ANIVERSÁRIO

Mercadão celebra 115 anos às vésperas de ampla reforma

Considerado como uma das ‘7 Maravilhas’ de Campinas, espaço será remodelado

Luis Eduardo de Sousa Reis/ [email protected]
12/04/2023 às 08:47.
Atualizado em 12/04/2023 às 09:39
Juliana Lima herdou do sogro a loja de artigos religiosos que existe no Mercadão há 42 anos; sua paixão pelo negócio a mantém firme no ponto (Rodrigo Zanotto)

Juliana Lima herdou do sogro a loja de artigos religiosos que existe no Mercadão há 42 anos; sua paixão pelo negócio a mantém firme no ponto (Rodrigo Zanotto)

O Mercado Municipal de Campinas, popularmente conhecido como Mercadão, completa 115 anos nesta quarta-feira (12). O prédio é considerado uma das “7 Maravilhas” de Campinas. Além da edificação, projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo no estilo neomourisco, o espaço se destaca pela variedade de produtos.

O Mercadão segue agora para uma nova fase, com traços "mais modernos", através da reforma prevista no início de maio, adiantada pelo Correio Popular no dia 4 de abril. Com investimento de R$ 6,1 milhões será feita remodelação completa da estrutura do prédio e revitalização total da fachada. Uma fase, que deixa permissionários apreensivos, mas na esperança de ter mais infraestrutura e atrair mais visitantes.

O Mercadão oferece aos campineiros uma gama extensa de produtos raramente encontrados em outros locais da cidade: queijos, laticínios, grãos de todos os tipos, fumo de corda e itens de tabacaria, sapatos, destilados, equipamentos para pesca, artigos de cutelaria, carnes, peixarias, além de hortifruti. Patrimônio histórico e cultural, que mantém muitas tradições e costumes dos habitantes que nasceram na cidade, mas também de tantos outros que moram na região. Há uma emotividade por parte dos frequentadores e comerciantes, muitos deles com estreita relação com o Mercadão. Valéria Garbelini, de 46 anos, frequenta o local há mais de 30 anos. "É um lugar que a gente passeava com o avô, né? Remete-me à minha época de criança", contou com lágrimas nos olhos, "a gente cresceu, casou, e continua vindo aqui: pela variedade e facilidade", completou.

O presidente da associação dos permissionários do Mercado Municipal, Edson Shimabukuro, de 60 anos, vende frutas, verduras e legumes no Mercadão há 25 anos, mas frequenta o local desde que tinha apenas 5 anos, o que despertou interesse de abrir o negócio. "A memória que eu tenho desse lugar é de afeto. Minha família morava na área rural e meu avô vinha aqui comprar as coisas por atacado. Eu, que gostava de pescar, vinha junto para comprar varas, linhas, anzóis...É, para mim, um prazer imenso participar dos 115 anos desse lugar", comentou.

O Mercado Municipal encanta até mesmo as novas gerações. Sérgio Oliveira, de 29 anos, atua em um box de hortifruti há apenas um ano. "Gosto de estar aqui todos os dias, conversar com as pessoas, aprender com os mais velhos. É como se fosse uma formação", contou. Mineiro, o jovem está na cidade há um ano e meio e tem planos que destoam das atividades exercidas no espaço, mas já tem boas memórias da metrópole.

Polêmicas

Responsável por projetar o prédio imponente, Ramos de Azevedo é filho do fazendeiroº Major João Martins de Azevedo, que atuou no legislativo campineiro. “O pai dele foi vereador nos períodos de 1853 a 56, de 65 a 68 e de 69 a 72”, explicou o historiador Munir Abboud Pompeo de Camargo, que é mestre e doutorando pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisa a história da arquitetura da cidade.

Ramos de Azevedo estudou engenharia e arquitetura na Universidade de Gante, na Bélgica, e retornou a Campinas em 1879. "A partir daí começa a pegar uma série de projetos na cidade, a Escola Corrêa de Mello, a Escola Ferreira Penteado e a finalização na construção da Igreja Matriz de Campinas são alguns exemplos", completa Camargo.

As polêmicas envolvendo a área são marcas de uma região que foi de exclusão social entre o fim do século XIX e início do século XX. "O prédio começou a ser construído em 1908, mas antes disso era uma área alagadiça, de brejo e depósito de lixo. A situação era insalubre e muita gente reclamava", explicou o historiador.

Hoje, todo o perímetro leva como referência o prédio que está aniversariando, no entanto, o local já foi conhecido como Largo do Jurumbeval, pela grande quantidade de Jurubeba, planta que predominava na área. "Escravos e funcionários da elite vinham aqui pegar água e acabavam por formar uma atmosfera de confraternização", relatou Munir.

Com o passar dos anos, o espaço foi tomado por "biombos", pequenas construções em formato de barraco. "Nesses biombos, algumas atividades ilegais eram praticadas. Comércio de produtos contrabandeados, brigas, prostíbulos e até 'curandeirismo'. Há registro de um caso em que foi encontrada uma carga de chapéus roubados", concluiu.

Com o crescimento da cidade, o Mercado Municipal foi tomando a forma atual. A estação onde antes funcionava o bonde virou box para o comércio e, aos poucos, chegou ao que é hoje. 

Nova Fase

Juliana Lima, 48, tem uma loja de artigos religiosos no local há seis anos. Ela assumiu o negócio que era do sogro e expandiu. Abriu até uma nova unidade, também no Centro, mas "não consegue viver sem o espaço no Mercadão". "Meu sogro abriu a loja em 1978, há 42 anos. Minha pretensão era de vender, mas quando eu cheguei, me apaixonei. Não consigo sair daqui, deixar isso aqui. E estou muito ansiosa por essa nova fase. Para que seja de bonança, que traga mais vida, mais pessoas. Somos apaixonados por pessoas", disse.

As obras de revitalização do Mercadão devem começar na segunda quinzena de maio. O local ganhará ares de modernidade, com mais espaço nos corredores e um mezanino sobre os boxes. O mezanino deve servir de espaço para alimentação, e serão instaladas lanchonetes e mesas. “As obras no Mercado Municipal têm como finalidade preservar o patrimônio histórico-cultural da cidade. As readequações são necessárias para a continuidade dos serviços, com novas tecnologias, novos equipamentos de refrigeração e iluminação, garantindo conforto e segurança. E também vão contribuir para revitalizar de todo o entorno e atrair mais frequentadores”, declarou o presidente da Serviços Técnicos Gerais (Setec), Enrique Lerena. A previsão para conclusão das obras é de 15 meses, informou a prefeitura.

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