Cidade é a única não capital relevante na hierarquia da Gestão do Território
O estudo considerou dois indicadores, o de gestão empresarial e o de gestão pública (Divulgação)
Campinas é a única cidade que não é capital entre as que ocupam maior posição na hierarquia da Gestão do Território. A influência tanto do ponto de vista empresarial quanto da gestão pública aparece na segunda edição de estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que classificou a cidade como uma “capital regional”. A análise envolveu os 5.570 municípios brasileiros e apontou que, no ano passado, apenas 39,1% das cidades do país se qualificavam como Centros de Gestão do Território (2.176), total ligeiramente inferior aos 39,6% (2.204 cidades) identificados no estudo realizado em 2014.
O estudo considerou dois indicadores, o de gestão empresarial e o de gestão pública, com suas estruturas nesse campo tornando Campinas uma referência. “Os relacionamentos a distância dos agentes econômicos e políticos ajudam a definir o papel das cidades. De um lado, o Estado, através de seus organismos públicos, atende a população, levanta dados, recolhe tributos, executa políticas públicas. De outro, as empresas que, para garantirem lucratividade, vão ter suas estratégias particulares de atuação e de organização no espaço”, afirmou o gerente da pesquisa, Marcelo Motta.
De acordo com ele, essas informações são importantes para identificar os centros urbanos que concentram a capacidade de comando e controle do país e para compreender como as diferentes cidades e regiões se articulam por meio de redes de gestão. No campo econômico, o estudo do IBGE apontou Campinas em 8º lugar no ranking de intensidade das ligações empresariais. Resumidamente, o indicador foi composto pela soma do número de sedes e filiais das empresas no país, ou seja, decisões e produção locais e como elas se distribuem pelo território nacional.
LIDERANÇAS
Campinas, por exemplo, é a sede para a América Latina de uma multinacional alemã que atua nos setores de produtos e serviços para os setores de mobilidade, tecnologia industrial, bens de consumo e energia e tecnologia predial. Ela mantém na cidade a sua parte administrativa e a maior fábrica na região, com sua atuação impactando diretamente 11,5 mil colaboradores, com a empresa presente no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Uruguai, Venezuela e outros países.
Em 2023, último dado disponível, o braço latinoamericano da multinacional faturou R$ 9,8 bilhões. “Nos últimos três anos, alcançamos um forte desempenho de vendas em todos os negócios, inclusive superando nossas expectativas, como no caso de soluções para mobilidade, ferramentas elétricas, tecnologia industrial e serviços”, afirmou o CEO e presidente da empresa para a região, Gastón Diaz Perez.
A importância econômica de Campinas se traduz também em números. Com 1,13 milhão de habitantes, ela é sede da segunda maior Região Metropolitana paulista e também da Região Administrativa, formada por 90 cidades, responsável por 19,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado mais rico do país. A soma de todos os bens e serviços produzidos na RA em 2023 somou R$ 619,8 bilhões, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Outro estudo do órgão apontou a região como a com maior participação na riqueza industrial do país, análise feita com base na Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE.
RIQUEZA
Ela foi responsável por 11,8% do Valor de Transformação Industrial (VTI) nacional, que foi de R$ 2,2 trilhões em 2021, liderando em dois dos cinco setores analisados - produtos farmoquímicos/farmacêuticos e produtos químicos - e ocupou a segunda colocação nos outros três – fabricação de veículos automotores, reboque e carroceiras; máquinas e equipamentos e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos. “Se o Estado de São Paulo não existisse e fosse dividido por suas regiões administrativas, a RA de Campinas seria o Estado com a maior participação na produção industrial do país”, explicou o gerente de Indicadores Econômicos da Seade, Vagner Bessa.
