dois terços da população de uma cidade como Campinas, fizemos 7 milhões de procedimentos. O que é procedimento? É um exame de sangue, um raio X, um soro. São em torno de 8, 9 procedimentos por paciente que você tem em média. Lógico que também tem pessoas da região que são atendidas. A rede chega a ser 35 % do orçamento da Secretaria de Saúde. A Secretaria de Saúde deveria ter no mínimo 17% do orçamento da prefeitura, mas hoje recebe em torno de uns 20 a 23%. Na década de 80, depois da Constituição, começou o SUS, a municipalização da saúde. Na época, 40% dos custos eram cobertos pela prefeitura, 40% pela federação e os outros 20 % pelo Estado. No governo do prefeito Dário [Saadi], nós fechamos o ano passado, e este ano é semelhante, com a prefeitura colocando 77%, a federação em torno de 20%, 21%, e o Estado, 3,6%. Essa distorção arrebenta, porque acaba sendo subfinanciado, e a gente tem que se virar. A gente recebe pacientes de outros municípios da região e de outros estados? Eu recebo gente da Bahia, sul de Minas Gerais, porque a saúde é meio perversa no bom sentido Se você trabalha e tem eficácia, pessoal que não tem vem para cá. A saúde no Brasil é universal, ela é atendida em qualquer lugar, é um direito dela. Não dá pra criticar as pessoas, mas o Estado e a federação têm que cumprir com suas partes.

A implantação do Hospital Metropolitano ajudaria a aliviar essa questão? 

O prefeito Dário deu um passo importante fazendo muita pressão em cima desse hospital regional do Estado. Ele não vai aliviar financeiramente o município de forma direta, mas quando ele assumir o atendimento da região, acabará desonerando a gente, já é um ganho importante. 

A demanda pelos serviços de saúde tem aumentado muito? 

Um agravante é a crise no país. Muitas pessoas perderam o emprego ou ficaram sem condições de pagar um plano de saúde e foram para ao SUS. No ano passado, entraram 80 mil pessoas no SUS daqui de Campinas, praticamente 10% dos atendimentos realizados. São pessoas que perderam o emprego, aposentados que não conseguiram pagar o plano de saúde. Por que em outros países a saúde não é universal? Porque ninguém suporta a saúde, é uma despesa que não tem fim. Com o que dinheiro que temos, a gente tenta priorizar, organizar, evitar desperdício, acho que isso é importante. Você tem que ter a visão estratégica do que vai precisar fazer e do que você pode fazer de novo, que são duas coisas diferentes. O que você vai refazer quase que é uma obrigação para continuar mantendo a qualidade. Eu acho que se a gente mantiver o que tem já é uma luta quase gloriosa. Para fazer o plus, acrescentar algo novo, precisa ter algumas posições. As emendas parlamentares são importantes. Com essa área de ensino que nós temos, 8 a 9 mil alunos atendidos por ano, a área da educação dá uma contrapartida. Não é dinheiro, mas quando precisamos de uma determinada coisa, geralmente voltada para a área de ensino, ela aportam para a gente. Nós fizemos um book, um livro de tudo que nós precisamos de equipamento. Entregamos no gabinete de cada um dos 33 vereadores. Através das emendas impositivas, eles investem, um dá um negócio, outro dá outro. Assim a gente vai sobrevivendo. O Hospital Mário Gatti completou 50 anos no ano passado. Mesmo com a pandemia, que bagunçou tudo, nós fizemos o Mário Gattinho e um pronto socorro novo. 

Quais os planos o senhor tem para o hospital? 

Com o Mário Gattinho, nós desocupamos todo o quarto andar e tenho para fazer uma UTI [Unidade de Terapia Intensiva] com 10 leitos e outros 24 leitos para internação. Para quê? Direcionar para a cirurgia, porque hoje é um grande gargalo que tenho. Há doentes para operar, mas não tem vaga na UTI. Isso leva a cancelar a cirurgia, a fila não anda. São as doenças, patologias de grande porte. Prótese, cirurgias vascular, câncer. Então, eu preciso fazer. Mas é preciso saber o que fazer para chegar lá. É preciso fazer um projeto executivo, saber quanto custa de fato, não basta ter um croqui. Aí você vai ter que trocar o telhado, porque se fizer, vai chover lá dentro Vai ter que trocar um telhado de 50 anos. Quando eu cheguei, fiz um convênio com a CPFL, que colocou as placas fotovoltaicas no telhado da rede inteira do Mario Gatti. Isso diminuiu brutalmente o custo da energia pra gente. Só que agora pra reformar o telhado, precisam tirar 1,200 placas para poder reformar. Temos que negociar. Eles estão removendo para a gente, para poder reformar o teto e depois colocar as placas de novo. O Ouro Verde também vai precisar mexer no pronto-socorro, estamos fazendo um projeto e tudo isso precisa de dinheiro extra, investimento. Aí a gente tenta conseguir alguma coisa que sobra, algum investimento que às vezes aparece. 

