CORREIO 95 ANOS

No Correio, a cobertura histórica sobre a morte de dois prefeitos de Campinas

Reportagens do jornal destacam a morte de José Roberto Magalhães Teixeira por câncer e o assassinato de Antônio da Costa Santos, ambos em pleno exercício de mandato na Prefeitura de Campinas

Isadora Stentzler/ isadora.stentzler@rac.com.br
03/07/2022 às 11:32.
Atualizado em 03/07/2022 às 19:48

Em um intervalo de seis anos, o Correio Popular noticiou as mortes dos prefeitos José Roberto Magalhães Teixeira e Antonio da Costa Santos, ambos no cumprimento dos mandatos (Pesquisa WilliamFerreira/Cedoc)

No intervalo de seis anos, as páginas do Correio Popular deram lugar à cobertura histórica sobre a morte de dois prefeitos em exercício: José Roberto Magalhães Teixeira (PSDB), na edição de 1° de março de 1996, e Antonio da Costa Santos, o Toninho (PT), em 11 de setembro de 2001. No limiar das duas coberturas, uma morte pelo câncer e um assassinato, até hoje não esclarecido. Ambos com repercussão nacional.

A perda de prefeitos em exercício tem implicações políticas, mas também humanas. Diante delas, coube aos jornalistas retratar esses trágicos acontecimentos, que certamente marcarão um período histórico, de mudança e também de perdas.

Quando José Roberto Magalhães Teixeira morreu, em 29 de fevereiro de 1996, fazia 98 dias que o médico Otávio Rizzi Coelho o havia diagnosticado com um tumor cancerígeno no fígado.

Após três dias internado, a morte foi confirmada às 16h20 de uma quinta-feira, aos 58 anos de idade do político, em um leito do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A reportagem do dia seguinte, estampada em um caderno especial de 10 páginas, descreveu os últimos momentos de vida do prefeito, conhecido por Grama:

“A respiração do prefeito estava falhando. De repente, respirou forte. Na primeira vez, a sonda respiratória soltou-se do seu nariz. Respirou forte mais uma, duas, três vezes e parou. Ao seu lado, estavam a ex-mulher Thereza Christina, seu amigo e médico Roberto D’Ottaviano, sua secretária Alice Noronha, o vereador Biléo Soares e seus médicos. Todos se olharam e choraram. Choraram muito. Christina colocou a mão no rosto do marido e disse ‘um dia, nos encontraremos no céu’.”

Naquelas 10 páginas, a reportagem contou a cronologia da doença que culminara na morte do prefeito, os detalhes do tratamento e as despedidas.

As fotografias, em um jornal ainda com algumas páginas em preto e branco, mostravam o desespero popular na despedida e, em uma foto que ocupou quase toda a capa, a multidão em volta do caixão para o último adeus a Magalhães Teixeira.

Sem poder estar presente no velório devido a compromissos, o então presidente Fernando Henrique Cardoso foi representado pelo ministro da Educação e Desporto Paulo Renato de Souza. Fernando Henrique deixou a mensagem: “Perdi um amigo e companheiro de lutas pela democracia. Como prefeito de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira foi um social-democrata, fiel a seus compromissos. Estou triste. Perdemos um homem honrado, um grande administrador e um cidadão que amou seu povo”.

Morte de Toninho

Seis anos depois, outra cobertura realizada na noite de 10 de setembro de 2021, viria a estampar, com o mesmo tamanho e importância, as páginas do Correio Popular do dia seguinte.

O relógio beirava 23h e a maior parte da redação do Correio Popular já havia ido para casa. No segundo andar do prédio, o jornalista Paulo Planta finalizava os trabalhos e se preparava para sair quando uma ligação inesperada o fez derrubar todo o trabalho do dia: 'o motorista de um veículo Palio foi alvo de disparos e morreu na saída do Shopping Iguatemi. A suspeita é de que ele seja Toninho'. 

Rapidamente, Planta e o fotógrafo Carlos Bassan deixaram a redação, sendo os primeiros jornalistas a chegarem ao local do crime. Com eles, também representantes do alto escalão da política local, policiais e familiares de Toninho. A confirmação veio em meia hora e, às margens da Rua Mackenzie, a capa do dia seguinte acabara de receber um novo tom: Prefeito de Campinas é assassinado com um tiro.

De forma orgânica, os repórteres começaram a voltar para a redação para ajudar na longa cobertura que começava na virada da noite. Vinte e dois nomes assinaram a reportagem especial de quatro páginas, encerrada por volta das 5 horas do dia seguinte à morte, 11 de setembro.

Um texto sensível e sóbrio contou as últimas horas do prefeito antes do crime:

“‘Se acontecer alguma coisa comigo, você será a primeira mulher a se tornar prefeita na história de Campinas’. Pouco mais de duas horas depois de dizer estas palavras à vice-prefeita Izalene Tiene, o prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos (PT), 49 anos, foi assassinado com um tiro, que atravessou o tórax. Outras versões cogitadas durante a madrugada apontariam que o prefeito teria levado mais de um tiro. O crime ocorreu na Rua Mackenzie (antiga Rua Projetada), ao lado do Shopping Iguatemi, por volta das 22h50, em circunstâncias não esclarecidas até as 3 horas de hoje”.

Em outro texto, o cenário foi descrito com humanidade: “Um Palio, com as luzes acesas, parado no meio do mato, com um corpo caído sobre o banco. Policiais chegando a todo momento. Ninguém confirmava quem era o homem morto ao volante. Começaram a chegar as pessoas mais ligadas à vítima. Primeiro, os políticos aliados ao prefeito, depois, a cúpula da polícia e da política. Por meia hora, ninguém ousou dar a informação, até que o chefe de gabinete Gerardo Melo não conteve a dor e, chorando, revelou a identidade do morto”.

Madrugada a dentro, repórteres se dividiram em contar o crime. Equipes se deslocaram para a Prefeitura, para a casa de Toninho e para a rua do assassinato, ouvindo os detalhes policiais que dariam o tom do início das investigações, o histórico da vida política, o adeus e a repercussão entre as lideranças.

Fundador do PT, Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos que se manifestou. “Toninho simbolizava uma esperança que pouca gente tinha. Poucas vezes, a cidade teve alguém tão comprometido com a sociedade e a periferia quanto Toninho”, disse, na época. 

O senador Eduardo Suplicy, que estava na cidade, na ocasião, participando de um encontro que debatia a luta contra o racismo, foi um dos primeiros a levantar a hipótese de “crime político” na morte do prefeito.

Dario Saadi, que na época era vereador pelo PSDB, chamou o assassinato de “absurdo”. “A violência não está poupando ninguém”, disse. 

Nos textos que contaram o crime só não saíram as lágrimas dos jornalistas, que também sentiam a perda do prefeito. 

Mas como nem todas as histórias publicadas recebem seu ponto final em uma edição, a repercussão da morte de Toninho não foi encerrada até hoje. O local em que seu carro foi alvejado deu lugar a uma estátua que homenageia o político. Já nas páginas dos jornais, ainda há espaço para escrever o esclarecimento de um crime que entrou para a história.

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