SITUAÇÃO PREOCUPANTE

Infarto mata mais de duas pessoas por dia na cidade

Município registrou 496 mortes nos primeiros sete meses de 2023, 6,4% a mais do que no ano passado

Luis Eduardo de Sousa/ [email protected]
17/08/2023 às 09:18.
Atualizado em 17/08/2023 às 09:18
Segundo o cardiologista Silvio Giopato, somente no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp são realizados cerca de 7 cateterismos por dia, exame que identifica as irregularidades nas artérias coronárias (Alessndro Torres)

Segundo o cardiologista Silvio Giopato, somente no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp são realizados cerca de 7 cateterismos por dia, exame que identifica as irregularidades nas artérias coronárias (Alessndro Torres)

A Rede Municipal de Saúde de Campinas registrou uma média de 2,3 mortes por infarto por dia entre janeiro e julho desse ano nos hospitais da cidade. Foram 496 óbitos no período, 6,4% a mais que os 464 registrados no mesmo período do ano passado. O número também é o maior, para os sete primeiros meses, dos últimos cinco anos.

Os dados foram divulgados pela Secretaria da Saúde a pedido do Correio Popular. Especialistas que atuam no sistema público de saúde avaliam que a situação é preocupante e que há um aumento, sobretudo nos jovens, de comorbidades que contribuem para o quadro.

De acordo com o levantamento da Saúde municipal, nos sete primeiros meses de 2021 foram 397 óbitos por infarto. No mesmo período de 2020 e 2019, os números chegaram a 369 e 468, respectivamente.

Segundo o Ministério da Saúde, o infarto é a maior causa de morte no Brasil. De acordo com estimativas da Pasta, o país registra entre 300 mil e 400 mil casos anuais.

A principal causa do infarto é a aterosclerose, doença causada pela obstrução das artérias coronárias, ocasionada pelo acúmulo de placas de gordura nas veias que ligam ao coração. Com isso, há a formação de coágulos e a interrupção do fluxo sanguíneo.

Um dos principais agentes causadores é o descontrole do colesterol, a ingestão exagerada de gordura animal e a falta da prática regular de exercícios físicos.

A coordenadora de Saúde do Adulto e do Idoso, Camila Monteiro, reforçou que o município tem ações de combate às causas do infarto, geralmente realizadas por ações de saúde preventiva.

“Nós temos uma rede integrada de ações de prevenção em todos os Centros de Saúde, porque quando falamos de doenças que levam ao infarto, temos que compreender que pode haver um agravo caso não haja um acompanhamento. Em razão disso, as equipes de Saúde da Família já somam 236 grupos. Em 2021, eram 186. Esses grupos contam com nutricionista, fisioterapeuta, atividades físicas, enfim, uma gama de ações que nos permitem cuidar dessas pessoas”, detalhou.

O churrasqueiro Orlando Batista, de 49 anos, se lembra com detalhes de quando infartou por conta do acúmulo de gordura em uma coronária. Na descrição dele, a sensação é de como “se estivesse na transição entre o plano espiritual e material”.

“Eu estava jogando bola e, de repente, comecei a ter dificuldades para respirar, transpiração e calafrios. Chamei um táxi e fomos correndo para o Mário Gatti, onde constataram que a veia estava trancada e que estava tendo um infarto. De imediato já começou aquela correria em volta de mim, vários remédios aplicados para afinar o sangue, exames para todos os lados. Eu já estava pensando ‘até que não foi tão ruim a dor da morte’, quando ouvi a enfermeira falando ‘voltou’”, relatou.

Depois do ocorrido, Batista permaneceu nove dias internado no hospital, recebendo procedimentos diariamente. Desde então, mudou completamente seus hábitos e adotou uma vida mais saudável.

“Eu já praticava esportes, fazia academia. O que reduzi mesmo foi o consumo de gordura, que comia muito, muito mesmo, antes do infarto. Feijoada, dobradinha, gordura de carne bovina assada, reduzi tudo. Agora como mais saladas e legumes. Passei também a tomar a medicação corretamente, para controlar a pressão

O médico cardiologista do Hospital de Clínicas (HC), Silvio Giopato, avaliou que existem agravantes, relacionados às novas formas de vida, que estão contribuindo para o aumento de doenças que progridem para o infarto. “As pessoas, em razão dos seus afazeres, comem cada vez pior. Alimentos ultraprocessados, fast-food. Além disso, há uma questão interessante de ser ressaltada, que é o retorno do tabagismo sob o estigma de ‘benfeitoria dos eletrônicos’. Os jovens estão fumando cada vez mais, comendo pior, dormindo menos, se estressando mais, o que contribui para o quadro”, explicou.

Saúde Estadual divulga queda de internações ligadas ao colesterol 

Conforme levantamento da Secretaria de Estado da Saúde, os casos de internações em hospitais por doenças relacionadas ao colesterol, como é o caso da aterosclerose, tiveram uma redução de 6,5% - cerca de 4,5 mil a menos nos primeiros sete meses de 2023 em comparação com igual período do ano anterior. Foram 69,2 mil no ano passado, contra 64,7 mil no ano atual.

Ainda de acordo com o estudo do Estado, a maioria dos atendimentos na rede estadual foram em homens, com 58% do total. Silvio Giopato, cardiologista do HC, interpreta o balanço da SES com cautela. Na visão dele, a pesquisa em âmbito estadual está distante do cenário encontrado na região de Campinas.

“Acredito que essa queda, embora seja uma boa notícia, representa um retrato e não um filme. Isso significa que não é uma redução consistente e duradoura, mas um recorte para um período que teve pouco menos de colesterol na participação de infartos. No caso, como o colesterol não é a única causa de infarto, isso não significa que a adversidade tenha ocorrido menos. Pelo contrário, o que notamos aqui é um número até 30% maior de casos, sobretudo no período frio, onde há mais ocorrências”, avaliou. Giopato citou um dado da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revela que 60% da população brasileira com mais de 18 anos está acima do peso ideal – fator que contribui para o risco de infarto.

“Além disso, de 6% a 9% da população infantil está acima do peso e ¼ com obesidade. São todos fatores de risco que comprometem a saúde de adultos e de jovens, e que implica em grande prejuízo para a sociedade, uma vez que o infarto, quando não mata, pode tornar a pessoa inapta para o trabalho, atrapalhar precocemente a vida profissional de um jovem, além de implicar em um alto custo para o Estado com a medicação e procedimentos rotineiros” reforçou. Segundo o cardiologista, somente no HC são realizados uma média de 7 cateterismos por dia, exame que identifica as irregularidades nas artérias coronárias. O paciente é submetido a cirurgia, que pode ser eletiva ou de emergência, a depender da gravidade da situação. O cardiologista, e professor da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, José Francisco Kerr Saraiva vê um cenário menos otimista em relação aos infartos na região. “Se há, de fato, uma redução nessas internações, então é um sinal de que as pessoas estão comendo melhor, praticando exercícios e, para os que já têm histórico de doenças, tomando a medicação correta. Mas é preciso estar atento a esses dados, uma vez que não há uma notificação compulsória, quando um paciente é internado na emergência com diagnóstico de infarto, sobre o que teria causado isso”, explicou o médico.

O especialista acrescentou que “estar com o colesterol controlado, todavia, não é um sinal 100% garantidor de que o infarto não ocorrerá”.

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