Acusações indicam um esquema de propina organizado por guincheiros para liberar carros do pátio municipal; caso foi mostrado em reportagem do Correio Popular, inclusive com vídeo

Caminhão-guincho no pátio da Emdec, no Jardim São João: vídeo obtido pelo Correio mostra usuário pagando R$ 70 para liberação de veículo ( Cedoc/RAC)
O presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) e secretário de Transportes, Carlos José Barreiro, negou na terça-feira (21) em entrevista ao Correio que vá abrir um processo administrativo para investigar o caso de pagamento de propina para liberação de veículos no pátio municipal. Reportagem do Correio publicado no último sábado denunciou um esquema ilegal montado por guincheiros credenciados pela Prefeitura para liberar veículos do pátio de forma irregular, depois de o motorista pagar R$ 70,00. Além disso, o número de carros guinchados na cidade por estarem estacionados em locais proibidos mais do que triplicou no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2014 (de 300 para 972). Na terça, mais um motorista ouvido disse ter se sentido lesado pelo valor cobrado pelo guincho da Emdec.Barreiro afirmou que, para apurar os casos de pagamento de propina, precisaria de uma denúncia formal de um cidadão. A reportagem publicada, com dois casos e vídeo que comprova a prática fraudulenta, não seria suficiente. O presidente afirmou ainda que pediu apenas uma averiguação, sem conotação oficial, para se informar dos fatos. “Se descredenciamos a empresa, ela pode ir à Justiça. Para isso nós temos que ter provas cabais de que ela cometeu a arbitrariedade”, disse o secretário. Questionado se o vídeo obtido pelo Correio não poderia ser uma denúncia, Barreiro respondeu: “Nós não pautamos a nossa forma de trabalhar pelas notícias da imprensa, pautamos pelas constatações que a população faz”. Barreiro explicou também que caberia à Polícia Militar (PM) fiscalizar a prática ilegal, uma vez que os guinchos que fazem o transporte de veículos saem do pátio precisando de reparos não estão mais a serviço da Emdec. O secretário disse que quem faz a liberação dos carros é o Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), todos os automóveis que são retirados do pátio devem estar com as taxas em dia, com licenciamento e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) pagos, por exemplo. No entanto, alguns condutores ainda precisam fazer pequenos reparos, como trocar pneus ou lâmpadas de faróis. Por isso, os carros são levados até a casa do motorista, ou oficina, rebocados. “A partir do momento que o motorista sai do pátio com o carro para sua casa com um guincheiro e há a combinação fraudulenta de liberar o carro na esquina, nós não temos gestão sobre isso e nem a responsabilidade é nossa”, disse. Barreiro afirmou, no entanto, que quem flagrar o ato pode denunciar à Emdec, que irá acionar a PM. Os caminhões que prestam serviço para a Administração também podem fazer viagens particulares com os carros guinchados, segundo o secretário, desde que retirem do veículo a placa imantada que diz “a serviço da Emdec”.A Emdec publicou na segunda-feira a lista de oito empresas que haviam sido descredenciadas em julho, pelo fim do prazo do contrato. Hoje, as mesmas empresas foram publicadas no Diário Oficial como as firmas contratadas para fazer novamente o serviço, com uma empresa a mais. São elas: Osvaldo Costa Junior Guincho, Skilo Guincho, JV Auto Socorro e Transporte, A.S.L. Serviços de Guinchos, Auto Robguincho Transportes e Guinchos, Hermínio Pereira, Village Locação de Caçambas, Souza Alves Truck Service Ltda e a Pereira Pierobon Guinchos.SinalizaçãoUm comerciante, que preferiu não se identificar, disse que foi guinchado há menos de um ano. No entanto, ele precisou trocar os faróis e os pneus no próprio pátio. “Eles não deixaram eu sair com o carro antes de ele estar 100%. Agora eles mudaram o sistema? É estranho e eu acho que é somente para beneficiar os guinchos.” O homem disse ter parado em uma rua do Centro que não tinha placa de “proibido estacionar”.Barreiro garantiu que todos os locais onde veículos são rebocados estão sinalizados. Ele explicou que a Secretaria de Transportes atualizou e revitalizou a sinalização das principais vias de Campinas. “A pessoa que é multada tem que alegar alguma coisa. Mas em todos os casos havia sinalização sim.” PropinaO Correio teve conhecimento de dois episódios em os guincheiros receberam propina. Em um dos casos, um vídeo foi feito pelo próprio condutor. O comerciante, que não quis se identificar, teve o carro guinchado há um mês após parar por 30 minutos em local irregular no Centro de Campinas. Quando foi buscar o veículo, o homem foi informado que não poderia sair conduzindo o veículo porque seus pneus estavam carecas. “O cara me falou do esquema quando eu ainda estava dentro da Emdec. Paguei R$ 70 para ele me deixar a alguns quarteirões do pátio”, disse. O pátio da Emdec fica no Jardim São João, às margens da Rodovia Santos Dumont (SP-075).