Considerando apenas Campinas, ela aparece como a quarta cidade mais rica do Estado e a primeira do interior. De acordo com os dados de 2021, que foram os usados no estudo Gestão Territorial, o município teve um PIB de R$ 72,94 bilhões, com os seus principais setores econômicos sendo o de serviço (83,2%), indústria (9,5%) e administração pública (7,3%), de acordo com o IBGE. Na gestão empresarial, a frente da cidade aparecem apenas capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Fortaleza (CE).
ÁREA PÚBLICA
No quesito gestão pública, Campinas é sede da Delegacia Regional Tribuária (DRT), Divisão Regional de Saúde 7 (DRS-7), Delegacia da Receita Federal e outros órgãos com abrangência regional, que tornam a cidade referência nessas suas áreas. Nesse campo, o estudo do IBGE apontou que a característica principal de atuação do poder público é a conexão hierarquizada entre municípios, na qual uma cadeia de municipalidades se subordina a um polo que é responsável por sua gestão.
Um destaque nesse indicador é que Campinas é a única cidade do interior do país a sediar um Tribunal Regional do Trabalho. O TRT da 15ª Região é o segundo maior do Brasil, sendo responsável pelas ações trabalhistas em 599 municípios paulistas, que representam 95% do território do Estado, onde reside uma população superior a 22 milhões de habitantes.
Esse número é maior do que a população de 25 Estados brasileiros e do Distrito Federal. Ele fica atrás apenas do próprio Estado de São Paulo, com 45,97 milhões de pessoas. Minas Gerais, o segundo mais populoso, tem 21,3 milhões de moradores. Para atender a demanda, a presidente do TRT-15, Ana Paula Pellegrina Lockmann, defende a ampliação do número de desembargadores. “Buscamos apoio junto aos poderes da República, especialmente ao Parlamento Brasileiro, ao Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Esses esforços visam, entre outras metas, à aprovação do projeto de ampliação do número de desembargadores e suas respectivas estruturas”, afirmou.
Ela também apontou como prioridades o aprimoramento das soluções tecnológicas e a busca por iniciativas inovadoras com o objetivo de racionalizar os serviços, aliviar a carga de trabalho de magistrados e servidores e melhorar a prestação jurisdicional e o acesso à Justiça. “O mundo do trabalho passa constantemente por transformações. A judicialização dos conflitos vem crescendo a cada ano, provocada em parte pelas novas formas de trabalho, que precisamos solucionar de forma segura e célere”, disse.
OUTROS DESTAQUES
A secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação, Adriana Flosi, destacou a liderança de Campinas. “Eu vejo este protagonismo como um reconhecimento importante da cidade. Campinas é sede de uma região importante do país e tem se destacado no cenário nacional, por conta da sua infraestrutura e da sua vocação tecnológica”, afirmou. Ela apontou ainda que o município conta com outros indicadores que a colocam em evidência, como ter mão de obra altamente qualificada, 18 instituições de ensino superior, quatro parques científicos e tecnológicos, 21 instituições de ciência, tecnologia e inovação, formando uma das maiores concentrações da América Latina.
Isso lhe garante protagonismo em diversas áreas. Uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Telebras trouxe para o Brasil a fibra ótica em 1977, hoje usada na transmissão da internet, telefone, televisão, redes, rádio etc. A atuação no campo científico surgiu no final do século 19, com a criação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O órgão de pesquisa fundado pelo imperador Dom Pedro II foi responsável, entre outros trabalhos, pela liderança mundial do Brasil nas produções de café e algodão e em seus laboratórios “nasceu” o feijão carioquinha, o mais consumido no país.
Para Adriana Flosi, Campinas também é beneficiada por ter uma excelente localização e a infraestrutura de escoamento da produção. Ela está a 90 quilômetros de São Paulo (capital), a 130 km do Porto de Santos, é cortada por seis grandes rodovias e conta com o Aeroporto Internacional de Viracopos, o maior de cargas no país e um dos principais de passageiros. Em 2024. 12,4 milhões de passageiros embarcaram ou desembarcaram no terminal. O número é equivalente a como se toda a população do Paraná passasse pelo local para pegar um voo nacional ou internacional.
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