Entidade e moradoras se aliaram para combater a fome na comunidade Menino Chorão
Folhas e legumes da horta e os cereais, raízes e frutas da agrofloresta são colocados em caixas para doação (Beatriz Ataidio)
Quando Maria do Carmo Pereira de Souza, de 52 anos, percebeu que mulheres e crianças estavam sem comida na pandemia na comunidade Menino Chorão, buscou a ajuda de entidades para que a horta comunitária que mantinha pudesse levar alimentos para essas famílias. Eram os primeiros meses da fria sombra que o vírus da covid-19 levava à comunidade. Comovida pela fome e a insegurança alimentar, a Associação Pertim se aliou a Maria do Carmo e às mulheres moradoras da região, encabeçando um projeto para revitalizar a área. Hoje, o espaço de mil metros quadrados dá lugar a uma ampla agrofloresta e já garante a produção de 100 cestas mensais de produtos orgânicos que alimentam 100 famílias no bairro.
"Percebi que a horta seria uma solução para essas mulheres quando visitei uma casa e senti um cheiro delicioso de comida. Lembro que uma criança me pegou pela mão e me levou até a panela. A mãe, então, me disse que estava com um pouco de vergonha, pois tinha pegado pimentões e temperos de minha horta para cozinhar com fubá, a única coisa que ainda tinha em casa. Vi que era a hora de agir e garantir alimento para essas pessoas", conta Maria, que é conhecida na comunidade como Carmem.
A parceria com a Associação Pertim foi o que auxiliou o bairro a sanar esse gargalo. A horta já existia há cerca de cinco anos e era mantida pelos moradores do Menino Chorão. Naquele período, ela conseguia produzir até 25 cestas mensais de produtos orgânicos, que variavam de acordo com a estação.
O manejo do solo era feito pelos próprios moradores que, sem estudo, faziam testes em pedaços de terra diferentes para ver em qual deles os alimentos se desenvolviam mais. Com a chegada da Associação Pertim, a comunidade teve aula de agroecologia e transformou o pedaço de terra em uma agrofloresta, que produz uma variedade de alimentos.
"São muitas pessoas que trabalham na horta. A história da nossa comunidade sempre foi de uma comunidade unida. Uma comunidade, a princípio, de mulheres que buscavam uma forma de se autossustentar", reforça Carmen.
A ajuda proporcionada pela Associação Pertim possibilitou que mais pessoas fossem alcançadas pela horta. Com o aumento da produção, os alimentos também passaram a ser vendidos. Parte é doada para alimentar a comunidade e parte é comercializada para arcar com os custos de manutenção da própria horta e da agrofloresta, que envolvem, sobretudo, o uso da água para irrigação.
Projeto para o futuro
A parceria entre a Associação Pertim e os moradores do Menino Chorão garantiu uma verdadeira transformação na comunidade, que encontra no manejo sustentável do solo uma forma de mudar vidas.
Hoje, na área, funcionam dois espaços produtivos destinados à segurança alimentar do bairro: a horta, onde são produzidas folhas e legumes, e a agrofloresta, onde são plantados cereais, raízes, e frutas.
"Somos uma associação sem fins lucrativos, unida pelo sonho de solucionar um problema central da atualidade: que todos possam recuperar a autonomia sobre si mesmos, produzindo localmente e de forma regenerativa tudo o que for essencial para uma existência feliz e abundante. Investigamos as diversas formas de trazer autonomia para grupos de pessoas, em estreita aliança com os serviços de regeneração ambiental", explica Juliana Junqueira, uma das criadoras da Associação.
O projeto visa quatro etapas. A primeira é voltada para a segurança alimentar, garantindo alta produção de alimentos por metro quadrado devido ao plantio consorciado de plantas. A segunda, de agricultura regenerativa, visa a restauração do equilíbrio ecológico por meio da regeneração de solos degradados, ciclagem de nutrientes, captura de carbono e restauração de nascentes. A terceira busca a gestão comunitária da horta, com organização da comunidade para o plantio e seus frutos, com possibilidade de geração de renda para os cuidadores da floresta. A quarta e última é voltada ao futuro, a fim de garantir a manutenção do espaço, para que perdure por décadas.
"O escopo sempre foi levar alimentos a quem precisa e, dentro do Menino Chorão, a gente conseguiu uma área para fazer o plantio. Primeiro, era um desejo da própria Carmem. Ela já tinha um plantio ali mais singelo e a gente começou ampliando a horta. Com ajuda de doações, conseguimos implantar a primeira agrofloresta, que mistura agricultura com a lógica da floresta, diversidade e abundância", detalha Juliana.
Embora a parceria com a Associação Pertim tivesse sido criada em abril de 2020 e tivesse auxiliado a comunidade durante os meses seguintes, foi em outubro que a agrofloresta começou a ser erguida. Agrofloresta é um conjunto de técnicas que reúne agricultura e preservação ou recomposição do solo.
"Essa agrofloresta durou um ano. Após isso, ela sofreu um incêndio e tivemos que recomeçar com o apoio de uma campanha nas redes socais para colocá-la em pé novamente", detalha Juliana.
Desafios
A Associação obteve ajuda e, junto com a comunidade, conseguiu reerguer a área em seis meses, por meio de mutirões quinzenais. Mas no início de setembro deste ano, novamente ela foi atingida por um incêndio. Para a comunidade de periferia, atingir a agrofloresta é mais do que um impacto ambiental, é atingir a segurança alimentar de uma região carente e que sofre diante de inúmeras vulnerabilidades. A agrofloresta, ali, representa a autonomia de uma região.
Neste mês, Carmem e a equipe da Pertim conversaram sobre os desafios do futuro do projeto.
Carmem mostrou à reportagem as novas mudas frutíferas que chegaram e que estão sendo novamente plantadas. Ela ficou feliz ao ver que um pequeno pé de amora voltava a crescer no meio do terreno que havia sido queimado. "Isso me dá esperança", disse. "Vamos colocar esta floresta em pé novamente!"
De acordo com Juliana, foi desenhado um projeto com um grupo de pessoas da comunidade para recuperar a área, mas neste momento ele se voltará principalmente à produção da horta.
"A gente acredita que esse incêndio possa ter sido criminoso", pondera. "Foi registrado um boletim de ocorrência e, coletivamente, estamos decidindo o que fazer com a área. Com tudo isso, a Associação Pertim busca agora novos territórios para expandir. Para não parar a produção no Menino Chorão, vamos fazer um mutirão no dia 22 (hoje). Mas seguimos em movimento, visitando territórios novos e querendo receber agricultores e agricultoras da região que tenham interesse em receber um plantio. Estamos querendo esses contatos e levar adiante essa mudança."
Para Carmem, que atua diretamente no apoio às famílias do Menino Chorão, a horta e a agrofloresta dão a possibilidade de que o alimento saudável entre nas casas de quem, muitas vezes, não tem o suficiente para comprar no mercado. Ela acredita que a ação é revolucionária e que, assim, como toda ideia que visa o bem da população, precisa ser multiplicada.