Estudo revelou que campineiros pagam em média R$ 47,78 para alimentação completa, o que inclui prato principal, bebida não alcoólica, sobremesa e café
Vale-refeição é aliado importante do trabalhador, uma vez que preserva o uso do salário para outros fins; em Campinas, quem compra apenas o prato principal durante 22 dias no mês gasta, em média, R$ 763,40, o equivalente a 21,5% do salário médio de quem vive no Sudeste (Alessandro Torres)
Alimentar-se fora de casa em Campinas está mais cada vez mais caro. Segundo uma pesquisa encomendada pela Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), divulgada nesta semana, o preço médio da refeição completa fora do lar na cidade subiu 11% em relação ao valor do ano passado, de R$ 42,52 para R$ 47,78. Ainda assim, a média na cidade em 2024 é inferior aos valores praticados em nível estadual, de R$ 57,09, e federal, R$ 51,61.
O estudo da ABBT, também realizado em outras 50 cidades do país, considerou que uma refeição completa é composta por um prato principal, uma bebida não alcoólica, sobremesa e café.
Na avaliação do diretorpresidente da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador, Lúcio Capelletto, a realidade em Campinas é um reflexo do que está acontecendo no resto do Brasil. Foram identificados vários aumentos de custo de alguns insumos que compõem os pratos dos cidadãos, motivados por mudanças climáticas. “Nós tivemos, na época que a pesquisa foi feita, as enchentes históricas no Rio Grande do Sul e a seca antecipada nas regiões Norte, Nordeste e até na Centro-Oeste. Com isso, por exemplo, o arroz subiu 30% neste ano. As batatas, verduras e legumes subiram 44% no mesmo período. Esses foram os insumos diretos”, explicou.
Ainda de acordo com Capelleto, também foram registrados aumentos nos chamados insumos indiretos, como no caso do aluguel (14%) e dos preços da gasolina (10,7%) e do diesel (12%). "Como usamos as malhas rodoviárias como principal meio de transporte para mercadorias, os combustíveis também influenciaram os preços finais para os consumidores."
IMPACTOS
A pesquisa também buscou mostrar o impacto do preço da alimentação fora do lar sobre o salário médio dos brasileiros, considerando os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no primeiro trimestre deste ano. Levando em conta apenas a refeição principal, sem incluir a bebida, a sobremesa e o café, o brasileiro que vive na Região Sudeste gasta, considerando 22 dias úteis de cada mês, R$ 39,06 por prato, um total de R$ 859,32. Como o salário médio de quem vive no Sudeste é de R$ 3.547,00, o índice do investimento é de 24,2%.
Já em Campinas, o valor médio de cada prato é de R$ 34,70, um total de R$ 763,40 ao mês. Usando como base o salário médio da Região Sudeste, o índice do gasto é de 21,5%. Ainda de acordo com Capeletto, a utilização do vale-refeição, uma das modalidades do Programa de Alimentação ao Trabalhador (PAT), de responsabilidade federal, é fundamental para preservar os salários dos trabalhadores. Ele lembrou que o vale-refeição é um adicional para o assalariado, o que faz com que o salário seja poupado e não utilizado para fins alimentícios durante os horários de trabalho.
A pesquisa apontou ainda que o trabalhador usuário do vale-refeição consome 43% mais feijão, arroz, salada e 33% mais carne quando comparado com aquele que não possui esse benefício. Para a ABBT, o resultado da pesquisa reforça a importância do programa, uma vez que propicia, e até induz, a compra de alimentos mais saudáveis e com qualidade nutricional. “Graças ao PAT, o empregador que concede os benefícios para o trabalhador se alimentar tem isenção fiscal, por exemplo. É algo que é vantajoso para todos os envolvidos”, lembrou Lúcio Capelletto.
O Programa de Alimentação ao Trabalhador é um programa governamental de caráter social, criado em 1976 pela Lei Federal nº 6.321. As empresas que aderem ao PAT conquistam isenção de encargos sociais e dedução fiscal. Atualmente o PAT beneficia mais de 22 milhões de trabalhadores de aproximadamente 300 mil empresas. Uma rede conveniada de 800 mil estabelecimentos em todo o Brasil atende aos trabalhadores beneficiados.
EXEMPLOS
O encarecimento dos insumos, e consequentemente da refeição, levou os responsáveis por restaurantes em Campinas a tentarem renegociar os contratos com os fornecedores. Com o intuito de manter a clientela, alguns admitem que precisaram segurar parte dos reajustes e não passar para os consumidores. Ao mesmo tempo, quem costuma se alimentar fora de casa começou a procurar opções de locais mais baratos para comer.
Os consumidores que se alimentam fora de casa em Campinas também opinaram sobre o assunto. Eles disseram à reportagem que perceberam o encarecimento nos preços das refeições fora do lar e pensaram em alternativas. A mais óbvia, na opinião de Daniel Araújo, que trabalha como analista de marketing em Campinas e em Hortolândia, é tentar ganhar mais dinheiro. “Somente assim para acompanharmos os aumentos de preços, não apenas nas refeições fora de casa, mas em todos os lugares. O fato é que ainda não voltamos a ter os valores que eram praticados pelo mercado antes da pandemia de covid-19, e acho difícil que eles voltem.”
Fernando Gonçalves, que trabalha com Daniel Araújo, comentou que é possível procurar por locais mais baratos para se alimentar, mas que está cada vez mais difícil. “Comer em Hortolândia fica mais barato do que em Campinas, por exemplo. A situação está cada vez mais complicada, mas o que não dá para fazer é reduzir a quantidade de alimentação, fica difícil.”
SOBRE O ESTUDO
O estudo, realizado há mais de 20 anos, foi feito de março a maio de 2024 em 4.502 estabelecimentos comerciais em 22 estados, divididos pelas cinco regiões, e no Distrito Federal. No total foram pesquisadas 51 cidades, com 5.640 preços coletados.
A pesquisa, encomendada pela ABBT, foi feita pela empresa Mosaiclab, especialista em estudos de mercado. Para calcular o preço médio das refeições, a pesquisa considerou o valor médio das quatro categorias mais comuns na alimentação fora de casa do Brasil, sempre de acordo com o prato principal, bebida, sobremesa e café. O estudo completo está disponível no site www.abbt.org.br/.
A Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador é uma organização associativa e representa a união de interesses das empresas facilitadoras do sistema de refeição/alimentação-convênio credenciadas no Programa de Alimentação do Trabalhador, podendo ainda representá-las em assuntos concernentes ao auxílioalimentação e ao vale-cultura, objeto do Programa de Cultura do Trabalhador.