o resgate da alegria do circo

Campinas se tornou um polo fértil nas artes circenses

A cidade se destaca com pesquisas acadêmicas e artistas que se dedicam ao resgate de uma arte milenar que fascina adultos e crianças

Cibele Vieira/ [email protected]
26/03/2023 às 17:44.
Atualizado em 26/03/2023 às 17:53
A palhaça Jasmim, interpretada por Lily Curcio (Divulgação)

A palhaça Jasmim, interpretada por Lily Curcio (Divulgação)

O Dia Nacional do Circo é celebrado em 27 de março em homenagem às artes circenses e foi escolhido por ser a data de nascimento do palhaço Piolin, um sucesso na década de 1920. Quase extinto com o surgimento do cinema e da televisão, o circo vem ressurgindo de forma intensa com um trabalho fomentado por estudos nas universidades e grupos que têm resgatado conhecimentos e técnicas ancestrais, mas agregado com modernidades tecnológicas. Nesse sentido, Campinas tem se destacado por concentrar grande número de grupos teatrais e artistas com a vertente circense, além de várias escolas de formação voltadas para as muitas modalidades de um circo. 

Um bom exemplo desta concentração de habilidades foi o desfile do Bloco do Circo, em Barão Geraldo, que reuniu no carnaval mais de 15 grupos circenses da cidade. O evento estava previsto para ser repetido em forma de cortejo ontem, na Praça do Coco, em homenagem à data comemorativa. Um desfile divertido de cores, malabares, palhaços, acrobatas e mágicos, seguidos pela banda típica e muitos foliões. "Acho que esta coisa mística do circo é algo que toca o inconsciente coletivo, é um fenômeno que encanta, transcende, ultrapassa os limites do ser humano, seja criança ou adulto", diz Lily Curcio, uma das atrizes mais experientes do Brasil na arte da palhaçaria. 

Viva o palhaço

A palhaça Jasmim, personagem interpretada por Lily, já tem quase 30 anos de criação. "Tenho a vantagem de interpretar um palhaço, que quanto mais velho e experiente, melhor a atuação, ao contrário de bailarinas e acrobatas", brinca a artista de 68 anos, mas com uma energia que remete aos 20 ou 30 anos de idade. Ela avalia que há muitos anos o circo vem sendo revalorizado, tanto nas universidades com projetos de pesquisa e livros dedicados a esse universo, com um enfoque científico. "Isso é muito importante para colocar o circo no lugar que ele merece e não como uma arte menor", comenta. 

Lily é uma estudiosa da palhaçaria clássica, reconhecida e premiada internacionalmente. Fundou em Campinas, há 30 anos, o grupo Seres de Luz Teatro, que cujo trabalho já a levou como representante do Brasil a mais de uma dezena de festivais internacionais. Atualmente ela está circulando em outros países com o espetáculo "Jasmim e a última flor". Em 17 de maio deve retornar ao Sesc Campinas, com a obra "Pedaços de Mim", que conta a história da mulher, mãe, artista e palhaça, por meio de fragmentos de seu repertório artístico. "Mostra a arte da palhaçaria, apesar das dores do palhaço", diz. 

Voando nas alturas

Os irmãos campineiros André e Martin Sabatino começaram, ainda crianças, a praticar as acrobacias da ginástica olímpica e chegaram a integrar a equipe de ginastas de Campinas, em várias competições, colecionando medalhas. Mas quando foram fazer a faculdade - André na Educação Física da Unicamp e Martin na Faculdade de Esportes da USP - não conseguiram conciliar estudo e carreira. A alternativa para se manter nas acrobacias que tanto gostavam foi pesquisar e buscar especialização nas artes circenses. Foi assim que se transformaram em trapezistas de voos e criaram, em 2009, a companhia Sabatino Bros, sediada em Joaquim Egídio e a única da cidade no segmento de trapézio voador. Depois de atuações da dupla pela Europa e a experiência de André na montagem de um espetáculo do Circo de Soleil, os irmãos voltaram a Campinas, onde montam espetáculos principalmente com trapézios volares e performances aéreas em shows. 