O Mário Gatti acabou de inaugurar um novo laboratório para exames. O que isso ajuda? 

Era um problema antigo, a gente tinha um laboratório extremamente antigo. Ele fechava às 7, 8 horas da noite porque não conseguia ter funcionário. Precisaria contratar, mas não tem verba para contratar, sei o quê. Nós achamos uma área do hospital, que eram dois vestiários que estavam praticamente desativados, fizemos uma licitação, a empresa entrou, reformou, equipou inteirinho e entrou com a equipe. O laboratório vai funcionar 24 horas, com capacidade para fazer 200 mil exames por mês. A demanda do hospital é de 70, 80 mil por mês. Então, a partir de novembro, dezembro, além do Mário Gatti, o laboratório fará os exames para duas UPAs e, os mais sofisticados, também para o Ouro Verde. A vantagem é que os equipamentos novos dão o resultado um exame de glicemia, por exemplo, em 15 minutos. Então, eu começo a rodar o meu pronto socorro, o paciente não precisa ficar esperando 4, 5 horas para o exame ficar pronto. São movimentos que a gente faz até com custo nem tão exagerado e que você efetivamente melhora a dinâmica da coisa.

Os especialistas reconhecem a qualidade do atendimento do Mário Gatti, mas, obviamente, tem sempre as reclamações dos pacientes em relação à demora. Como tratar dessa questão? 

No ano passado, com dificuldade para fazer as coisas, eu contratei, como contrapartida das escolas, uma empresa para fazer pesquisa de satisfação com o usuário. Começou em setembro e termina em setembro agora. Com laudos, relatórios trimestrais, eles colocaram gente em todas as minhas portas, no Mário Gatti, Mário Gattinho, UPAs, Samu, Ouro Verde e pesquisavam as pessoas. São quase 18 mil entrevistas, 4 mil e pouco a cada trimestre, com perfil científico, para me dar uma segurança. As pessoas falam o que é bom, eu fico contente. A nota da maioria das coisas é acima de 8,5. Mas, eu estou preocupado com o que não funciona. Fila cirúrgica demorada, nós sabemos, mas como melhorar dentro do nosso limite. A segunda é a demora na recepção do pronto-socorro, mas aí há uma distorção. Às vezes, a pessoa confunde e diz que ficou 10 horas no Mário Gatti. Ficar 10 horas para ser atendido é um problema seríssimo, não pode demorar mais do que 3, 4 horas para ser atendido, dependendo da classificação de risco. Mas ele entrou, foi atendido, medicado, colheu o exame, fez uma tomografia, recebeu o remédio, foi observado e foi embora. Isso é hospital dia, evitou uma internação. Se ele ficou 10 horas, mas saiu com receita, testado, orientação, encaminhamento, não tem jeito, isso é assim. Se a pessoa vai em um consultório privado, fica duas horas para o médico atender. Ele vai pedir exame, raio X. A pessoa terá que ir a um laboratório, gastar mais duas horas, fazer raio X e voltar. Se somar tudo, vai gastar oito horas e voltar para receber a receita. Só que no hospital ela isso num dia só. Isso não tem como mudar, povo tem que entender que foi lá e saiu resolvido, está ótimo. Só que a área de saúde, vamos combinar, é uma área ingrata. Porque ninguém gosta de ficar doente. A doença desestrutura a família emocionalmente, e às vezes financeiramente.

O que está sendo feito para melhorar esse quadro? 

