VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA

Estudo realizado pela USP detecta caso raro de gambá com vírus da raiva

Animal foi encontrado morto no Bosque dos Jequitibás em 2021 com a mesma variante identificada em morcegos frugívoros

Isabella Macinatore/ [email protected]
26/02/2024 às 09:13.
Atualizado em 26/02/2024 às 09:13
Transmissão entre morcegos e gambás pode acontecer pela interação dos dois animais que competem por habitats (Alex Popovkin)

Transmissão entre morcegos e gambás pode acontecer pela interação dos dois animais que competem por habitats (Alex Popovkin)

Um estudo divulgado neste mês pela Universidade de São Paulo (USP) destacou uma descoberta significativa sobre o vírus da raiva em animais na região de Campinas. Segundo os resultados, um gambá encontrado no Bosque dos Jequitibás, em 2021, morreu devido ao vírus da raiva, partilhando a mesma variante identificada em morcegos frugívoros.

O animal em questão era uma fêmea de gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) e foi um dos 22 testados para raiva e outras doenças pela equipe no mesmo período. O estudo foi parte de um projeto de vigilância epidemiológica realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e o Centro de Controle de Zoonoses de Campinas.

A determinação do diagnóstico baseou-se nos sinais neurológicos da doença detectados no animal, indicando a forma que causa paralisia e que é transmitida por morcegos. Além disso, a detecção de partículas virais em outros órgãos sugeriu que a infecção estava em estágio avançado de disseminação pelo corpo do animal.

Além dos gambás, a equipe analisou 930 morcegos, dos quais 30 foram diagnosticados como portadores do vírus da raiva. Dentre os morcegos infectados, 56,7% pertenciam a espécies frugívoras do gênero Artibeus, enquanto pouco mais de 43% eram insetívoros, abrangendo três gêneros distintos.

Segundo o estudo, a transmissão entre morcegos e gambás pode se dar pela interação entre os animais, já que eles competem por habitats tanto naturais (como alto de árvores) quanto aqueles fornecidos por humanos (sótãos de casas, por exemplo). Em 2014, um caso de raiva em um gato foi notificado em Campinas. O vírus era de uma variante encontrada em morcegos. Assim como os gatos, os gambás também podem predar esses animais, o que indica que essa é a hipótese mais provável para a transmissão.

A descoberta, divulgada na revista científica "Emerging Infectious Diseases", foi resultado do trabalho realizado por Eduardo Ferreira Machado durante seu doutorado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

A Prefeitura de Campinas comunicou que não foram registrados casos de raiva em cães e gatos em 2023. No entanto, 20 morcegos testaram positivo para a raiva no ano passado. O diagnóstico foi realizado por meio da análise de morcegos mortos e de outros que apresentaram comportamento anormal, como voos durante o dia, exposição direta à luz ou movimentos incoordenados.

A médica-veterinária Marcela do Prado Coelho, coordenadora da Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) de Campinas, deu mais detalhes sobre a doença. "A raiva é uma doença transmitida por um vírus. Todos os mamíferos infectados têm potencial para transmiti-la aos seres humanos. Até o momento não há cura para a raiva, o que a torna letal em praticamente 100% dos casos. Por essa razão, há uma preocupação significativa com o controle da raiva", enfatizou Marcela. Em relação às formas de transmissão, a coordenadora explicou como ocorre a contaminação. O vírus pode ser transmitido pela saliva de mamíferos infectados, como cães, gatos, quatis, gambás, ouriços, vacas, cavalos, ovelhas e cabras. "A transmissão ocorre principalmente por mordeduras ou arranhaduras, mas também pode acontecer se a saliva de um animal infectado entrar em contato com feridas na pele humana."

Marcela chamou a atenção para a transmissão por meio dos morcegos, espécie que pode infectar mesmo sem feridas na pele ou mordidas do animal. O caso dos morcegos é particularmente preocupante, pois o simples contato direto com esses animais pode resultar na transmissão da raiva. Portanto, é essencial ter cautela ao lidar com morcegos."

A médica-veterinária falou sobre os sintomas e explicou que eles podem afetar diretamente o sistema neurológico dos seres infectados, resultado em comportamentos anormais, como andar incoordenado, salivar excessivamente e agir de forma agressiva. "É importante observar que os sintomas podem variar dependendo da espécie animal infectada. Por exemplo, nos cães podem ocorrer formas furiosas ou paralíticas da doença, com mudanças comportamentais significativas."

A coordenadora da UVZ fez algumas orientações para ajudar a população a evitar casos de contaminação. “É fundamental não entrar em contato direto com morcegos e outros animais silvestres, pois isso aumenta o risco de transmissão. Ao encontrar um animal silvestre aparentemente doente ou se comportando de maneira estranha, a recomendação é entrar em contato com a Unidade de Vigilância de Zoonoses para as devidas providências.”

A Prefeitura informou que não há campanha de vacinação contra a raiva desde 2019, pois não há mais circulação da variante canina do vírus. Entretanto, a Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) oferece atualização anual da vacina antirrábica para cães e gatos do município, mediante agendamento. É uma medida essencial para que Campinas continue sem registrar casos de raiva nesses animais. O contato pode ser feito de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, pelo telefone (19) 2515-7044. "A vacinação é uma medida crucial. Campanhas de vacinação foram realizadas até 2019 e 2020 para reduzir os casos da doença em Campinas. Atualmente, o foco está na atualização das vacinas para manter a cidade livre da variante do vírus. Os interessados em vacinar seus animais podem fazer o agendamento”, finalizou Marcela.

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