ENTREVISTA

Carlos Sampaio sustenta bandeira contra corrupção

Em entrevista ao Correio, deputado afirma que manterá a sua luta contra o foro privilegiado

Da Redação
19/03/2023 às 09:10.
Atualizado em 19/03/2023 às 09:11
Deputado Carlos Sampaio em visita ao Correio Popular, onde concedeu entrevista (Alessandro Torres)

Deputado Carlos Sampaio em visita ao Correio Popular, onde concedeu entrevista (Alessandro Torres)

O deputado Carlos Sampaio (PSDB) deverá ser o novo ouvidor-geral da Câmara Federal. Em seu sexto mandato para esse cargo, ele diz estar empolgado com a nova missão, que lhe colocará como interface da população e outros parlamentos com a Casa. O trabalho pode resultar em propostas que ajudem a aprimorar o relacionamento entre a sociedade e o Legislativo. Promotor público de formação, ele diz que manterá sua bandeira de combate à corrupção, em defesa da prisão em segunda instância e fim do foro privilegiado.

Esse trabalho será desenvolvido em conjunto com outras áreas onde pretende ampliar suas ações, como defesas das áreas de assistência social e educação. Sampaio também se coloca como oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Sila (PT), a quem critica por suas declarações neste início de governo. "Se pudesse dar uma sugestão a ele, seria que falasse menos e fizesse mais. Todas as vezes que fala, gera um problema para o Brasil enorme", diz o deputado.

Nesta entrevista, a convite do presidente-executivo do Correio Popular, Ítalo Hamilton Barioni, ele também fala sobre seu futuro político, avalia as composições partidárias do país e o relacionamento com prefeitos da região de Campinas e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). 

O senhor é de Campinas?

Eu nasci em Campinas, mas eu pai era promotor de Justiça e sai muito cedo, com 5 anos, e fomos para várias cidades do interior, Santa Adélia, Tambaú, Santa Fé do Sul, Osasco e depois voltamos para Campinas. Aí já estava na 5ª série, com 11 anos, e comecei a estudar no Pio XII. Terminado o colegial, entrei na PUC, Faculdade de Direito, me formei e comecei a fazer cursinho preparatório para o Ministério Público.

A magistratura não passou por seu foco? 

Não. No quarto ano da faculdade já tinha vontade de prestar concurso para o Ministério Público. Depois de formado, prestei para o Ministério Público de Minas Gerais, passei e me tornei promotor com 23 anos de idade. Fiquei oito meses em Cabo Verde, no Sul de Minas. Depois, abriu concurso em São Paulo e entrei. Primeiramente, assumi a comarca de Santa Adélia, acumulando Catanduva e Pindorama. Depois, vim para Indaiatuba e, em 1989, vim para Campinas, onde fui promotor do júri. Foi como promotor do júri que acabei tendo uma certa exposição pública. Foi quando, Magalhães (ex-prefeito José Roberto Magalhães Teixeira), que era muito amigo de meu pai, procurou por ele perguntando se eu não queria concorrer a vereador, o que realmente não estava no meu horizonte.

Essa experiência política o senhor não tinha tido nem na faculdade, Diretório Acadêmico, Diretório Central dos Estudantes?

Nada, zero. Sempre fui uma pessoa muito tranquila com os amigos, mas publicamente muito tímido. Me desinibi no Tribunal do Júri, onde todo mundo lhe vê. Acabei aceitando o desafio de concorrer ao lado de Magalhães como vereador e fui eleito. Dois anos depois, já sai a deputado estadual, em 1996, e ganhei. Assumi como deputado estadual, fui reeleito e agora estou no meu sexto mandato. Devo tudo isso a Campinas e região.

Quando o senhor entrou no Ministério Público, ele tinha uma envergadura e determinada proeminência. Isso mudou muito com o passar do tempo. Como o senhor vê isso, evolui bem ou com deficiências?

