Ernesto Paulella, secretário de Serviços Públicos, fez a projeção em entrevista ao Correio Popular; investimento total será superior a R$ 11 milhões
Duas licitações serão feitas nas próximas etapas, uma delas para reforma dos bondes guardados pela Prefeitura (Rodrigo Zanotto)
O tradicional passeio de bonde movido à energia elétrica na Lagoa do Taquaral será retomado no segundo semestre deste ano, de acordo com estimativa do secretário municipal de Serviços Públicos, Ernesto Paulella, em entrevista exclusiva ao Correio Popular. O passeio era feito ao redor da Lagoa Isaura Telles Alves de Lima, um trajeto de 2,7 quilômetros, com veículos que foram utilizados no transporte público de Campinas até o final da década de 1960.
A atividade ainda depende de várias etapas para voltar a ser realizada no parque. O pontapé inicial foi dado com a contratação da empresa que trabalha na recuperação, manutenção e conservação da via férrea. Os demais passos ainda dependem de duas licitações, uma delas para a reforma dos dois bondes guardados pela Prefeitura e outra para a recomposição das redes aéreas. Nesse caso, são os sistemas, compostos por cabos energizados, que levam a energia necessária para movimentar os bondinhos.
O investimento em todas as etapas será superior a R$ 11,4 milhões. A maior parte desse valor, em torno de R$ 10,5 milhões, foi destinada para a primeira parte da iniciativa. Em um pregão realizado no segundo semestre de 2024, a Converd Construção Civil Ltda foi a escolhida para fazer a manutenção preventiva, corretiva e a conservação da linha férrea da Lagoa do Taquaral, incluindo a contratação da mão de obra e a compra dos equipamentos necessários. Além disso, a empresa é a responsável por contratar os profissionais para operar e conduzir os bondes futuramente, além de realizar os cuidados e reparos eventuais nos veículos. O contrato com a Converd, assinado em 18 de dezembro do ano passado, é válido por 5 anos.
Os trabalhos de manutenção da estrutura férrea estão em andamento, segundo o secretário Paulella. Ele afirmou que a contratação do pessoal para operar e cuidar dos bondes nesta etapa do processo serviu para substituir os servidores municipais até então responsáveis pelo serviço, que se aposentaram desde a interrupção dos passeios com os veículos. “Foi possível encaixar a contratação desses profissionais dentro do pregão, pois a atuação deles é necessária para a conservação dos equipamentos, ou seja, dos bondes. Além disso, a empresa começou a fazer a manutenção da linha férrea, com a troca dos dormentes, a retificação de trilhos, a limpeza, drenagem e a desobstrução das bocas de lobo durante o trajeto, a manutenção do lastro, que é tipo um colchão de pedra que suporta os trilhos, etc. É um trabalho gradativo. Ou seja, existem alguns pontos que ainda não receberam o restauro necessário”, explicou.
OS BONDES
Existem três bondes guardados pela Prefeitura de Campinas em uma espécie de “garagem” localizada ao lado da base da Guarda Municipal, no Portão 3 da Lagoa do Taquaral. Dois deles, de acordo com Paulella, possuem condições de serem reutilizados após as manutenções necessárias. Já o terceiro tem apenas a “casca”, ou seja, não há como ser restaurado neste momento. A justificativa para a interrupção tão prolongada do serviço foi o furto de mecanismos que permitem o funcionamento dos bondes considerados operáveis pela Prefeitura, além de parte da fiação elétrica do sistema que permite os passeios pela linha de ferro do parque.
“No ano passado tivemos alguns furtos na garagem dos bondes, que atualmente está cercada por alambrado e com um vigia 24h por dia. Foram levados equipamentos dos veículos que permitem o funcionamento deles e que não são mais produzidos de forma industrial, pois eles foram feitos no século passado. Isso tudo terá de ser fabricado. Nós estamos providenciando a contratação de uma empresa especializada para desmontar os motores, verificar o que está faltando, construir as peças novas e montá-las nos bondes, para que eles voltem a operar.”
O secretário de Serviços Públicos detalhou que, posteriormente, após a retomada das operações dos dois primeiros bondes, será planejada uma restauração completa do terceiro. “Junto da reforma dos dois bondes que possuem condições de voltarem a operar ainda neste ano, estamos providenciando também um contrato para a manutenção da rede aérea. Parte dela também foi alvo de furto, pois os fios são de cobre e eles possuem valor monetário”, pontuou.
Paulella defendeu a importância histórica dos bondes para a cidade de Campinas, considerando o aspecto turístico dos passeios com os veículos dentro do parque e ao redor da lagoa. “Os bondes são equipamentos que atravessaram o século 19 e parte do século 20, parando nos meados dos anos 1960. Portanto, ele é um equipamento de lazer nostálgico. E é muito importante colocá-los para funcionar novamente para que as pessoas tenham ideia de como era o transporte coletivo da cidade no nosso passado.”
MEMÓRIA
A memória afetiva de parte dos campineiros envolve os passeios de bonde no Taquaral. Quem afirmou isso foi Raffael Borges, morador do Jardim Santa Genebra. Encontrado pela reportagem enquanto passeava pelo parque com a esposa e a filha, ele comentou sobre a expectativa pela retomada do serviço no local. “Já andei quando era bem mais novo e quero poder levar a minha filha assim que os bondinhos voltarem a funcionar. Ela já andou na Maria Fumaça que vai para Jaguariúna, mas quero que ela também conheça os bondes. Eles fazem parte da história da nossa cidade.”
Talita Paiva costuma ir bastante à Lagoa do Taquaral, na maior parte das vezes junto dos dois filhos, Heitor (6 anos) e Hellen (1 ano e meio). Habitante da Vila Marieta, ela comemorou a possibilidade dos bondes serem vistos novamente circulando pelo parque. “Meu filho mais velho sempre me pergunta o que é essa linha de ferro. Sempre falo o que é, mas ele nem imagina a sensação de andar em um veículo desses. É um passeio muito bacana.”
O sistema de transporte por meio de bondes funcionou em Campinas entre 1879 e 1968, inicialmente movidos com tração animal, puxados por mulas. Em 1912 os veículos foram incorporados ao sistema elétrico da cidade, dando maior velocidade aos trajetos e mais segurança para os passageiros. O serviço ligou vários pontos da cidade, com linhas em várias partes do município. Algumas delas ficavam nos atuais bairros da Vila Industrial, Guanabara, Cambuí, Botafogo, Castelo, além do chamado “bondão”, que recebeu esse apelido por ser um veículo bem maior que os bondes abertos da área urbana e que ligava a Fazenda das Cabras, em Joaquim Egídio, a Campinas.
No entanto, o uso desse tipo de transporte foi descontinuado em 24 de maio de 1968, quando a última viagem do sistema foi realizada em Campinas. A justificativa na época foi o aumento do tráfego de automóveis, que era atrapalhado pelas estruturas usadas pelos bondes. Quatro anos depois, em 5 de novembro de 1972, a Prefeitura de Campinas implementou uma linha interna circular com alguns bondes na Lagoa do Taquaral.
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