Ao longo de quase um século, o jornal consolidou-se como guardião da memória campineira

Visitantes conferem a exposição com algumas das principais capas do Correio Popular publicadas nos últimos 98 anos; jornal transformou-se em patrimônio de Campinas e região (Kamá Ribeiro)
Álvaro Ribeiro atravessou a história de Campinas como homem público, médico, educador e empreendedor, mas foi no jornalismo que deixou sua marca mais duradoura. Filho de Antônio Joaquim Ribeiro e Maria Augusta, Álvaro nasceu em 1876 e desde cedo se destacou pelo prestígio e pela coragem. Atuou como vereador por sete legislaturas consecutivas e esteve à frente de campanhas contra as epidemias que atingiram a cidade no início do século XX. Em 4 de setembro de 1927, levou às ruas o Correio Popular, jornal que nasceu moderno e ambicioso, com redação estruturada e tecnologia de ponta para a época. Hoje, 98 anos depois, o veículo que fundou permanece como guardião da memória de Campinas e símbolo de permanência no jornalismo brasileiro.
A manchete de capa do dia seguinte à sua morte, em 14 de agosto de 1929, sintetizou a importância de sua trajetória: “Álvaro Ribeiro dorme seu derradeiro sono de herói”. O jornalista e historiador campineiro Júlio Mariano registrou a dimensão da iniciativa de fundação do Correio Popular: “Coube a Álvaro Ribeiro a iniciativa revolucionária no interior de instalar na Princesa D’Oeste a imprensa moderna. Homem público a quem a imprensa era uma necessidade premente, como complemento à sua tribuna política de vereador, Álvaro Ribeiro lançou à publicidade a 4 de setembro de 1927 o Correio Popular, servido desde o seu primeiro número de máquinas linotipos para a composição e prelo rotativo para o rodar de suas edições. Contou desde logo com uma redação completa, com um redator próprio para cada uma de suas seções, que eram várias, dando-se ao luxo de possuir mesmo um secretário e um subsecretário e um redator exclusivo para as sociais”.
Ao completar 98 anos, o Correio Popular mantém-se como testemunha privilegiada da história de Campinas e da região. Desde a primeira edição, publicada em 1927, o jornal acompanhou transformações políticas, econômicas e sociais. Foi a voz de uma cidade que se industrializava, crescia em população e se firmava como polo de desenvolvimento no interior paulista. Antes mesmo do Correio, Álvaro Ribeiro já havia deixado sua marca no jornalismo local ao fundar, em 1912, o Diário do Povo, outro importante título da imprensa campineira.
Entre os fatos marcantes, o jornal registrou com destaque, em janeiro de 1930, a inauguração dos primeiros telefones automáticos na cidade, e, meses depois, a chegada do primeiro filme sonoro. Ainda naquele ano, acompanhou a inauguração do Teatro Municipal de Campinas, com a ópera O Guarani, e noticiou a vitória da revolução liderada por Getúlio Vargas. Em 9 de julho de 1932, publicou matérias sobre o início da Revolução Constitucionalista, e durante os anos de 1939 a 1945 acompanhou os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, que também mobilizava os campineiros.
Em 1944, uma das páginas do jornal trouxe a notícia do incêndio no Cine República. Sete anos depois, em setembro de 1951, o jornal relatou a tragédia do desabamento do teto do Cine Rink, localizado no Centro, que matou cerca de 40 pessoas e feriu mais de 400 durante uma matinê lotada. O episódio marcou a memória da cidade e consolidou o papel do Correio Popular como veículo de registro da dor e da solidariedade comunitárias.
A política nacional e local também sempre esteve entre os temas centrais. O jornal noticiou a posse do primeiro prefeito campineiro eleito após o Estado Novo, Miguel Vicente Cury, em 1948. Em 1950, publicou a eleição de Getúlio Vargas e, em 1954, estampou em suas páginas o suicídio do presidente no Palácio do Catete. Dois anos depois, destacou o fim do Estado de Sítio e a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart. Em fevereiro de 1957, informou sobre o início da construção de Brasília, enquanto em 1959 registrava a instalação da Escola Preparatória de Cadetes e, no ano seguinte, a inauguração da pista do Aeroporto Internacional de Viracopos.
Nos anos 50, o Correio Popular exerceu um papel que ultrapassava a função de noticiar: liderou campanhas de interesse público. Sob a coordenação do redator-chefe Luso Ventura, deflagrou em 1952 uma mobilização popular pela criação da Faculdade de Medicina de Campinas. A iniciativa tornou-se o embrião da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fundada em 1962, com aula inaugural em 1963 no Teatro Municipal. O episódio revela a capacidade de o jornal mobilizar a opinião pública em favor de causas estruturantes.
Na década de 60, o jornal fez ampla cobertura do mais grave acidente aéreo ocorrido na cidade, em 23 de novembro de 1961, quando um jato Comet 4, das Aerolíneas Argentinas, caiu logo após decolar de Viracopos, vitimando 44 pessoas. Anos mais tarde, acompanhou o crescimento da cidade e as transformações urbanas que moldaram o perfil metropolitano de Campinas.
A história recente também está marcada em suas páginas. Em 1986, noticiou o incêndio do supermercado Eldorado, um dos mais movimentados da cidade. Em 1996, a morte do prefeito José Roberto Magalhães Teixeira. Em 2001, a tragédia que vitimou o prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho, assassinado a tiros, e no dia seguinte os atentados terroristas contra as torres gêmeas em Nova York. Em 2010, relatou a implosão da rodoviária de Campinas, evento que reuniu milhares de pessoas no Centro.
Assim como em outras tragédias que marcaram Campinas e foram registradas ao longo das décadas, o Correio Popular também acompanhou de perto o acidente mais recente, ocorrido em 10 de agosto de 2024. Naquele dia, um avião da Voepass que havia decolado de Cascavel caiu sobre a cidade de Vinhedo durante a aproximação para Guarulhos, a menos de 30 minutos do destino final. Todas as 62 pessoas a bordo morreram. O episódio, considerado a maior tragédia aérea da história recente do interior paulista, mobilizou equipes de resgate, autoridades federais e especialistas em aviação, além de deixar forte impacto em Campinas e na região metropolitana. O caso segue em investigação pelas autoridades aeronáuticas.
Ao longo de quase um século, o Correio Popular consolidou-se como guardião da memória campineira. Mais do que noticiar, ofereceu aos leitores o registro contínuo de uma cidade em transformação, preservando fatos e sentimentos de cada época. Álvaro Ribeiro, que um dia sonhou com a modernização da imprensa local, não viveu para ver a consolidação do projeto que criou, mas sua herança está impressa em cada página publicada ao longo desses 98 anos. Campinas, que acompanhou o nascimento do jornal, segue tendo no Correio Popular um espelho de sua própria história.
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