O Ministério Público é uma das profissões mais bonitas que temos no país, o promotor de Justiça. Aprendi com o meu pai que o promotor tem que ter nascido com o dom de defender. Eu me tornei promotor de Justiça para defender a sociedade, a Constituição, o consumidor, mas nunca para acusar. Meu pai dizia que quem nasceu para acusar só pode ser uma pessoa infeliz. Eu concordei com ele e fiz toda a minha carreira pautada na defesa de algo, nunca lutava contra alguma coisa. Naquela época, quando o promotor de Justiça ia para uma cidade, ele usava seu conhecimento para ajudar o prefeito a acertar, o vereador a acertar. Hoje, infelizmente, eu não vejo muito promotor com essa predisposição. Ao contrário, eles agem para punir quem errou e não para fazer para evitar que tivesse errado, usando seu conhecimento. Talvez cheguemos a um dia em que o Ministério Público use seu conhecimento para ajudar o bom gestor e não para única e exclusivamente processá-lo por erros havidos. Se erro houve de má-fé, se praticou crime, evidente que tem que ser condenado por seus atos, mas a gente tem que partir de uma premissa de que o promotor pode usar seu conhecimento para ajudar o gestor e não somente punir. Essa é a minha visão de Ministério Público, mas hoje os promotores não pensam dessa forma, alguns, ainda sim.

Isso também ocorre no âmbito federal?

No âmbito federal, o Ministério Público também é uma entidade muito respeitada, mas o Supremo (Supremo Tribunal Federal), de fato, em alguns aspectos, acabou se valendo da sua condição de Suprema Corte para tirar alguns dos poderes do Ministério Público, basicamente no que tange o poder de denunciar alguém ou de investigar alguém. O Supremo tomou para si esse poder. Acho que nesse ponto o Supremo errou e espero mesmo que o Ministério Público volte a ter o seu papel de proeminência nacional, no sentido de ser realmente o fiscal da lei, aquele que vai dizer quem praticou ou não um crime e não deixar isso para a Corte que julga. Ela não investiga, ela não processa, ela julga. Não é possível ela fazer as vezes do Ministério Público. Nesse ponto, acho que é um erro e precisamos corrigir isso.

Você é favorável que o ministro do Supremo tenha mandato?

Sou favorável. Vamos discutir que período, que mandato, quanto tempo, mas sou favorável ao mandato para que não fique toda a vida na Suprema Corte sem que haja uma renovação. Acho que o Ministério Público voltará a ter o seu papel de proeminência se voltarmos, efetivamente, a ter um diálogo com o Executivo e o Judiciário.

Nesse ponto de mandato para o STF, como as indicações são do presidente da República, esse mecanismo não criaria o risco de interferência de um poder no outro, a partir do momento que o presidente poderia indicar pessoas ligadas a ele que atenderiam os seus interesses?

Não, ao contrário. Ao fixar um mandato, você faz valer o sistema de freios e contrapesos. Terminado esse período, ela deixa a Suprema Corte. Não há interferência alguma. Ao contrário, acho que é uma forma de harmonizar que outros presidentes também possam fazer indicações apreciadas pelo Senado Federal.

Até a punição, quando é necessária, tem que ter um caráter pedagógico. À vezes, parece que é a punição pela punição. Como o senhor vê isso?

Tanto é ruim a punição pela punição que muitas vezes as pessoas acham que outra foi condenada a dez anos de cadeia e está resolvido o problema. Mas, ela vai sair de lá. Se não tiver como reinserir no mercado de trabalho, na sociedade, vai voltar a delinquir. É óbvio que tem que se ter essa preocupação também com aqueles que estão presos. 

Essa questão da oposição, como o senhor está vendo, como estão as conversas entre os partidos e como entende que ela deva ocorrer a partir de agora?

Essa foi, sem dúvida, uma das campanhas mais difíceis da minha vida. O PSDB perdeu o protagonismo. O fato de eu estar no PSDB foi muito ruim para a eleição, assim como para outros partidos também, e o fato de não receber o fundo eleitoral. É a terceira disputa desde que o fundo foi instituído. Eu votei contra o fundo eleitoral e nunca recebi o fundo. Isso acaba gerando uma certa deslealdade porque cada deputado começou a sua campanha com R$ 3 milhões de dinheiro público. Nós começamos pedindo doações de um a um. Realmente, foi uma disparidade brutal. Por outro lado, foi uma eleição difícil para todo mundo. Vou dar um exemplo concreto: Campinas perdeu o Alexis (ex-deputado federal Alexis Fonteyne), que é um dos grandes nomes na área tributária, na área econômica do Parlamento. Nesse momento de reforma tributária, o posicionamento dele ali dentro seria muito importante. Eu votei no Bolsonaro e sempre tive uma posição de cobrança do PT. Se seu votei no Bolsonaro e ele não foi eleito, é natural que eu me torne oposição que nem preciso me justificar, porque, é óbvio, fui eleito com um pensamento contrário ao do PT. Nós elegemos, dos 513 deputados, aproximadamente 330 com um perfil mais de centro ou centro-direita. Só que desses 330, 230, em novembro, já estavam com o presidente Lula. Então, caímos para 100 ou cento e poucos. Dizem agora que alguns do PL também estariam saindo para integrar a base do governo. Então, uma coisa é certa: eu não saio, não tem discussão de emendas comigo, não estou à venda e, portanto, vou continuar tendo a posição que sempre tive. 