"Desde que começamos, o campo circense era um terreno bem fértil e promissor, e hoje temos muitas companhias na cidade trabalhando as artes do circo", comenta André. Há pouco artistas atuando nessa modalidade, explica, "porque a prática exige muita estrutura e espaços específicos, é mais comum em circos tradicionais de lona". Não é só o virtuosismo e a técnica, mas o contexto de aproximar o público, aliado ao risco da prática, que encanta e maravilha, relata. Ele mesmo já teve um acidente sério em uma apresentação na Itália, quando a mão escorregou, ele se chocou em outro acrobata, desmaiou, quebrou nariz e dentes, tudo diante do público. "Foi tenso, mas o show não pode parar", afirma, lembrando que a agenda de shows da dupla para este ano já começa a se movimentar com duas montagens em circulação. 

Música no picadeiro 

A musicalidade do picadeiro é um pouco diferente do que é tocado em outros locais. Inclusive porque os instrumentos são selecionados para permitir mobilidade aos músicos, principalmente em apresentações de rua. Desse tipo de composição o músico chileno Arturo Cussen, radicado em Campinas, entende bem. Ele é clarinetista, dá aulas de instrumentos mais usados em cortejos circenses e tem composições próprias lançadas em álbuns disponíveis em plataformas digitais (um infantil e um instrumental). 

Os ritmos mais comuns para essas apresentações são o mambo, polca e valsa, enquanto os instrumentos geralmente usados nos cortejos de circo, segundo o músico, são os de percussão (bumbo, caixa, prato, campana), sopros (clarinete, trompete, trombone, tuba, sax) e lira (uma espécie de teclado ou marimba metálica). Cussen está no Brasil há 15 anos, veio estudar música brasileira. No período em que morou no Rio de Janeiro, fundou a banda Songoro Cosongo que atuou no Circo Voador. Ele usou essa experiência musical de cortejo para ajudar a criar em Campinas o Bloco dos Circos. 

Ensinando os mais novos

Aulas no picadeiro é uma das propostas da companhia Circo da Silva, sediada em Campinas há cinco anos. A artista Paula Preiss, que trabalha as artes da palhaçaria, criou dentro da companhia uma pequena estrutura de lona que deu o nome de Circalonna: "um circo cuja dona é uma mulher e é palhaça, como se fosse a matriarca do circo", brinca. É debaixo dessa lona em seu quintal, que ela oferece aulas de música e artes circenses integradas para crianças. 

A dona "Circalonna da Silva" ressalta a importância da concentração de escolas, grupos de teatro e artistas autônomos na cidade que trabalham a vertente do circo. "Isso se deve ao fomento das pesquisas e publicações da Unicamp e também aos cursos de formação oferecidos pelo Lume Teatro nessa arte da palhaçaria, além de estudiosos que se dedicam a resgatar técnicas antigas, números já criados e reestudados, os palhaços, a musicalidade, tudo isso para manter viva esta arte", comenta. 

Campinas teve dois grandes circos 

O Circo Garcia foi a companhia brasileira de maior longevidade (1928-2002). Foi fundado em Campinas por Antolin Garcia, um paulistano filho de imigrantes espanhóis. No final dos anos 1940, o Garcia deixou de ser circo-teatro e tornou-se circo de variedades. O sucesso no exterior veio entre 1954 e 1964, quando a companhia - com cinco lonas e cerca de 200 artistas contratados - viajou pelo mundo com apresentações em 72 países. A companhia circense chegou a figurar, na década de 1970, entre as quatro maiores do mundo. As cortinas se fecharam definitivamente no final de 2002, em São Paulo, à véspera de completar 75 anos, com muitas dívidas.

O Circo Teatro Irmãos Almeida, dos anos 1950, foi conduzido em Campinas por Walter de Almeida, neto de um artista mambembe chinês. Almeida começou sua carreira circense aos 24 anos de idade. Depois de um período com apresentações de dança e música no interior paulista, a companhia se tornou um circo fixo estabelecido em Campinas em 1960, em local chamado Pavilhão Teatral Irmãos Almeida. A família toda trabalhava nos espetáculos, exibindo peças como se fossem novelas televisivas. Encerrou atividades em 1975, após perder espaço na preferência popular diante de novos entretenimentos, principalmente a televisão. Walter faleceu em Campinas em 2019, aos 94 anos.

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