DIVERSÃO COM CAUTELA

Campinas registrou 130 interrupções de energia causadas por pipas até maio

Brincadeira pode causar consequências sérias se feita de maneira imprudente ou com uso de itens proibidos, como o cerol

Luiz Felipe Leite/luiz.leite@rac.com.br
21/07/2024 às 09:12.
Atualizado em 21/07/2024 às 09:12

Garoto empina pipa em um bairro da periferia de Campinas, próximo à rede elétrica, sem perceber os riscos que essa inocente brincadeira pode trazer; especialistas alertam para o possível aumento de incidentes envolvendo pipas em redes elétricas (Rodrigo Zanotto)

O número de pipas subindo aos céus de Campinas costuma aumentar em julho, época de férias escolares e com clima geralmente mais seco por causa do inverno. No entanto, especialistas alertam que esse panorama deve piorar algumas situações já existentes: acidentes graves e transtornos à população, com a interferência do brinquedo na rede de fiação elétrica e o uso de itens proibidos, como o cerol – mistura de cola ou derivados e vidro moído, usado para empinar pipas –, situações que podem causar ferimentos e até mortes.

Um exemplo disso foi apontado pela CPFL Energia, responsável pelo fornecimento de energia elétrica na região. A empresa informou que foram registradas 383 interrupções no fornecimento de luz causadas por pipas entre janeiro e maio deste ano na área de cobertura que engloba Campinas e outras 33 cidades. Dessas, 130 foram na maior cidade da Região Metropolitana de Campinas (RMC), que lidera o ranking. Na sequência apareceram os municípios de Sumaré, em segundo lugar com 54 casos, e Hortolândia, terceira posição com 40 ocorrências. 

Segundo o consultor de relacionamento da CPFL Paulista, Fernando Amaral Zica, os locais ideais para pessoas empinarem pipa são em campos abertos e distantes da rede elétrica. Nos ambientes urbanos, uma tentação que deve ser evitada é levantar pipas em canteiros de rodovias e avenidas. Nesses locais, tanto a fiação como o tráfego de veículos apresentam riscos. Caso a imprudência seja cometida e durante a brincadeira a pipa enroscar na fiação ou cair próximo a equipamentos elétricos, a orientação é para que, em hipótese alguma, tente-se resgatá-la. “O primeiro ponto e o mais importante é deixarmos claro para os pais, filhos e colegas dos riscos de soltar pipas perto da rede de energia. Um choque elétrico pode ser fatal”, avisou.

O alerta foi reforçado pelo professor do curso de Engenharia Elétrica da UniMAX Indaiatuba, Felipe Henrique Souza Fonseca, que acrescentou outro problema causado por pipas presas na fiação de energia, o impacto na rede elétrica. “Muitas vezes ocorre um curto-circuito, ocasionando uma queda de energia na região mais afetada. E na ansiedade solucionar o problema, as pessoas acham que podem resolver subindo nos postes para retirar as pipas. Isso não deve ser feito em hipótese alguma. Nesses casos, a concessionária de energia local deve ser acionada para enviar uma equipe com o objetivo de fazer os reparos necessários”, explicou.

CEROL 

Em Campinas, o uso de cerol é considerado crime. A legislação municipal, proposta em 2008 pelo então vereador Valdir Terrazan, foi regulamentada no ano passado por meio de decreto assinado pelo prefeito Dário Saadi (Republicanos), após indicação da vereadora Débora Palermo (PL). A lei nº 13.466 proíbe o uso, a produção, o comércio, armazenamento, transporte e distribuição do material ou de qualquer outro que seja cortante e usado para empinar pipas. 

Quem descumprir a lei receberá multa de R$ 4.665,90, correspondente a mil Unidades Fiscais de Campinas (UFICs). Em caso de reincidência, a multa dobra. Pais ou responsáveis legais assumem a consequência se a infração for cometida por um menor de idade. Além da multa, também receberão advertência escrita. Se for empresa jurídica e houver três infrações, a Secretaria Municipal de Urbanismo está autorizada a cancelar o Alvará de Uso ou o Certificado de Licenciamento Integrado e lacrar o estabelecimento. O cerol apreendido será descartado em até dez dias. 

Além de representarem perigo a pedestres e motociclistas, esse tipo de material, por conduzir energia, potencializa os riscos de choque quando em contato com a rede elétrica. “Usar cerol é um crime. Ponto. A legislação existente já deixa isso claro. Em Campinas, em especial, é proibida a comercialização da linha chilena e do uso do cerol. Então escolha uma linha que seja compatível. É possível brincar com segurança. Ou seja, evite o material cortante. Quantos acidentes a gente tem de motociclistas, de pedestres, por causa do uso de materiais ilegais? Tivemos inclusive perdas de vidas”, recomendou e observou o consultor de relacionamento da CPFL Paulista, Fernando Amaral Zica. 

Na avaliação do professor do curso de Engenharia Elétrica da UniMAX Indaiatuba, Felipe Henrique Souza Fonseca, existe uma tendência de incidentes envolvendo pipas acontecerem com mais frequência nesta época do ano, já que se trata de um período de férias escolares e com um clima geralmente menos chuvoso, por causa do inverno. “A recomendação mais básica é, claro, cumprir a lei e não utilizar produtos proibidos como o cerol. Além do risco para a rede de energia, pois se trata de um material que conduz eletricidade, podemos observar vários impactos pelo contato com esse tipo de item. Todo tipo de conscientização nesse sentido é importante para que essa informação chegue ao máximo possível de pessoas”, opinou.

HISTÓRIAS 

O jovem Luis Rodrigues, de 10 anos, está de férias da escola. Ele vive com a família no bairro Jardim do Lago II, em Campinas. O menino costuma empinar pipas com os amigos na Rua Marcelina Rodrigues Paschoal. Ele destacou os alertas constantes da mãe, para evitar brincar próximo à rede elétrica. “E quando uma pipa ficar presa nos fios elétricos é para eu deixar por lá mesmo e depois tentar arrumar outra”, repetiu a orientação que escuta constantemente. 

Henrique dos Santos Moura é neto de Helena Maria de Faria dos Santos. Ele também está de férias. Moradores do bairro Jardim San Diego, em Campinas, eles costumam procurar uma área de pasto, perto da Rua Athos Astolfi, para que o jovem empine pipas com os amigos. A idosa contou sobre as principais preocupações da família. “Sempre quando o tempo começa a virar, (que está) para começar uma chuva, deixamos ele longe das pipas. E em hipótese alguma permitimos que use cerol. Sabemos que é muito perigoso”, pontuou.

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