O senhor sempre defendeu suas bandeiras, mas o sexto mandato começa com novos desafios, novos temas a serem defendidos?

Eu continuo com as nossas bandeiras. A primeira delas é impedir os retrocessos que o Lula anuncia. A prisão em segunda instância continua uma luta nossa, o fim do foro privilegiado e agora vou voltar mais minha atuação para a área social e educação. Na área social, valorizando as entidades sociais, que fazem aquilo que o poder público deveria fazer e fazem graciosamente com voluntários. O mínimo que podemos fazer é usar recursos, por exemplo, através de emendas parlamentares, para ajudar no trabalho humanitário que fazem. Na área educacional, me envolver mais com essas questões. Até já procurei a Tabata (deputada federal Tabata Amaral (PSB)) para conversar sobre o tema, ver aonde posso ser útil. O meu principal tema é o combate à corrupção. Vou continuar denunciando todo e qualquer desmando que existir. O tema mais importante para o Brasil, nesse momento, é a reforma tributária. Obviamente que somos favoráveis e espero que venha para desburocratizar e facilitar a vida. Sendo uma reforma tributária que não implique aumento de impostos, eu voto a favor e assino embaixo. Eu defendo uma reforma tributária que reconheça que quem ganha três salários mínimos não pode pagar a mesma coisa de quem ganha trinta salários mínimos. Uma novidade importante é que vou ser escolhido como novo ouvidor-geral da Câmara. Fiquei sabendo pela conversa dos líderes que o Artur Lira (presidente da Câmara) queria me convidar para assumir a Ouvidoria Geral. É um cargo importante porque a Câmara tem o presidente, o vice dele, quatro secretários e um ouvidor-geral, todos com mandato de dois anos. Vai ser um momento que vou estar podendo ouvir aquilo o que as pessoas pensam do Parlamento, vou poder ser um agente dessas pessoas para transformar o Parlamento em algo mais harmonioso com a sociedade. Estou muito empolgado com essa nova missão e eventualmente propor mudanças a partir das sugestões populares. Ali, nossa interface será com a população em geral e com outros parlamentos.

O que o senhor espera do novo governo?

As sinalizações dadas pelo Lula, na sua primeira semana de mandato, foram péssimas. O fato dele furar o teto de gastos gera uma intranquilidade no mercado, porque não se sabe como se vai pagar a dívida pública. Se você tem um teto de gastos, você tem parâmetros que não pode gastar mais do que o crescimento da própria inflação. E se vier receitas extras? As receitas extras vão para pagar a dívida. Não só conseguiu a maioria para revogar o teto de gastos, como desconstitucionalizou o teto, trouxe para lei complementar. Portanto, a mudança pode ser feita nesse arcabouço por uma lei e não mais no texto constitucional. Questionou e está questionando todas as concessões e privatizações que foram feitas, avanços para o país, como o marco do saneamento. Posicionou-se favoravelmente a ditaduras de esquerda, deixando, inclusive, de assinar um documento redigido na ONU contrariando a postura ditatorial e realmente homicida de Daniel Ortega (presidente da Nicarágua), assim como também elogia Nicolás Maduro. Tiraram o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do Banco Central para submetê-lo ao Ministério da Economia, é inaceitável. O Coaf mexe com a vida financeira de todos nós, um partido político não pode ter essa informação, quem tem que ter é o Banco Central. São todas atitudes, ao meu sentir, erradas e todos os dias estou fiscalizando as ações do governo e denunciando os erros, denunciando aquilo em que ele se desdisse: 'Imposto de Renda até R$ 5 mil, não vamos cobrar'. Agora fixou em R$ 2,6 mil e a partir do ano que vem. Então, são coisas que ele falava de uma forma e agiu de outra. Montou um grupo de trabalho para definir o que é notícia inverídica, uma procuradoria que vai definir o que é desinformação. Essa procuradoria não pode definir, a critério do presidente da República, o que é desinformação. Quem define o que é desinformação é o Legislativo, sancionado pelo Executivo e julgado pelo Judiciário. Agora, ter uma procuradoria de democracia é muito bom, meus parabéns. Agora, dentre as suas funções, definir o conceito de desinformação, não. Isso não é um critério que pode estar ao talante deste ou daquele presidente da República. Tem que ser um conceito uniforme para todo o país. 

