José Patrick da Silva Barbosa, de 19 anos, morreu domingo (24) no Jardim Santo Antônio

Dezenas de amigos e familiares se juntaram na tarde de ontem, em frente ao Cemitério dos Amarais, para se despedir de Patrick; momento foi marcado pela manifestação de motoboys que, juntos, aceleraram as motocicletas como homenagem ao jovem (Kamá Ribeiro)
O motoboy José Patrick da Silva Barbosa, de 19 anos, morreu no último domingo (24) depois de ser atingido no pescoço por uma linha com cerol enquanto circulava de motocicleta pelo Jardim Santo Antônio, a caminho do trabalho. Esse foi o segundo acidente fatal provocado por cerol no mesmo bairro nos últimos sete meses, de acordo com o motoboy e amigo da vítima, Matheus André Dias de Oliveira, que cobrou maior fiscalização do poder público para fazer valer a lei municipal de 2008 que proíbe o uso e comércio do material cortante. Segundo a Guarda Municipal (GM) de Campinas, nesta época do ano os acidentes com cerol aumentam devido à condição propícia do tempo para a soltura das pipas, e o crescimento dos casos chega a 50% em julho, por causa do período de férias escolares.
Matheus e dezenas de amigos e familiares se juntaram na tarde de ontem (25), em frente ao Cemitério dos Amarais, para se despedir de Patrick. O momento foi marcado pela manifestação de motoboys que, juntos, aceleraram as motocicletas como uma homenagem ao jovem. “Patrick era um menino trabalhador que não procurou o perigo. Morreu por causa de terceiros que não tiveram responsabilidade. Nós não temos segurança ao sair nas ruas. Ele não foi o primeiro e, infelizmente, não será o último”, lamentou Matheus ao contar que Patrick foi atingido por uma linha presa a um poste.
Ele morreu quase que instantaneamente, acrescenta. Em poucos minutos depois de ser atingido, ele caiu da moto e correu para pedir ajuda, mas não deu tempo. O motoboy cobrou uma maior fiscalização para acabar com o comércio de cerol no município, pois soltar pipa deveria ser uma ação de lazer e não uma atividade capaz de ceifar vidas.
Segundo o amigo, Natanael Ribeiro, a lei que proíbe o uso e comércio de cerol não funciona na cidade e, por isso, o uso da antena corta-pipa deveria ser obrigatório para os motociclistas, assim como o uso do cinto de segurança é obrigatório no carro.
“Eles devem impor o uso da antena ou proibir a soltura de pipa na cidade, mas como vão fiscalizar isso? É uma situação perigosa e difícil”, observou Natanael. Segundo o subcomandante da Guarda Municipal de Campinas, Edilson da Silva, de janeiro a abril deste ano foram registradas 30 denúncias de uso de cerol na cidade e, em todo 2025, foram em torno de 170. “As pessoas devem entrar em contato pelo 153 e informar o endereço onde a linha com cerol é comercializada ou o ponto em que ela está sendo utilizada”, informou Edilson.
Nas ações de flagrante do comércio ou uso ilegal do cerol, é aplicada uma multa de R$ 5.090, que, em caso de reincidência, tem o valor dobrado. As denúncias são compartilhadas com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Vigilância Sanitária, acrescenta, que são os órgãos responsáveis pela checagem da comercialização clandestina do material cortante. Nesta época do ano, os casos aumentam por causa do tempo propício às rajadas de vento ideais para empinar pipa. Em julho, informa Edilson, as denúncias crescem em torno de 50% por causa do período de férias escolares e, ao longo do ano, elas se concentram nas regiões do Ouro Verde e Campo Grande.
“Soltar pipa é permitido e as pessoas podem se divertir com essa atividade, o que não é autorizado é o uso da linha cortante. Todos os acidentes que acontecem por causa do cerol são graves, se não fatais”, ressaltou o subcomandante. Há competições de pipa pela cidade em que o objetivo é um cortar a linha do outro. Assim como aconteceu com Patrick, acrescenta, normalmente as vítimas não são atingidas em meio a essas atividades. Normalmente, elas são feridas pelas linhas cortadas que ficam presas em árvores e postes.
“As linhas causam cortes profundos e de maneira rápida, sem apresentarem uma resistência ao material. Elas cortam as peças de plástico dos carros, por exemplo; imagina o pescoço dos motociclistas, que é uma área sensível. Elas cortam como se fossem uma navalha”, observou o subcomandante. Em casos de flagrante, a GM apreende o material cortante, que é encaminhado para o depósito público municipal. Quando o responsável pelo uso ou comércio do cerol tem menos de 18 anos, os pais são responsabilizados pela atividade.
Nos casos em que o comércio ilegal é flagrado em estabelecimentos regularizados, pontua Edilson, o local perde o alvará de funcionamento, além de ser multado. “Infelizmente, nos últimos anos, o uso das linhas com cerol tem se tornado cada vez mais frequente”, lamentou.
PREVENÇÃO
De acordo com o pesquisador e professor do curso de Engenharia de Transportes da Unicamp, Luiz Vicente Figueira de Mello, os motociclistas estão mais sujeitos aos acidentes com linhas de cerol do que os ciclistas, devido à velocidade em que eles transitam pelas ruas. “É importante o uso da antena corta-pipa e de vestimenta adequada para proteger a região do pescoço. Vestir jaquetas e usar o capacete fechado tende a diminuir os riscos relacionados ao impacto com a linha cortante”, comentou Luiz.
O uso da antena deveria ser indispensável, acrescenta, por ser a forma mais efetiva de proteção devido à lâmina instalada no topo, que, quando atingida pela linha, é capaz de cortá-la automaticamente e prevenir o impacto direto. A antena, portanto, se faz fundamental para a proteção efetiva dos motociclistas e deve ser encaixada no guidão da moto (do lado esquerdo ou direito), para antecipar a possível colisão.
A sua forma é semelhante a uma antena de rádio, em que a lâmina com formato de anzol no topo é o objeto cortante. “Soltar pipa é uma prática cultural e, durante o período de férias, a tendência é aumentar, principalmente, nos bairros mais afastados e em áreas livres que permitem o manuseio do brinquedo em meio ao vento. É preciso ter cuidado e se divertir sem colocar ninguém em risco”, concluiu.
ANTENAS CORTA-PIPA
Segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), ações periódicas de distribuição de antenas corta-pipa são realizadas na cidade, como atividades educativas para motociclistas e em parceria com as concessionárias que atuam nas rodovias. “Entre 2022 e 2026, foram quase 11 mil antenas corta-pipa distribuídas, sendo 1,3 mil somente até maio deste ano”, informou a nota. Durante a campanha “Maio Amarelo” deste ano, que visa à redução de acidentes e mortes no trânsito, em torno de 450 antenas foram distribuídas no município em abordagens realizadas na Ceasa, na Lix da Cunha e no Ouro Verde.
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