Nós estamos falando de 800 mil pessoas atendidas por ano. Para ter atrito, não precisa muita coisa. A gente está atuando pesadamente para tentar cuidar, evitar isso daí. Semana que vem, até o final do mês, nós vamos fazer um teste com inteligência artificial. Nós estamos com um projetinho pronto, mas são testes por enquanto para tentar agilizar a entrada do doente. Como é que funciona? Não pode passar de 15 minutos para ele ser classificado. O que é classificação de risco? O cara no nível vermelho é aquela urgência que já vai direto, nem passa na porta, já chega de ambulância e vai lá para dentro. Aí você tem o laranja, o amarelo, o verde e o azul. O laranja é um pouquinho mais grave, o amarelo é aquele intermediário que exige cuidado. O verde ou azul talvez não precisasse estar no pronto-socorro. Qual é a ideia da inteligência artificial? O paciente vai chegar e, através do celular, dizer o que tem, dor de barriga, doendo meu lado direito, teve febre. Isso será transcrito em linguagem de prontuário. A enfermagem vai tira a pressão, ver a temperatura e tudo vai para o médico, o prontuário já encaminhado. Ele saberá o doente tem, poderá se dedicar a isso, não precisa´r ficar escrevendo que nem escrivão de polícia. Isso já está funcionando em consultórios, em Campinas. Então nós estamos fazendo um teste se na saúde pública. Nós também estamos vendo inteligência oficial, um pouquinho mais para o fim do ano, para ajudar a gente a criar as filas cirúrgicas. Na ortopedia, nós fizemos um teste este ano, tinha 1.300 pacientes para próteses de quadril e joelho, 1.300 no sistema oficial. Pegamos um por um, ligamos, avisamos e conversamos com as pessoas. Tinha uma miscelânea. Por exemplo, na área de joelhos, havia 700 casos, mas 400 eram para prós, os outros 300 eram exames, tratamentos. Então você tem que triar para ter o tamanho exato da coisa. Então, nós achamos que a inteligência artificial, com todo mundo tendo WhatsApp, vai ajudar. São programas que ajudam a economizar, inclusive na questão de funcionário. Telessaúde é uma outra coisa. Hoje, por exemplo, ao chegar no Mário Gatti, é classificado como azul. A pessoa é avisada que o tempo de espera é de 3 horas, é o normal. Se ela quiser, pode passar pela triagem da enfermaria e ser encaminhada para uma cabine. Ela conversará com um médico, terá a receita, o atestado e vai embora sem entrar no pronto socorro. Vários desses pacientes podia ser atendido nas UBSs, nos postos de saúde. Mas como o hospital tem a porta aberta, a pessoa vai para lá, é uma demanda espontânea.

Há outras ações a serem implementadas? 

Por conta dessa pesquisa feita para saber dos pacientes o que acham da rede, estou montando uma ouvidoria poderosa para a rede. É uma Ouvidoria de fato para facilitar a chegada da queixa, ou elogio, às vezes, e direcionar essas questões. A Ouvidoria não resolve nada, ela direciona e cobra uma resposta. Isso implica você ter que receber as queixas por celular, e-mail, por uma série de vias. Tem que ter uma estrutura organizacional, As pessoas ligam para a gente, na prefeitura, põe robô para ficar ligando, queixando, para dar bastante número. Nós temos que ter uma triagem mais consistente com método para gente saber o que vai fazer, usar os dados na gestão. Em novembro, ela começa a funcionar. Eu quero saber das queixas. O elogio eu transfiro para a equipe, isso  estimula muito. 

Como é o atendimento oncológico no Mário Gatti? 

Nós temos um setor de oncologia que eu inaugurei quando cheguei. Já estava em construção e faltavam seis meses para ficar pronto, mas durou 1 ano e meio para acabar. É uma unidade bem bacana, com quimioterapia e radioterapia. Eles falaram que o equipamento não servia mais, precisava comprar um novo, mas arrumamos uma empresa que trocou o software, trocou algumas outras coisas, e está funcionando. O Mário Gatti está cadastrado no Ministério para conseguir mais um equipamento de radioterapia. Nós temos habilitação para fazer em torno de 658 pacientes/mês, mas cada paciente faz 10, 20, 30 sessões. Nós temos um limite para fazer esse serviço, o que passa não é pago pelo SUS. Com o dinheiro da prefeitura a gente consegue fazer mais um pouco. 

Há falta de pessoal nessa área? 

O país precisa de reumatologista, de oncologista. Tanto é que nós estamos programando para pedir credenciamento para fazer residência de oncologia clínica a partir do ano que vem. Porque nós temos todo a staff que treina, formar mais gente que eu tenho dificuldade em contratar hoje. Porque esse pessoal ganha legal na área privada. Você tem dificuldade para botar na área pública. Agora, o cara que está começando, ganha uma experiência fantástica na área pública. Depois de 15 anos, ele vai para a área privada e vive a vida dele. Você tem que fazer esse ciclo.