E a questão envolvendo o Banco Central, qual é a sua opinião?

A autonomia do Banco Central. Muito do que leva a situação estar crítica economicamente é resultado das coisas que ele (Lula) fala publicamente, desconsiderando o mercado e afastando investidores, tirando a segurança jurídica do país, acabam gerando mal-estar e faz com que a economia perca força. Ele, para buscar um responsável, joga nas costas do Banco Central, do presidente do Banco Central, dizendo que essa autonomia não é boa, que tinha que baixar os juros. Não é assim que se abaixam os juros. Os juros somente serão baixados quando tiver um arcabouço fiscal, quando ele tiver falas que demonstrem que vai respeitar as normas básicas da economia. Tudo isso, ele não está fazendo. É meu papel denunciar e apontar os erros. O Mercadante (Aloízio Mercadante, presidente do BNDES) coordenou a campanha dele e todo o programa de governo e, inclusive, tem notas fiscais do que ele recebia por mês, o que é correto, não tem nada de ilegal nisso. Mas ele, portanto, pela Lei das Estatais, não pode presidir o BNDES. A mudança da lei passou na Câmara, eu votei contra. A Lei das Estatais estava muito bem colocada para evitar o apadrinhamento político. Passou na Câmara, mas ainda não foi aprovada ainda pelo Senado. Ele não poderia ter nomeado, como de fato nomeou, o presidente do BNDES. São ações que estamos tomando porque foge do campo da legalidade. O que eu repudio é no campo da pessoa jurídica, eu não vou para cima da pessoa física. Muito menos crio histórias, não são fake news de autopromoção. Tudo o que eu falo na minha rede social, as pessoas podem cobrar de mim que vou dizer o por quê, como, onde e com que prova. Vou fazer aquilo o para que fui eleito: ser oposição ao governo eleito.

O senhor vê a necessidade de ter uma liderança mais forte para poder congregar quem está na oposição?

Neste momento, continuam os dois polos, um de esquerda, liderado pelo PT, junto com o PDT, PSB, e o de direita, pelo Bolsonaro, juntamente com os partidos que estão ao seu lado. Cabe um nome de centro-direita? Ao meu sentir, cabe, mas uma coisa é certa: o Brasil posicionou-se. Ele quer saber se as pessoas são de esquerda ou de direita, ainda que próximo ou não do centro. Isso ficou muito claro nessa eleição. Não acho que vai ter mais caminho para esse universo de partidos que ainda existem, vinte e poucos partidos. Acho que vão existir três, quatro, cinco federações, como o PSDB, que uniu-se ao Cidadania e agora estamos finalizando estudos para fazer federação com o Podemos também. Então, seríamos novamente 36 deputados. Seriam blocos dentro da Câmara, que unidos devem escolher seus candidatos a prefeito e os próximos candidatos a governador e a presidente. Então, acho que o caminho da política vai ser a formação de federações e ter espaço para no máximo quatro partidos.

Pegando o gancho da federação, duas perguntas em uma. Após a eleição, o senhor cogitou a possibilidade de sair do PSDB, como está esta situação hoje? O senhor já foi candidato a prefeito de Campinas: pretende concorrer novamente?

Não tenho essa pretensão. Eu sei que politicamente as pessoas dizem que eu não deveria dizer isso, mas é a pura verdade. Eu realmente gosto muito do que faço como deputado, me sinto realizado, represento Campinas e região. Eu sinto que o meu trabalho traz efeitos práticos para Campinas e nossa região e gosto desse meu papel parlamentar. Não tenho essa vocação mais para o Executivo. O PSDB é único partido ao qual fui filiado. Quando disse no final do ano passado sobre a possibilidade de sair, é mais ou menos o que eu disse aqui. O PSDB perdeu o protagonismo, a conexão com a sociedade e eu espero mesmo que nós nos reencontremos. Se não houver esse reencontro, eu preciso deixar o partido. Não tem como permanecer em um partido que não consiga mais ser o ator principal de ações importantes do país, ficar a reboque de outros partidos. 

