MOBILIDADE

Campineiros adotam a bicicleta como opção saudável de transporte

Comemorado ontem, o Dia Mundial da Bicicleta busca conscientizar a população sobre as vantagens do modal

Edimarcio A. Monteiro/edimarcio.augusto@rac.com.br
04/06/2026 às 16:23.
Atualizado em 04/06/2026 às 16:23

O professor de inglês João Paulo Pavageau, de 60 anos, tomou em 2022 a decisão de vender o carro e se locomover pelas ruas da cidade de bicicleta (Alessandro Torres)

O professor de inglês João Paulo Pavageau, de 60 anos, tomou em 2022 uma decisão considerada radical por muitos: vendeu o carro e passou a se locomover entre os bairros de Campinas de bicicleta. “Eu não aguentava mais dirigir, ficava estressado no trânsito”, explicou. Hoje, pedala para ir a qualquer lugar, com as compras de supermercado, por exemplo, sendo levadas em mochila. Ontem, no Dia Mundial da Bicicleta, percorreu os 2,6 quilômetros entre a sua casa, no Jardim Chapadão, e o Parque Portugal (Lagoa do Taquaral) para se exercitar com a companheira de duas rodas. 

“Comprei uma bicicleta mais simples para ver se me adaptava. Agora estou pensando em comprar uma melhor”, disse Pavageau. Eventualmente, dependendo do compromisso, faz uso de carro de aplicativo para se locomover, mas na condição de passageiro. Não se vê novamente ao volante. Ele representa uma mudança de comportamento que avança entre as pessoas em busca de uma vida mais saudável e um meio de transporte ligado ao bem-estar, saúde mental e qualidade de vida. “Minha saúde melhorou depois que comecei a andar de bicicleta. Perdi peso e me faz bem pedalar vendo isso aqui”, afirmou o ciclista enquanto dava a volta na Lagoa do Taquaral. 

Ele não está sozinha nessa mudança de vida. O ajudante de produção Renan Oliveira, de 30 anos, costuma percorrer de bicicleta os 44 quilômetros de ida e volta entre o Vila Padre Anchieta e o campus I da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. “Isso, para mim, é normal. Não vejo como um sacrifício”, explicou. Para ele, foi natural voltar a pedalar, retomando a diversão infantil de quando era criança no Pará, quando se cansou de usar ônibus para trabalhar. “Eu tinha que andar de qualquer jeito. Agora, saio um pouco mais cedo, mas tenho uma vida mais saudável”, afirmou. 

EXPANSÃO 

Renan Oliveira não tem carro e nem tem a intenção de comprar. No máximo, continuar sobre duas rodas. “Eu penso em comprar uma moto para poder fazer passeios mais longos”, disse. O avanço desse hábito foi acompanhado pela ampliação do sistema cicloviário de Campinas, que mais do que dobrou nos últimos cinco anos. Os números da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) indicacam o sistema cicloviário com 123,7 km, servindo tanto para o lazer quanto para a mobilidade urbana. 

As ciclovias estão espalhadas pela cidade, do Centro aos distritos do Campo Grande, Ouro Verde, Sousas e Joaquim Egídio. Uma pesquisa recente divulgada pela Emdec apontou que a maioria dos ciclistas que utilizam o Sistema Cicloviário do Distrito de Barão Geraldo pedala entre 5 e 15 km (45% do total) e usa as rotas tanto em dias úteis quanto nos finais de semana. 

Segundo o levantamento, 830 ciclistas utilizam essas vias diariamente, com a maioria dos usuários sendo estudantes universitários. De acordo com a Emdec, no primeiro trimestre de 2026, nenhum ciclista perdeu a vida no trânsito neste ano. Em 2025, foram cinco mortes de ciclistas em vias urbanas e rodovias. Destes cinco, três morreram em vias urbanas, número 40% menor do que o registrado pelo mesmo motivo em 2024 

MOTIVOS 

O jornalista especializado em ciclismo Marcos Adami começou a pedalar há 26 anos por motivos de saúde e não parou mais. “Uma vez eu fui numa campanha dessas de diabetes e naquela a minha glicemia estava elevada. Eu tenho histórico na família de diabéticos, e os médicos me indicaram duas saídas: ou você vai entrar naquela de insulina ou começa imediatamente a fazer algum esporte de atividade física. Eu sempre gostei de ciclismo e voltei a pedalar com seriedade”, contou. 

Para ele, Campinas tem uma boa malha cicloviária, mas as ciclofaixas e ciclovias precisavam ser interligadas para não ficaram restritas a circulação em bairros. Criador e mantenedor de um prestigiado site sobre ciclismo, o Bike Magazine, Marcos Adami considera que Campinas precisa criar ciclorrotas para permitir ligações entre regiões diferentes. 

O jornalista considera que a cidade perdeu a oportunidade de ampliar o sistema cicloviário e unir bairros com a implantação de grande corredores para bicicletas, como nas linhas de BRT das avenidas John Boyd Dunlop, Amoreiras ou abertura da Avenida Guilherme Campos, ligando o Alto Taquaral a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Barão Geraldo. 

“Na Europa, essa questão de uso de bicicleta é mais tranquila, tem mais estrutura. Há ciclorrotas turísticas ligando os países”, explicou o jornalista, que morou na Itália. O novo consórcio da Rota Mogiana, rodovias que cortam a região, deverá investir cerca de R$ 30 milhões na implantação de uma ciclovia de 25 km de extensão para atender moradores e turistas. O trajeto será implantado ao longo da Rodovia Prefeito Aziz Lian (SP-107), da altura do km 18,8, em Artur Nogueira, até Santo Antônio de Posse, no km 43,9, passando por Holambra. 

A futura ciclovia será uma das maiores do Estado de São Paulo, superando os 22,2 quilômetros do traçado da Marginal Pinheiros, na capital, e os 22,5 km do trajeto localizado na Praia Grande, na Baixada Santista. Além de ser uma atividade saudável e ambientalmente correta, o ciclismo é motivo de integração social. O Campinas Bike Clube conta com cerca de 500 integrantes, dos quais 200 participam semanalmente dos passeios diurnos e turnos realizados as terças, quintas, sábados e domingos, com trajetos de 20 a 40 km, passando por vários pontos de Campinas ou trilhas de Barão Geraldo, Paulínia, Sousas e Joaquim Egídio. 

“A gente tem vários casos no grupo de pessoas que tinham problema de saúde e que melhoraram com a prática do exercício físico e deixaram até de tomar remédio”, contou o presidente da ONG, Luís Carlos Rosa. As fotos dos passeios mostram a diversão dos ciclistas. Além de ser um incentivador do ciclismo, ele é um dos exemplos dos benefícios da atividade. “Há três anos, eu fui diagnosticado com doença de Parkinson. A recomendação médica foi continuar praticando ciclismo, que isso me ajuda tanto no fortalecimento muscular com na questão de equilíbrio”, explicou. 

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