ENTREGADORES NA MIRA

Motoboys de Campinas sugerem ações adicionais à ‘Operação Sufoco’

Profissionais apontam abordagens excessivas durante operação e cobram mudanças nas leis

Isadora Stentzler
12/05/2022 às 09:29.
Atualizado em 12/05/2022 às 09:29

Motoboy com a chamada “bag” nas costas, comumente usada para as entregas: item que hoje gera desconfiança (Gustavo Tilio)

A explosão de crimes cometidos por criminosos que se passam por entregadores têm prejudicado profissionais que vivem da profissão de motoboy. Além do receio dos próprios clientes, que passaram a pedir as características físicas dos entregadores aos restaurantes, o aumento de abordagens policiais resultantes da “Operação Sufoco”, têm sido vistas como assediadoras. 

Para representantes da categoria, embora as ações de fiscalização sejam necessárias, é preciso observar-se o cumprimento das leis que regem a categoria, a fim de evitar que o serviço de entrega seja utilizado para atuação criminosa. 

Há uma semana, o motoboy Paulo César Columbari, de 25 anos, saiu para entregar uma pizza no bairro Taquaral. Há oito anos nessa profissão, ele mantém dois empregos: ao meio-dia em um restaurante e, à noite, em uma pizzaria. 

Na ocasião, segundo ele, foi a primeira vez que foi seguido por uma viatura da Polícia Militar. “Eles queriam ver se eu realmente estava com o produto, se tinha vínculo com algum local e se, de fato, era um entregador habilitado”, lembra. “Em oito anos de profissão isso nunca havia acontecido antes.” 

Ele tem na profissão sua única fonte de renda, com a qual sustenta a esposa e três filhos. Embora reconheça os esforços policiais em localizar os falsos entregadores, ele aponta assédios, como o que passou, contra quem tem na profissão sua única fonte de renda. 

Como funciona 

Os crimes cometidos por falsos entregadores começaram a aumentar durante a pandemia. Isso porque a profissão foi popularizada, uma vez que as pessoas precisaram ficar em casa e alimento, medicamentos e demais produtos passaram a ser entregues apenas por motoboys.

Muitos trabalhadores que já exerciam essa atividade também perderam sua fonte de renda, visto que muitas empresas fecharam as portas no período de recrudescimento da pandemia. Eles se somaram a tantos outros desempregados e acabaram migrando para os aplicativos, que têm como uma de suas principais características o uso de bags, as mochilas, para o trabalho. Foi nesse cenário que criminosos perceberam a oportunidade de se deslocarem livremente usando motocicletas e mochilas para cometerem assaltos. 

O impacto 

O presidente do Sindicato dos Motociclistas de Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Sorocaba e região, Edivaldo Lopes de Queiroz, acredita que o fato de criminosos se passarem por entregadores tem relação também ao sucateio da profissão. Isso, porque há uma legislação (Lei 12.009), que regulamenta a categoria de motofrentistas e estabelece diversas normas para que o profissional seja habilitado como entregador. 

Entre elas, que o motoboy tenha 21 anos completo, dois anos de habilitação na categoria, tenha sido aprovado em curso especializado pelo Contran, além da necessidade de estar vestido com colete de segurança dotado de dispositivos retrorrefletivos. O não segmento da Lei, explica Lopes, é que deveria ser alvo de fiscalização. 

“Estamos sendo prejudicados. Quem exerce a profissão não é bandido. Na pandemia éramos heróis, hoje somos bandidos. O que aconteceu foi que esses aplicativos impuseram a falta de regulamentação. Eles colocam o motoboy na rua sem regulamentação e os deixam sem ter a quem reclamar. É a precarização. Não somos contra a tecnologia, mas ela tem de respeitar a lei”, defende.

A opinião vai ao encontro com a do presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMABR), Edgar Francisco da Silva (Gringo). “Para lucrar, os aplicativos abrem mão da segurança dos trabalhadores quanto da segurança pública, porque, nesse formato, acabam facilitando para os criminosos.”

Procurado, o iFood, um dos principais aplicativos de entrega, não revelou quantos entregadores estão cadastrados em Campinas, mas garantiu que “repudia quaisquer práticas de criminosos que prejudicam a imagem e o trabalho dos entregadores”. E que está “colaborando com o governo do Estado de São Paulo para, por meio da tecnologia, encontrar soluções que auxiliem a atuação do Poder Público na identificação de criminosos que se passam por entregadores para cometer crimes”. 

A empresa reconheceu que as bags podem ser usada sem identificação da aplicativo para o qual trabalham e podem ser adquiridas pela internet. “O fato de uma pessoa estar com uma bag com a marca iFood não significa que esteja fazendo entregas pela empresa”, afirmou.

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