Essa perda de protagonismo e a perda do diálogo com a sociedade não acontece de repente, é um processo. O partido demorou a perceber isso e gota d´água foi a perda do governo de São Paulo?

Foi a gota d´água. De 2014 para cá, nós começamos a perder esse protagonismo. Foi com a perda de eleição do Aécio (Aécio Neves, então candidato à Presidência da República pelo PSDB), depois, a partir dali, já começou a ter um acirramento entre direita e esquerda. O PSDB sempre se colocou como um partido de centro, só que as pessoas não entendiam que ele era um partido de centro. Entendiam que ele ficava em cima muro e não tinha uma opinião sobre o tema. Ele tinha, o PSDB tem grandes nomes ainda em suas fileiras, mas nós não soubemos transmitir isso. Sempre foi PSDB de um lado e PT do outro. A partir de 2018, ficou Bolsonaro de um lado e PT do outro. Nós não soubemos nos colocar, não éramos nem pró-Bolsonaro nem pró-Lula. Tanto que, na campanha de São Paulo, o slogan "Nem direita, nem esquerda. É pra frente que eu vou" não deu certo. A ideia era boa, mas as pessoas queriam que você dissesse "estou com a direita ou estou com a esquerda". .

Quanto a perda de identidade do PSDB, o Geraldo Alckmin deixou o partido, foi para o PSB e hoje é o vice-presidente da República. A migração de grandes lideranças para outros partidos faz parte desse processo de perda da identidade?

Pode ser. Eles buscaram um outro caminho. Eu confesso que esperava o Geraldo não fosse para esse outro caminho, porque ele sempre teve uma postura de centro-direita, sempre foi muito crítico ao PT. Mas, por entender que ele é uma das pessoas mais sérias que conheci na vida pública, ele tem suas razões para estar lá. Eu discordo, não acho que era o caminho que tínhamos que seguir, mas compreendo o que ele fez.

Como deputado por São Paulo, como é o diálogo com o Tarcísio?

Quando o conheci, ele disse que estava indo para o DNIT, no governo da Dilma (presidente Dilma Rousseff (PT)), da qual já era crítico para pôr ordem na casa, não porque era político. Ele era consultor da Câmara e capitão do Exército. Eu disse que se fosse por esse caminho, poderia contar com meu apoio. Depois teve um papel importantíssimo na gestão do Temer (presidente Michel Temer (MDB)]. Como ministro da Infraestrutura, a primeira bancada que o convidou para um bate-papo foi a nossa, quando eu era líder novamente, em 2019, e apresentou todos os projetos que tinha. O PSDB apoiou todos eles ao longo dos quatro anos. Então, temos uma relação muito próxima. Quando terminou a campanha, conversei no domingo com o Rodrigo e na segunda-feira foi o Tarcísio quem me ligou. A partir daí, organizamos toda a campanha dele no segundo turno, particularmente junto ao PSDB estadual, municipal da capital e nacional e fui parceiro dele. Digo que estou extremamente feliz com a postura do Tarcísio nesses dois primeiros meses no governo. Ele está dando um show de gestão pública, está sendo um excelente governador. Mais do que isso, um governador tecnicamente preparado, mas também solidário, uma visão social, uma preocupação com o próximo. A chance dele dar certo é 100% hoje, não tenho dúvida disso.

O senhor considera que ele é um nome forte para a próxima eleição para presidente da República?

Eu não tenho a menor dúvida. Qualquer governador de São Paulo é um nome forte. Mas, tenho para mim, que ele saia a reeleição. É um sentimento muito meu que ele cumprirá oito anos de mandato em São Paulo.

Na área da infraestrutura, tem dois projetos que envolvem Campinas e região: o trem intercidades e o trem-bala. Como o senhor vê esses dois projetos?

Voltando um pouco atrás, na gestão do Jonas (Jonas Donizette (PSB), ex-prefeito de Campinas), acho que o maior problema era viabilizar o BRT. Eu fiquei muito feliz porque consegui a liberação de R$ 96 milhões para o BRT. Infelizmente, o projeto não atingiu os seus objetivos, mas espero que faça isso o quanto antes. Agora, é numa gestão política junto ao governo do Estado e governo federal. No Estado, vejo total predisposição do governador em realmente tirar do papel o trem intercidades. Na questão do trem-bala, recebi a informação do próprio Dário, o prefeito, que Campinas não estaria incluída nesse projeto. Nós vamos fazer, assim que começar as comissões na Câmara, os requerimentos e audiência pública para que a gente possa ouvir do governo federal porque Campinas não está incluída. 

