Congregação em Hortolândia garante moradia, necessidades básicas e vagas na rede pública
Enquanto municípios como Campinas buscam alternativas para lidar com os índios refugiados venezuelanos da etnia Warao, que se espalham por todo o Brasil, voluntariados da região se mobilizam para ajudá-los. Exemplo dessa ação ocorreu com um grupo de religiosos da igreja Congregação Cristã no Brasil, do Jardim Nova Europa, em Hortolândia. Há dois meses, eles acolheram 16 índios Warao que chegaram em Campinas, vindos do Rio de Janeiro, em busca de oportunidade para se estabelecerem, sobreviverem e enviarem dinheiro para o restante da família que ainda vive em Santa Helena, na fronteira da Venezuela com o Brasil. Eles arranjaram casas para os refugiados, doaram alimentos, roupas e objetos. Também conseguiram matrículas para as crianças na rede pública e ajudaram as famílias a requererem o Bolsa Família. Dados fornecidos pelo diretor de Direitos Humanos da Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos da Prefeitura de Campinas, Fábio Custódio, responsável pelo serviço ao imigrante, apontam que ao menos 200 mil índios Warao vivem no Brasil desde 2014, quando eles começaram a imigrar devido à crise na Venezuela. A constante migração pegou os municípios despreparados. Diante da chegada dos primeiros grupos indígenas na cidade, na semana passada, a Prefeitura elaborou um protocolo, aprovado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), na qual orientava como organizar ações para esses imigrantes. Inicialmente, o protocolo estava concentrado apenas para a área de saúde, mas nesta semana, Custódio voltou-se a reunir com representantes de todas as secretarias para repensarem o protocolo. “Tínhamos apenas seis índios na cidade, mas na última semana aumentou muito. Eles recusam atendimento em albergues, então teremos que achar uma forma de conduzir essa situação”, frisou o diretor. “As organizações sociais, por exemplo as igrejas, estão desempenhando um importante papel na recepção destes índios. Elas estão ajudando eles a se instalarem em casas, ajuda com alimentação”, comentou. Em Campinas, até o último dia 9, o serviço do imigrante da Prefeitura tinha registrado a presença de 42 índios Warao na cidade, além dos 16 que vivem em Hortolândia. Todos eles foram abordados por equipes do SOS Rua e do Movimento Vida Melhor (MVM) e a documentação deles foram enviadas para a Polícia Federal (PF), que analisou e constatou que todas estão em ordem. Entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano, o Governo Federal concedeu 40 mil pedidos de refúgio para venezuelanos. A expectativa é atingir os 200 mil pedidos até o final do ano. Os pedidos são para os venezuelanos em geral. A tribo Warao conta com cerca de 20 mil índios, que vivem em aldeias no nordeste da Venezuela e norte das guianas ocidentais. É a segunda maior população indígena da Venezuela. Eles vivem basicamente do artesanato com uso do buriti, matéria-prima essa encontrada na Chapada dos Guimarães e que por lei é proibida de sair do local. “Esses índios têm sua própria autonomia. Eles não gostam de viver em abrigos. Mas como andam com crianças e o ECA determina que crianças não podem ser usadas em mendicância, precisamos estabelecer um pacto com eles”, falou Custódio, frisando que o acompanhamento está sendo diário. Santos dos Últimos Dias atua na região Além da comunidade indígena venezuelana, outros cidadãos do País estão imigrando para a região de Campinas. Um programa social liderado por um empresário de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, identificou os membros da comunidade religiosa na Venezuela e passou a trazê-los para o Brasil. As unidades da igreja espalhadas pelo Brasil interessadas em contribuir com o projeto se inscreviam e se colocavam à disposição do programa. No final de 2018, representantes da igreja em Hortolândia conseguiram trazer 86 venezuelanos, membros da igreja. O grupo se dividia em 24 famílias. Atualmente, 19 delas já estão estabelecidas, inclusive com empregos, e responsáveis pelas próprias despesas. O restante, ainda segue recebendo ajuda com aluguel e cestas básicas para se manterem. A decisão de acolher as famílias foi para ajudá-las a sobreviver, assegura um membro da igreja que prefere não ser identificado. Líder de clã revela atritos entre a própria comunidade Sem dinheiro e passando fome, muitos índios da etnia Warao fugiram da Venezuela para não morrer. Os primeiros imigrantes entraram no Brasil pela região Norte após angariarem recursos com os objetos que lhes restaram no país deles para comprarem passagem. O ingresso se deu por Roraima, onde conseguiram as primeiras ajudas com também voluntariados. Como houve uma grande concentração de índios da mesma etnia, mas de clãs diferentes, em um único acampamento, começou a ocorrer desentendimentos, já que os hábitos eram diferentes. “Na minha família não bebemos bebida alcoólica, não fumamos e nem usamos drogas. Temos crianças e não queríamos que nossos filhos ficassem em um ambiente onde outros faziam essas coisas”, disse Miguel Antônio Quijada Lorenzano, que foi recolhido pela Igreja Congregação Cristã no Brasil, do Jardim Nova Europa, em Hortolândia. Miguel é um dos líderes do clã que conta com quatro casais. Ao deixarem o alojamento, a família de Miguel com outro grupo de indígenas da mesma etnia percorreu cidades como Manaus, Itaquatiara, Vilhena, Cuiabá, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. A migração dentro do Brasil foi realizada por ônibus, com recursos que eles conseguiram como pedintes. “Em alguns locais, a gente conseguia hotel, mas o que queríamos mesmo era alugar uma casa. Quando não conseguíamos hotel, ficávamos na rua e isso era muito ruim. Logo a gente procurava no mapa, outra cidade para irmos”, contou. A escolha por Campinas, segundo Miguel se deu ao acaso. Olharam no mapa, localizaram a cidade e compraram a passagem. “Tivemos uma experiência muito ruim quando chegamos em Campinas. Fomos recebidos como se fôssemos criminosos. Nos levaram para um abrigo e nem quiseram saber como era nossa cultura. A gente aprendeu e respeita a cultura brasileira, que é muito bonita. Mas temos a nossa também”, disse Miguel, que divide a opinião com os cunhados, Josué e Feliciano. O encontro do clã de Miguel com o grupo de religiosos foi por Deus, como ele define. A sobrinha dele, adolescente, estava com a filhinha de um ano e o marido em uma esquina na Avenida Andrade Neves pedindo dinheiro, quando um motorista de aplicativo passou com um cliente que desembarcaria na rodoviária. Ao ver a criança faminta e a jovem, o motorista, que não quis ser identificado, se comoveu e retornou ao local para ajudá-los. “Eu ia levá-los para almoçar em um restaurante, mas quando percebi que a criança tossia muito, os levei para minha casa, no Jardim Nova Europa”, contou. A partir daquele momento, a vida do clã mudou totalmente. Comovido com o histórico da família, o motorista de Uber disse que orou a Deus com a mulher e depois buscou ajuda da obra da piedade da igreja. O apoio veio logo e à noite, todos do clã já estavam reunidos. Atualmente, o clã de Miguel vive em uma mesma casa no Jardim Nova Europa, mas eles já planejam se estabilizar na cidade e buscam independência para que cada família tenha sua própria casa. “Neste momento buscamos ajuda para trazer mais seis pessoas de nossa família que ficaram na Venezuela. Precisamos de R$ 8 mil”, disse Miguel.