ONDA DE VIOLÊNCIA

Operações não inibem crime em Campinas e uma escola é alvo de arrastão

No mesmo dia do ataque à escola, um trio assaltou mais de 10 pessoas em pontos de ônibus

Isadora Stentzler
13/05/2022 às 09:41.
Atualizado em 13/05/2022 às 11:21

Os pais e responsáveis acompanharam os estudantes que foram às aulas após o crime (Kamá Ribeiro)

A Escola Estadual Dr. Newton Oppermann, no Bairro Jardim Florence 2, foi alvo de um arrastão por volta das 21h desta quarta-feira (11), em Campinas. Dois homens armados ameaçaram estudantes com idades entre 16 e 17 anos e levaram cerca de 40 celulares e objetos de valor. Neste mesmo dia, pela manhã, dois pontos de ônibus, do Jardim Yeda e Parque Residencial Vila União, também registraram vários assaltos. Os dois casos aconteceram em meio ao esforço empreendido pelas forças de segurança para tentar conter a escalada da criminalidade em Campinas. O professor de Processo Penal do curso de Direito das Faculdades de Campinas (Facamp), Cássio Vita Biazollida, analisa que, sem uma melhora da situação social, os esforços policiais serão insuficientes para romper a onda de violência. 

Arrastão 

O intervalo das aulas no período noturno da Escola Estadual Dr. Newton Oppermann, às 20h40, havia acabado de encerrar quando Enzo, de 15 anos, do 1º ano do ensino médio, retornou para a sala onde teria a próxima aula, a de Biologia. Esperava a professora quando a sua atenção voltou-se para sons que vinham de fora. Em quinze minutos, o barulho de um portão batendo veio seguido pelo grito desesperado: “Escondam tudo! Tranquem as portas! Estão assaltando a gente. Estão levando tudo. Não saiam da sala!”.

Pela janela, Enzo viu estudantes chorando e escondeu o seu celular rapidamente, apreensivo. Mas ninguém chegou à sua sala. Ficou com os colegas por mais alguns minutos, trancados, até que a redução da histeria na escola indicou que poderia deixar a sala. Somente então ele descobriu que os colegas do 2° ano B tinham sido vítimas de um assalto, durante uma aula de Física. 

Segundo os estudantes ouvidos pela reportagem, depois do intervalo, dois indivíduos entraram pela lateral da escola, onde havia uma grade em más condições, chegando à sala do 2° ano B, anunciando o assalto. O local, com cerca de 40 alunos, foi o único alvo invadido pelos criminosos.
A movimentação foi flagrada por câmeras de videomonitoramento que mostram a dupla passando por um corredor e entrando naquele espaço, vestidos com moletons com capuz. 
Alguns até acharam que se tratava de uma brincadeira do 3° ano. Porém, ao depararem com as armas, entenderam a seriedade da situação. “Entraram como se fossem alunos, normalmente, mas, do nada, apontaram as armas e anunciaram o assalto. Quem não entregasse [o celular], iria morrer com uma bala na cabeça. No final, ainda debocharam da nossa cara, aconselhando a gente a estudar e um deles se gabou de ser muito bom em matemática”, relatou, Júlia, de 16 anos. 

“Ficamos com medo, muito medo. Porque a única coisa que a gente pede é mais segurança. E nenhum coordenador ou diretor veio falar com a gente. Eles não fazem nada. Estamos assustados”, indignou-se a estudante.

No início da tarde de ontem, a equipe do Correio Popular esteve na escola e flagrou a grade lateral, por onde a dupla teria entrado, sendo consertada. O muro, que fica abaixo da grade, está ao lado de um terreno vazio, que serve como atalho de pedestres. Estudantes contaram que há meses as grades estavam tortas e que parte delas, inclusive, estava caída no chão. 

Mesmo com o conserto na infraestrutura, os alunos se dirigiram à escola para pedir transferência de unidade. Um deles, de 16 anos, integrante do grêmio estudantil, pediu a troca. Ele frequenta aquela escola há 10 anos, mas disse que agora tem medo de retornar e continuar os estudos. “Só não mudei de escola na mesma noite [quarta-feira] porque não dava. Mas hoje [sexta] de manhã consegui, porque não dá mais para ficar aqui não. Dessa vez, todo mundo saiu ileso. E da próxima? Não posso confiar. A gente não sabe o que pode acontecer na próxima”, lamenta. Segundo ele, após o assalto, a dupla saiu pelo portão da frente, o que fez o barulho que assustou os alunos de outras salas.

Pais temem por filhos 

Nesta quinta-feira, os pais acompanharam os filhos no início das aulas. Embora a filha da dona de casa Gilmara Alves Vital Leite, de 48 anos, estude no período da tarde, ela teme também pela segurança da menina, que tem 11 anos. “Gostaria de tirá-la desta escola. Aqui é muito perigoso. A gente não confia e fica preocupada. Quero transferi-la para outra escola”. Segundo Gilmara, quando a filha soube do assalto ficou “desesperada”, o que aumentou o medo da estudante de continuar frequentando a unidade.

Edilúcio Dias da Silva, de 66 anos, avô de um aluno, acredita que a sensação de insegurança vem da falta da presença da polícia. Ele estima que, apenas este ano, tenha visto apenas duas vezes a presença da Polícia Militar (PM) no local. 

Nesta quinta à tarde havia uma viatura na esquina da unidade. De acordo com os estudantes, à noite, é comum ter a viatura na entrada das aulas, às 18h40. No entanto, em algumas ocasiões a viatura vai embora assim que os portões são fechados e não retornam no horário da saída, quando os estudantes vão para casa. 

Escola mantém aulas

Apesar do crime, a escola manteve as aulas normalmente no dia de ontem. Às 18h40, pais e alunos foram até a unidade cobrar o reforço na segurança e pedir que as aulas sejam retomadas somente após garantida a segurança. 

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) lamentou o ocorrido e informou que os pais foram notificados e a PM acionada. “A gestão da unidade escolar está tomando as providências junto aos órgãos de segurança pública”, diz trecho. O documento também aponta que a equipe do programa Conviva prestará apoio psicológico aos estudantes. 

Nesta quinta-feira, a reportagem perguntou aos alunos se já haviam sido incluídos no programa. Mas eles negaram qualquer diálogo da direção da escola com eles.

Secretaria fica em silêncio

A reportagem questionou à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) se há relação entre os dois assaltos, tanto nos pontos de ônibus, quanto na escola, mas não foi respondida até o fechamento da reportagem.

A reportagem ainda pediu que a Pasta justificasse esta escalada de violência no momento em que o Estado de São Paulo deflagrou a “Operação Sufoco”, que tem por mote colocar nas ruas um maior efetivo para o combate à criminalidade. Ainda, pediu para a Polícia Militar como funciona a ronda escolar na unidade que foi alvo e se haverá maior presença de efetivo após o ocorrido. Nenhuma das questões foi respondida. A reportagem ainda aguarda posicionamento dos órgãos oficiais de Segurança Pública. A Pasta também não respondeu à reportagem há três dias sobre as ações que a Rota desenvolveu no município, segunda-feira, e o impacto da “Operação Sufoco” no município. 

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