CENSO 2022

IBGE revela crescimento no número de pretos e pardos na RMC

Alta divulgada pelo instituto foi de 33,73%; quantidade de brancos aumentou 2,31%

Edimarcio A. Monteiro/ [email protected]
23/12/2023 às 09:13.
Atualizado em 23/12/2023 às 09:13
Maior representatividade de pretos e pardos na mídia, filmes, novelas e em cargos de liderança, além de políticas de afirmação e antirracistas, são elementos que podem ter contribuído para uma maior autodeclaração, na avaliação de especialistas (Alessandro Torres)

Maior representatividade de pretos e pardos na mídia, filmes, novelas e em cargos de liderança, além de políticas de afirmação e antirracistas, são elementos que podem ter contribuído para uma maior autodeclaração, na avaliação de especialistas (Alessandro Torres)

O número de pessoas que se declararam pretas ou pardas foi o que mais cresceu no Censo 2022 na Região Metropolitana de Campinas (RMC), com alta de 33,73%. Elas somaram 1.202.705 habitantes, contra 899.332 do Censo de 2010, de acordo com os dados por grupo étnico divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Já o número dos que se declararam brancos passou de 1.879.330 para 1.922.689, alta de 2,31% no mesmo período.

Com isso aumentou a participação de negros e pardos no total da população na região da RMC. Em 2022, eles representaram 37,84%, o equivalente a quase quatro em cada dez moradores, enquanto no Censo anterior a proporção era de 32,01%. No intervalo de 12 anos entre os levantamentos populacionais, a RMC ganhou 303.373 pessoas que se autodefiniram como pretas ou pardas, ou seja, o equivalente a soma de todos os73 moradores de duas cidades da região, Santa Bárbara d'Oeste e Itatiba.

Para a vice-presidente do Conselho da Comunidade Negra de Campinas, Marcela Reis, o aumento é reflexo de políticas públicas antirracistas e de afirmação da população afrodescendente. “Está havendo um aumento gradativo desse autorreconhecimento em função das políticas públicas de não ao racismo, que mostram que não estão sozinhas, de reconhecimento do seu valor, da sua dignidade e do papel que devem ter na sociedade, ações de afirmação”, afirmou ela.

QUEDA DE BRANCOS

Os dados do IBGE mostram que em quatro das 20 cidades da RMC – Campinas, Cosmópolis, Pedreira e Santa Bárbara d'Oeste - houve queda no número de autodeclarados brancos no Censo de 2010 para o do ano passado. Proporcionalmente, a maior redução ocorreu em Santa Bárbara d'Oeste, 7,52%. O total de pessoas que declararam essa cor de pele caiu de 129.706 para 119.959.

Na sequência, aparecem Cosmópolis (-7,02%) e Pedreira (-5,99%). Em Campinas, a queda foi de 4,56%, com o número de brancos caindo de 710.386, em 2010, para 677.979, no ano passado. Enquanto isso, o total de negros e pardos na cidade teve um aumento de pouco mais de 28%, passando de 349.344 para 447.745. Para o relator da Comissão da Verdade sobre a Escravidão de Negros no Brasil da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da Subseção Campinas, Tagino Alves dos Santos, o aumento da autodeclaração como preto ou pardo é também “uma manifestação de coragem, de empoderamento”. Ele considera que isso ocorre desde os pequenos detalhes, como a valorização e o crescimento do uso do cabelo com penteados afro, até a maior presença do grupo étnico na mídia, filmes, novelas e em cargos de liderança.

“As pessoas passam a ser ver nessas pessoas, enxergar que elas também podem chegar lá”, disse Tagino Santos. Ele foi o único negro da sua turma no curso de Direito em 1989 e recordou que houve época em que as negras eram orientadas pelos próprios familiares a alisar o cabelo como parte do processo para serem aceitas pela sociedade. Tanto ele quanto Marcela Reis avaliaram que houve avanços no reconhecimento do grupo étnico, mas ainda há barreiras a serem derrubadas para isonomia social e oportunidades iguais de emprego, salário e ascensão profissional.

Relator da Comissão da Verdade sobre a Escravidão de Negros no Brasil da OAB Campinas, Tagino Alves dos Santos afirmou que o aumento pode ser visto como uma manifestação de coragem e empoderamento (Kamá Ribeiro)

Relator da Comissão da Verdade sobre a Escravidão de Negros no Brasil da OAB Campinas, Tagino Alves dos Santos afirmou que o aumento pode ser visto como uma manifestação de coragem e empoderamento (Kamá Ribeiro)

Tagino Santos lembrou que apenas em janeiro passado é que a legislação brasileira passou a igualar injúria racial e racismo como crime, isso quase 135 anos após a abolição da escravidão no país. A grande diferença é que o crime passou a ser inafiançável e imprescritível em todas as duas formas. O advogado considera que a impunidade é um dos motivos do racismo ainda estar presente na sociedade.

A vice-presidente do Conselho da Comunidade Negra disse que essa mudança passa obrigatoriamente pela educação. “Ela é transformadora e é preciso ter a participação da sociedade, da família, de ações de política social. É preciso que ações antirracistas comecem em casa, tenham a participação de professores e estejam presente no material escolar”, completou.

Marcela Reis é cofundadora e CEO do grupo Malkia, que desenvolve cursos de tranças em escolas públicas municipais e estaduais, ocasião em que também fala da escravidão e do que foi o processo das mulheres negras nesse período através desse penteado. “É preciso reconhecer o papel da mulher negra e mostrar que ela é modelo de referência na periferia”, afirmou. Ela ressaltou que as negras representam 80% dos atendimentos feito pela Central Única das Favelas (Cufa), da qual faz parte.

OUTROS GRUPOS

Esse autorreconhecimento levou, por exemplo, ao aumento de 107,32% no número de pessoas que se identificaram como pretas em Jaguariúna. O total saltou de 1.544 do Censo de 2010 para 3.201 no levantamento de 2022. Os dados sobre etnia do IBGE mostraram ainda que houve aumento no número dos que se declararam indígenas na Região Metropolitana de Campinas. No ano passado, 2.723 disseram pertencer a esse grupo, contra 2.429 em 2010.

Apesar do aumento, houve redução da população dessa etnia em oito cidades: Cosmópolis, Holambra, Itatiba, Jaguariúna, Paulínia, Pedreira, Santa Bárbara d´Oeste e Santo Antônio de Posse. A maior queda foi registrada nesse último município, onde o total caiu de 21 para dois de um levantamento para outro. Paulínia também teve uma queda expressiva, de 101 para 54. Em Valinhos, o número de indígenas mais que dobrou, saltando de 38 para 83. Por outro lado, houve redução entre os que identificaram como amarelos na Região Metropolitana de Campinas, com o total caindo de 26.573 para 23.675. De acordo com o Censo do IBGE, a maior parte dos integrantes desse grupo se concentra em Indaiatuba, 3.352. Ou seja, um em cada sete dos que se declararam de origem oriental na região (japonesa, chinesa, coreana etc.) mora na cidade.

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