Quantos leitos de UTI a rede tem hoje? 

São 20 leitos adultos no Mário Gatti e 15 pediátricos. No Ouro Verde, são 30 leitos adultos e 15 pediátricos. Durante a pandemia, nós tivemos no Ouro Verde 65 leitos de UTI, foi a salvação da lavoura. Se não, nós teríamos ficado em uma situação complicadíssima. Um andar inteiro do Mário Gatti foi fechado para ter UTI também. Então, nós ficamos com 30 leitos em vez de 20, fora pediatria. 

Quais foram os desafios enfrentados durante a pandemia? 

Uma coisa me assusta: as pessoas estão esquecendo o que aconteceu. Isso me preocupa profundamente. O Dário me convidou e o Lair Zambon [secretário municipal de Saúde] para assumir a área de saúde no dia 9 de dezembro. Nunca esqueço, porque era o dia da minha formatura. Eu estava fazendo 43, 44 anos de formação. Nós achávamos que a pandemia já estava na onda descendente, que deu uma arrefecida em outubro, novembro, mas em dezembro caiu. Nós assumimos em janeiro e veio fase mais grave da pandemia. Foi uma lição, porque se a gente não tivesse a Rede Mario Gatti, contando com o Ouro Verde, não teríamos conseguido segurar. Praticamente o Ouro Verde virou hospital de covid. Nós tivemos 65 leitos de UTI e todo o resto dedicado a covid. Nós deixamos a UPA Carlos Lourenço, que era recém-inaugurada. como hospital de campanha. O que é hospital de campanha? É uma unidade hospitalar adaptada onde não é hospital. Mas ele tinha oxigênio, tinha três enfermarias. Isso nos ajudou terrivelmente porque ficou como uma unidade de retaguarda, intermediária. A Secretaria de Saúde, através da Devisa [Departamento de Vigilância em Saúde], brilhou. Tanto que ela nos orientava com estatísticas muito atualizadas, desenvolveram programas para a gente tentar saber antecipadamente o que ia acontecer. Isso nos ajudou demais. E esse próprio grupo da Secretaria de Saúde evoluiu, deu um show na vacina, nós fomos uma referência para o Brasil. Tivemos a intervenção em um hospital que estava fechado, vazio. Isso nos ajudou terrivelmente e nós navegamos praticamente um ano nessa situação, mas foi uma luta brutal, todo mundo trabalhando muito, nós proibimos férias. O prefeito falou, pelo amor de Deus, eu não quero morte fora do hospital. Teve um dia, nós tínhamos 200 doentes para internar, não tinha vaga. Nós fomos alocando, põem 10 no lugar, 10 no outro, 10 no outro, vai aqui, põe na enfermaria, põe mais um. E fomos sobrevivendo.

O que ficou de lição para o Brasil? 

O Brasil perdeu o paciente que poderia não ter perdido. Campinas foi referência, mas nós navegamos meio independentes. O prefeito bancou, o secretário de Saúde também assumiu. A gente trabalhou junto. O corpo de enfermagem, médico, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, todos os funcionários foram fantásticos. Todo pessoal com medo de trabalhar, voltar para casa e contaminar a família, mas sem reclamar de férias. Houve pessoas que precisamos falar para ficar um pouco em casa para não espanar. Mas, foi exemplar a conduta de toda a área de saúde. Sempre algum probleminha aqui, ali, mas todo mundo segurou gloriosamente. Uma lição de vida. A vacina foi o que salvou. Se a vacinação tivesse começa três meses antes, essa é a única crítica que faço, teríamos salvado um número significativo de vidas. Não sei falar em número, mas os estudos mostram isso. Tudo isso com o presidente da República negando a existência da doença. O primeiro ministro da Saúde [Luiz Henrique Mandetta] começou bem, é médico, um cara competente, a assessoria dele era muito boa. Daí teve briga política, complicou.

Qual o seu hobby para descansar diante de tantos desafios? 

Eu sou um leitor voraz, Leio três jornais logo que levanto de manhã, o Correio, o Estadão e a Folha. Eu gosto de viajar, mas também estou perdendo paciência para pegar avião. Tenho uma casa em Campos do Jordão faz 30 anos. Quando eu posso, gosto de dar uma fugida e ficar uns dias lá, porque lá é perto do Horto Florestal. É bem agradável, eu gosto de clima mais frio.

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