Como é o diálogo com os prefeitos da região?

Total. Eu não apoiei o Dário porque ele foi escolhido em um segundo momento. Primeiro era o Vandão (Wanderley de Almeida, atual vice-prefeito e secretário municipal de Relações Institucionais). Eu disse ao Jonas que não o apoiaríamos porque não tínhamos uma afinidade ideológica com o Vandão. Aí já estávamos apoiando outro candidato quando o Dário foi indicado para disputar a prefeitura. Gosto muito do Dário, sou amigo dele desde a época que era vereador e ele presidente do (Hospital Municipal Dr.) Mário Gatti. Essa amizade nunca foi abalada por nada, muito pelo contrário. Terminada a eleição, tomou posse e no mesmo mês de janeiro já estava falando com ele para ajudar naquilo que for importante para o governo de Campinas. Faz dois anos e três meses que falo com ele todos os meses estou ao lado dele para trazer recursos para Campinas. Lutamos para trazer recursos que faltavam para o Centro de Convivência e conseguimos recursos do governo do Estado.

Como podemos fazer a leitura do Congresso após a renovação na eleição de outubro?

Foi quase a metade, foram 239 novos deputados. Em nenhuma das duas Casas o Lula tem maioria. Toda a maioria que ele tiver vai ser com base no apoio que buscará no Centrão, do PP, União Brasil e PSD. Somente não sei se ele terá êxito naquilo que pode implicar em retrocesso. Por exemplo, rever concessões: acho que não terá êxito algum. Rever as reformas previdenciária e trabalhista: chance nula de aprovar no Congresso, mesmo tendo a maioria absoluta depois de um determinado momento, coisa que hoje ele não tem. São retrocessos que o Parlamento está muito atento e não vai permitir que aconteçam. A vantagem que ele tem é o Rodrigo (Rodrigo Pacheco (PSD), presidente do Senado), que teve uma afinidade bastante grande com ele. Foi eleito em grande parte pelo apoio do PT a ele, diferentemente do Lira (Arthur Lira (Progressistas), presidente da Câmara Federal), que foi eleito com o respeito que ele tem dos deputados. Zero de interferência do Executivo ou do Judiciário, foi ele por ele. Isso foi bom para o Parlamento, nos dá uma independência infinitamente maior. Acho que ele terá dificuldades. Se pudesse dar uma sugestão a ele, seria que falasse menos e fizesse mais. Todas as vezes que fala, gera um problema para o Brasil enorme. Um exemplo foi no Dia Internacional da Mulher dizer que a Dilma foi vítima de um golpe. Ele diz que aceita, defende a democracia, mas um impeachment feito com base na Constituição, presidido pelo Lewandowski (Ricardo Lewandowski, ministro do STF), amigo pessoal dele, indicado por ele, foi um golpe. Isso não é correto, não faz bem ao país. O maior defensor de CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) no Brasil era o Lula. Ele falava: "quem não assina, pode escrever, tem o rabo preso". Agora, assinei a CPI para apurar a questão do dia 8 de janeiro, todos querem essa apuração, mas ele está ameaçando não pagar emendas para os novos deputados e não pagar os antigos se não retirarem as assinaturas. Os deputados já começaram a retirar, olha que absurdo. Eu assinei, não retiro e vou até o fim.

Um tema que está na pauta nacional e estadual, inclusive parece ser um dos principais projetos do Tarcísio, é a questão a reindustrialização. Como vê isso e como o Parlamento pode ajudar nessas discussões?

O Tarcísio acerta mais uma vez. Eu acho realmente que a indústria acabou ficando a parte no que tange as ações de governo, seja na área de prestação de serviço, seja na área das grandes empresas. Eu acho que a indústria deve ser valorizada e devem ser buscados mecanismos para ela. O Parlamento é caminho onde podem tramitar as boas sugestões dos gestores. 

Diante de uma vida agitada como parlamentar, ponte aérea, sobra tempo para hobby? 

Caminhada. Eu voltei a caminhar faz uns dois anos, emagreci bastante e quero manter o meu peso. O final de semana, para mim, é sagrado para a família. As minhas atividades políticas são de segunda a sexta. 

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