O ataque ao local, que tem uma imagem do guardião, usou tinta branca e fezes

Capela, que fica no Cemitério da Saudade, em Campinas; as associações e entidades representativas se mobilizaram para repudiar o ato de preconceito (Kamá Ribeiro)
Em mais uma ação de intolerância religiosa, a Capela do Senhor Tranca Rua das Almas, localizada no Cemitério da Saudade, em Campinas, foi vandalizada com tinta branca e fezes na manhã do último domingo. Há um vidro protegendo a escultura em homenagem ao guardião, instalada há poucos meses no local, porém, ele não foi suficiente para evitar que a imagem fosse vilipendiada.
Isso porque, depois de possivelmente atirar a tinta que se espalhou pelo vidro, a pessoa que cometeu o ato de intolerância - e que ainda não foi identificada - conseguiu, com a ajuda de um objeto, abrir o vidro protetor para prosseguir com a depredação do santuário e atingir a imagem do Tranca Rua.
A ação causou revolta e indignação entre os praticantes de religiões de matriz africana. A Associação das Comunidades Tradicionais e de Cultura Popular Brasileira (Acoucai) emitiu uma carta de repúdio ao lado dos dirigentes do Templo San Miguel das Almas. Nela, há a revelação de que fezes já haviam sido jogadas no telhado da capela na semana passada.
Na visão da Associação, o crescimento da violência e perseguição contra os praticantes das religiões de matriz africana "nos leva a reviver em memórias amargas os tempos da escravidão e das Delegacias de Costumes e ainda as práticas da polícia ditatorial do regime de exceção brasileiro, que perseguiam adeptos de religiões negras, restringindo seus cultos e coagindo a prática de sua fé."
A nota de repúdio é concluída com um ditado yoruba que diz que a faca, por mais afiada que seja, nunca irá riscar o seu próprio cabo. "Desta forma, afirmamos que os intolerantes não passarão impunes, pois temos a força da lei e dos nossos ancestrais."
Os Serviços Técnicos Gerais (Setec) informou, em nota, que no "domingo passado, por volta das 11h, foi identificado que alguém havia jogado tinta branca no interior do referido santuário. A Setec teve conhecimento e, prontamente, buscou identificar o autor, o que não foi possível. Assim sendo, foi aberto um procedimento para investigar o ocorrido e identificar o responsável".
Radicalização do discurso
O professor de Ciências Políticas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Vitor Barletta Machado, ressaltou que os casos de intolerância religiosa não são novidade, mas que, atualmente, há uma peculiaridade devido ao clima político acirrado, em que um dos lados da disputa se coloca como representante de um tipo específico de fé, com discursos radicais.
"Não é uma fala de acolhimento, pertencimento, de respeito à diversidade religiosa. É visível o fortalecimento e surgimento de demonstrações de um discurso religioso que é excludente, que se coloca em guerra contra o oponente. Então, ocorre uma radicalização nessa questão, em particular nos últimos tempos (...) No cenário em que estamos, com a disputa que acontece, temos visto grupos que estão usando, de maneira muito ativa, esse discurso como uma arma política (...) Temos assim a intensificação desse cenário de disputa e conflito, porque esse tipo de grupo político, de ideologia, depende da existência do conflito permanente para poder prosperar".
Como exemplo, o cientista político citou a confusão ocorrida no último dia 12 de outubro, em Aparecida, causada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na mesma linha, o tesoureiro nacional da Acoucai, responsável pela Acucai Campinas, Babá Geizo de Xangô, comentou o crescimento dos atos de intolerância e violência contra os praticantes de religiões de matriz africana.
"Eu vou ser sincero: as pessoas me perguntam se associamos o ocorrido ao momento político. Até que sim, mas isso sempre existiu. Sempre fomos alvos, mas agora está mais exacerbado, crescendo de uma tal forma que nem podemos mais sair na rua com as nossas vestes que o pessoal quer nos atacar. Alguma providência precisa ser tomada. Estamos retrocedendo, voltando à época das delegacias de repressão aos cultos afros, aos negros. E Campinas, historicamente, é uma cidade racista, todos nós sabemos. Foi o último município a abolir a escravidão."
O advogado e coordenador do departamento jurídico da Acoucai, Rômulo Silva, informou que, além de notificar a Setec para que seja aberto procedimento interno, um boletim de ocorrência foi registrado para que outras providências sejam tomadas. Ele disse ainda que vai acionar a Central Integrada de Monitoramento de Campinas (CIMCamp) para averiguar se há algo nas imagens do sistema de câmeras de monitoramento.
"Nós também vamos representar junto ao Ministério Público (MP), que tem uma atuação forte em Campinas na questão da intolerância religiosa, para que atenda a mais este caso. Outros locais de cultos afro-brasileiros sofreram atentados parecidos, com fezes, tinta."
Assim como o advogado, a nota de repúdio da Acoucai lembrou que a Constituição de 1988 garante a liberdade religiosa e citou os direitos garantidos ao manifestar o descontentamento com a violência.
"Irmanados na defesa do Estado Democrático de Direito, do Estado Laico e dos princípios constitucionais de dignidade e de liberdade de consciência, religião e convicção perpetuados na Carta Magna de 1988, conclamamos nossos irmãos para que, em uma corrente, copiem e colem este manifesto em suas redes sociais, com o nome de suas casas, instituições ou pessoais, a fim de atingir o maior número possível de visualizações, afirmando em uma só voz que vestimos branco e, assim, repudiamos todo e qualquer ato de vandalismo, violência, discriminação, racismo e intolerância religiosa."
Quem é Tranca Rua?
O sacerdote de Umbanda, Daiimom Ruas, explicou que ele é um dos guardiões mais antigos e é cultuado no Cemitério da Saudade há mais de um século. Babá Geizo de Xangô disse que é feita uma associação entre as religiões de matriz africana e o culto ao demônio, ao diabo, e que isso é uma forma de racismo religioso.
"Isso vem de muitos e muitos anos. Na realidade, Exu é uma entidade do panteão yoruba. É um orixá da comunicação, da prosperidade, que leva as nossas demandas até Olodumare, nosso grande criador. Aqui no Brasil, associaram a imagem de Exu ao diabo, então, de tabela, relacionam o culto, tanto da Umbanda, Candomblé, Quimbanda, a uma coisa do mal. É um racismo religioso. Digo o seguinte para as pessoas: os cristãos cultuam o grande antepassado deles, Jesus Cristo, em quem eu também acredito. Todos nós acreditamos. Mas quando cultuamos os nossos antepassados, [As pessoas]demonizam, porque veio do continente africano, da Nigéria para cá. Eles deturpam totalmente, mas o sêo Tranca Rua é um guardião. Um homem sábio que viveu nessa terra."